Nota

Hallelujah

womanalone

Já faz cinco meses que jantara. Há algum tempo, na curva fechada dos lábios perdera além da fome, a direção. O que era forte e belo, agora dissipava-se diante da insensatez e do medo. Ao fundo os pequenos ouvidos apreciavam os acordes melancólicos daquela conhecida oração. Na violência da escuridão, as primeiras e translúcidas mensagens transbordavam em sintonia, enquanto o pulso buscava o ritmo. Lembrei de você! Luzes e vozes ecoaram, mas não abafaram as notas que persistiam em manter o ritmo em mim, evitando que a vida entrasse em uníssono e silêncio. Invisível, você encontrava formas de se fazer presente: as notas agudas reverberavam e em graves toques embalavam meu corpo. Acalmada, sinto agora uma brisa delicada, um suspiro quente e algo deslizando superficialmente sobre a pele macia. As notas ganharam vida, transbordaram em sentimentos lúcidos e límpidos que agora entrego a ti, só cuidado para não se molhar.

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Nota

o(ração) criogênica

Com as ferramentas que possui, começa a esculpir o objeto disforme em si: estranho artefato pulsante preenchido por gélidas desesperanças de um horizonte azul. Mal nasce, já morre. Perde logo no primeiro sopro as unhas antes só roídas; o líquido carmin  escorre profanando o relógio de areia; bolhas saltam em uma manifestação de emoções violentas. A língua fervente afoga o grito que nasce nas entranhas. Mudos os olhos fitam a parede calfinada. A imponente torre de outrora – tronco firme da espinha – rui às suas costas; segue alicerçando o velho castelo de cartas. Corcunda e desajeitado nota pela primeira vez: ter pés.

Nota

Esta também é uma história de terror

Vendo você…

Nota

Reverso

sentei-pra-te-escrever

Sentei pra te escrever estas linhas não tortas, mas avessas e, travessa, senti aqui… bem aqui nessa caixa feita de batimentos e ar rarefeito, que eu atravessava não uma ponte… não uma rua… mas um turbilhão de sentimentos inversos aos que eu queria te contar.

Revoltei-me: de dentro pra fora, no contrário de mim, expus-me novamente a esse gesto tão traquina que é escrever.

Agora vai.

Encontrei essa folha amassada num canto da gaveta e pensei que talvez fosse uma boa ideia, uma hora boa pra colocar algumas coisas aqui, agora que o frenesim passou e o mar parece calmo novamente.

Hei, talvez você a receba na semana que vem. Claro, se o moço, aquele que passa de casa em casa fazendo as correspondências e ligando os pontos, não se esquecer de passar na tua rua e nem de apertar a tua campainha. Só espero que ele não saia correndo… assim como fiz tantas vezes.

Hei, mas espera, acredita, ela vai chegar, talvez um pouco mais amassada do que quando a escrevi, mas sei que a entenderá, pois sentirá no toque do papel tudo aquilo que quis te falar.

Nota

Entorpecer

Dormi vinte dias
acordei semanas
do céu desabavam medos
e aqui dentro pingavam sonhos

os anos de repente caíram sobre mim
como chuvas torrenciais
incessantes… angustiantes
deixei as roupas molhadas pelo chão

o peso da chuva desbotou-me
amarelos azuis vermelhos
substituídos pelo cinza fúnebre
tentei vestir-me de vida

………………………
não consegui

Nota

Não houve ninguém

Apesar do dia radiante que via pela janela, dentro era tudo sombrio e escuro. Levantou-se cedo, espiou rapidamente a vida lá fora e deixou as cortinas fechadas: acendeu apenas a luz fria do abajur azul da cabeceira. Contemplava gélida o espaço ao seu redor: as nuances dos raios solares a tocarem alguns móveis; as sombras dos livros na biblioteca; as roupas espalhadas pelo chão. Queria gritar, mas não havia força pra isso, e mesmo que o fizesse, quem a ouviria? A vida corria lá fora e ela se recusava a participar, não por falta de vontade, mas por medo. O que descobririam quando a vissem encarando o mundo? Não era uma pessoa fácil: os medos, incertezas e inseguranças dominavam os pensamentos; apesar do sorriso que insistia em levar nas raras vezes que punha os pés na rua. Era uma contradição ambulante. Nas mídias sociais era conhecida por aconselhar sabiamente pessoas exatamente como ela. Por que não conseguia aplicar seus conselhos para si? Ao observá-la digo que é por que tem medo de ser uma pessoa perdida, de que nada poderia ser aplicado a ela, pois não merece. Se ela pudesse me ouvir, diria para relaxar, olhar-se no espelho e ver, assim como eu vejo, a pessoa brilhante que ela é; mas infelizmente ela não me ouve, ela não ouve ninguém.