Nota

Here they come

E se eles forem apenas espelhos interplanetários?

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Errante

Era uma noite chuvosa e eu o observava de longe, o suficiente para ele não notar que eu o via, apesar de no fundo saber que ele me sentia ali por perto. Sempre fora um homem taciturno. Naquela noite, o olhar me dizia que era a hora dele partir: o rosto sério, olhos sorumbáticos e a postura durona se fortaleceram. A chuva caía na velha jaqueta de couro e de algum modo pude ler as histórias e as sombras do passado impressas em cada rasgo, mancha e furo daquela peça. Mas nada superava o olhar.

Os olhos, que durante algumas noites me observaram com ternura e gentileza, os quais viram o meu corpo desmanchar, agora não passavam de dois experientes caçadores em busca de um novo cenário para desbravar. Na noite em que nos conhecemos eu sabia que não duraria a vida inteira e que a qualquer momento aquele fatídico adeus haveria de chegar. Contudo, por um breve momento, me permiti lembrar dele apenas como um belo menino a dedilhar melodias doces e melancólicas em seu velho violão. A cada nova nota um olhar apaixonado para mim. Sei também que ele viria a lançar esse olhar a outras como eu, mas não me importava, pois naquele momento eu era única para ele e ele para mim.

Quando a data da partida chegou, seus amigos já haviam deixado a cidade e o que ele buscava não mais poderia ser encontrado em terras tão secas como as em que eu vivia. Ele precisava partir, não nasceu para possuir amarras e eu o respeitava ainda mais por isso. De algum modo eu sabia que ele era só um menino buscando o caminho de casa, ou como dizem: o último rebelde. O jeitão reservado era alvo de inúmeras errôneas interpretações, mas ele não ligava, continuava em seu caminho, pois possuía algo que ninguém poderia roubar: um sonho que jamais morrerá.

Mesmo entendendo os caminhos pelos quais ele iria percorrer, uma lágrima escorreu seca em minha face triste e macia, em meu coração sentia que jamais o encontrariam, que ele seria para sempre um cavaleiro errante, em busca de aventuras que o desafiassem, que o fizessem crescer totalmente sozinho. Sei que em poucos anos me casaria, teria filhos, mas jamais haverá outro como ele, pois ele é como um cavalo puro sangue, selvagem: tente domesticá-lo e o coice o levará para longe dele. Existem pessoas, como ele, que nasceram para viver a vida tão intensamente que é quase impossível acompanhar o ritmo ou tentar estudá-los: eles nasceram para serem admirados como os puro sangue que são, livres: o mundo como lar e a estrada como escola.

Desafio de L. R. Andreatta
Música The Last Rebel de Lynyrd Skynyrd

Sozinho

d9e1d1aacdc18992f8c23973f00ed713A cada novo passo que eu dava, mais profundamente me embrenhava naquele espaço escuro, úmido e silencioso. A respiração pesada alcançava as paredes e reverberava em mim como um trovão: aumentando ainda mais a sensação de solidão e angústia.

– Olá! – disse na esperança de ser respondido.
– Olá!
– Quem está aí?
– Quem está aí?

Pensei: “será que isso é uma brincadeira de mau gosto? Isso só pode ser uma piada sem graça.” Então, a princípio, decidi não responder àquela provocação. Deixaria quem estivesse a brincar com o meu medo sentir um pouco o que é estar sozinho no mundo. No entanto, rapidamente lembrei que essa era uma das piores sensações, do tipo que faz seu coração se sentir tão apertado como se estivesse encolhido de tamanho. Não pude evitar sentir empatia por aquele ser que se escondia nas trevas.

– Não sei quem é você e agora noto que também não sei quem sou. Sinto que estou onde deveria estar, só não sei dizer por quê. Talvez eu esteja em busca dessa resposta e isso me trouxe até aqui. Isso faz algum sentido pra você? O que tem a dizer sobre isso?

O silêncio se fez presente. As palavras ecoaram dentro dele, ressoando de forma única: uma bela ópera a ser apresentada em um grande teatro italiano. No fundo, nas profundezas daquilo que ele não sabia descrever, talvez o que ele precisava era fazer ecoar ainda mais alto as palavras: para que penetrassem a pele até alcançarem o coração.

Desafio feito por L. R. Andreatta
Inspirado no poema Sozinho