Calejada

Via: Pinterest

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Era uma noite chuvosa, como inúmeras das noites que passamos nesta cidade cinza, quando ouvi seus delicados passos se dirigirem em direção à sala. O dia tinha sido bastante conturbado, tantos altos e baixos, algo bastante exaustivo, mas imagino que a insônia tenha resolvido te fazer companhia de novo.

Suas noites insones são como uma batalha para mim, na mesma intensidade com a qual elas me incomodam, não posso evitar observá-la de um jeito diferente. Já disse que você tem um jeito doce para lidar com a insônia? É algo ainda mais especial em dias chuvosos. Acredito que você nem tenha reparado nos seus rituais para essas situações, mas, para mim, são algo que a tornam ainda mais única.

A sua primeira atitude é deixar a cama da forma mais delicada possível. Você usa seus talentos e habilidades como bailarina de maneira impecável. Nas pontas dos pés você caminha silenciosamente até a sala e me deixa aqui, sozinho, imaginando que não notei seus movimentos. Obrigado por se preocupar comigo!

Deitado na cama, ouço atentamente cada passo no cômodo ao lado. Imagino não só os movimentos dos pés no assoalho, mas também cada curva de seu corpo movimentando-se com o cuidado de uma mãe ao checar seu filho a noite.  Suas mãos finas e macias próximas ao corpo para não tocar em nada e não fazer barulho. Por vezes a imagino de olhos fechados dançando a última música que ensaiou no balé.

Pena que você não pode se ver como eu a vejo. Cada pequeno movimento, cada curvatura, cada detalhe é pura poesia. Mas confesso que suas noites insones me incomodam. Não por que você não se deita ao meu lado e me deixa só por alguns instantes. Não porque você fica a vagar pelo apartamento. E sim porque em nenhum momento você pensa em compartilhar o que sente comigo. Hei, eu estou aqui! Então, por favor, não me deixe dormir enquanto os seus pensamentos podem implodir o Empire State!

das memórias de Bernardo

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tudo o que eu sei…

via Pinterest

É que quando acordo descabelada e você sorri de um jeito engraçado, mas fofo, me sinto a pessoa mais linda do mundo. A mais linda para alguém que faz o meu mundo mais bonito. Sei também que não importa se tem dias que tudo o que quero é ficar largada entre as cobertas, comendo e assistindo filmes até amanhecer, pois eu sei que você estará ao meu lado quando notarmos que o sol já nasceu. Mau humor? De vez em quando, mas você sempre sabe como lidar com os dias em que o apartamento amanhece mais escuro, você abre as cortinas da vida e mostra que eu posso sorrir apesar dos defeitos ou das dificuldades. Na verdade acredito que você tem o dom de transformar defeitos em traços distintivos e de tornar a bagunça uma festa, algo pelo qual já não sinto vontade de brigar, apenas entro na dança.  Brigar por coisa pequena é só gasto desnecessário de energia e nisso sempre concordamos. Assim como quando te peço um espaço e você, de maneira muito engraçada, conta cinco passos entre nós e diz que isso é suficiente e que essa é uma zona fora de perigo. Ainda bem que concordamos que brigar é desperdício de energia. Algo bem diferente do que sentimos em relação ao choro: hoje encontrei alguém que chora comigo ou que quando não chora só me abraça, sem nem precisar dizer uma palavra, ou ainda que compra caixas e caixas de chocolate e me deixa escolher primeiro. Depois de algum tempo juntos nesse apartamento parece que aprendemos a lidar com as imperfeições um do outro, me sinto mais tolerante, inclusive, com as imperfeições que percorrem as ruas frias e desertas que circundam o nosso lar. Hoje eu sei que a resposta para aquela pergunta que fiz há alguns anos atrás sobre você estar comigo em todos os maus momentos já foi respondida: você me ajudou a transformar cada mau momento numa lição aprendida. Obrigada por me desafiar e me ajudar a ser alguém melhor.

esse texto foi inspirado em tudo o que eu preciso saber de 2011

Colo

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As paredes ornamentadas com inúmeras fotos de momentos dos quais já não me recordo mais. Na verdade penso que essas imagens enganam a minha memória, traem os meus sentidos e me convidam a idealizar certos momentos, ou melhor, endeusá-los, santificá-los.

Eu sei que não há nada de errado nisso, mas me contaram que o passado é uma mentira que a gente conta a si a fim de nos sentirmos vivos. Tão estranha definição! Mas não posso deixar de concordar com isso ao olhar os sorrisos nas fotografias coladas nas paredes frias de meu apartamento. Em cada registro esqueço de detalhes pequenos que poderiam mudar todo o meu entendimento daquelas cenas bucólicas.

Imagine recordar as brigas, os desentendimentos e as confusões. Talvez os sorrisos e os olhares animados se transfigurassem em outras recordações, provavelmente dolorosas.

Ou quem sabe, por algum momento, a brevidade com que você recorda das desavenças, façam com que você se recorde do momento de perdão, do reconciliar e dos abraços e pedidos de desculpa. O que torna o momento mais belo? Os sorrisos registrados ou o pano de fundo que foi construído e os levou a registrar o que viviam?

Um dia me disseram que o passado é uma mentira, bom, prefiro acreditar que o passado é uma  passagem estreita entre duas montanhas: quem fui e quem sou agora. E eu não seria nada se lá atrás eu não tivesse enfrentado esse desfiladeiro chamado vida.

notas de Valentina

Shiritori*

Chiang Liu

Chiang Liu

E de repente começamos um jogo frio, tão congelante quanto o olhar dela para mim numa noite quente e furiosa na qual discutíamos questões que nem nos interessavam de fato. Aos olhos e ouvidos alheios, aquela discussão parecia totalmente desconexa, sem sentido, inútil. Para nós, foi o modo que encontramos para expressar sentimentos encarcerados.

De um lado havia esperança, do outro dúvida e incertezas. Eu disse amor, ela respondeu morno. Eu disse nota, ela devolveu taciturno. Eu disse nome, ela me entregou melancólico. Tentei covarde, chorou debate. Sussurrei teto, ela respondeu tolhido. Experimentei doce e ela devolveu cego. Gritei gota, ela vociferou tapar. Chorei partida, calma ela soluçou danificado.

Olhei nos olhos dela, os olhos claros agora pareciam duas quedas d’águas. Concomitantemente, a cena era bela e triste.

Haviam inúmeras palavras que poderia usar para replicar sua última cartada, mas não importava o quanto tentássemos, ambos se encontravam derrotados. Eu porque não queria deixá-la partir. Ela porque não queria me fazer sofrer.

Alguns finais são assim: não importa de quem seja a última palavra, ela jamais será capaz de descrever ou sintetizar tudo aquilo que significou dado momento.

das memórias de Bernardo
sobre Valentina

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* É um jogo japonês de palavras com regras bem simples: um jogador começa com uma palavra; cada jogador deve continuar com outra que comece com a última letra (sílaba) da palavra anterior; só valem substantivos; não pode repetir palavras; o jogador que falar uma palavra que termine com n (ん) perde o jogo, pois não existem palavras que começam com essa letra em japonês. (Para esse texto valeu a regra da sílaba).

Valentina

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e seus olhos
eram
chuva e sol

sobre decifrá-la

Onde o céu é mais azul

Red Riding Hood por Sneznybars

Red Riding Hood por Sneznybars

O trajeto era bastante conhecido: a trilha estava bem delimitada e os diversos pontos de referência ao longo dela não permitiriam que ela se perdesse. As inúmeras instruções que ouvira desde pequena também não. Era como andar nos trilhos: os desvios só seriam acionados em caso de extrema necessidade.

Certo dia, distraída, mas ainda assim em seu caminho habitual, um tanto quanto robótico, ela olhou ao redor e notou, provavelmente pela primeira vez, a infinidade de informações que se destacavam ao seu redor. Por um breve momento sentiu-se pequena e vulnerável.

Não que ela sentisse medo ou pavor. Sempre fora corajosa, sabia disso. No entanto, ao notar a imensidão ao seu redor, pensou em todas as coisas que poderia conhecer e novos caminhos que poderia desbravar se não estivesse sempre a percorrer a mesma trilha.

É quase certo que, neste momento, três letrinhas passaram a percorrer sua mente: e se? Aos poucos elas foram a corroendo. E se? E se? Imaginou-se em diversas situações, começando pelo descarrilamento. Era provável que descobrisse algo novo além dos trilhos, contudo quem poderia garantir o que viria pela frente? É possível determinar qual o caminho certo a seguir? Mesmo com um planejamento impecável, nada sai cem por cento como o esperado.

Sentiu-se pequena. Como poderia ter certeza de que as decisões que tomava e o caminho que seguia eram o que de fato queria?

Internamente uma voz respondeu: nada é certo, pequena, nem os trilhos pelos quais você caminha todos os dias. Algo somou-se à dúvida: por que em momentos de angústia e incerteza ela sempre deu ouvidos ao que vinha de fora? Por que não poderia ouvir sua própria voz? Tantas e tantas vezes ela se permitiu ser assombrada por lobos maus na floresta, e só agora percebeu que eles não estavam na floresta. Pois, enquanto ela olhasse apenas para fora, não importa para onde fosse, os lobos maus sempre estariam com ela.

Penso que, pela primeira vez em muito tempo, ela percebeu que tudo que buscava e imaginava conquistar fora dos trilhos, ela já possuía bem ali. Não era preciso nenhuma jornada extraordinária para lhe mostrar isso. Ela não queria uma vida de incertezas, solidão ou riquezas a perder de vista, tudo aquilo que ela almejava já possuía.

Foi numa quarta ou quinta-feira, num mês qualquer, de um ano bastante bagunçado que ela parou de olhar para o que não tinha e passou a observar tudo o que já possuía, e de alguma forma fantástica, o caminho diante dela parecia completamente novo.