Mesa pra dois

Edward Hopper

Edward Hopper

Um dia típico de outono: as folhas das imensas árvores quase todas entregues ao chão; acompanhadas do vento frio e afiado que começava a cortar faces bronzeadas pelo verão sufocante e da vontade súbita de sentir o corpo todo aquecer com o gosto forte e amargo de café puro. Quando chegou à cafeteria, vestia o velho vestido vermelho que herdara da mãe, a capa verde pechinchada no antigo brechó e o chapéu amarelo do qual não gostava muito, mas do qual não abria mão quando saía em dias quase invernais. Com passos nada apressados, observou o ambiente e escolheu a mesa pra dois, próxima à porta de entrada. Sentou-se de costas para a rua, o movimento dos passantes despertava nela uma ansiedade incontrolável, da qual ela não queria ter conhecimento pelo menos pelas próximas três horas. O olhar vago por vezes despertava pena naqueles que estavam ao redor. Ela não notava. Apreciava cada gota que sorvia do expresso, como quem sente as gotas de chuva tocarem a face durante uma brusca chuva de verão. Nada mais importava no mundo.

Anúncios
Nota

Here they come

E se eles forem apenas espelhos interplanetários?

Nota

Cantiga de amigo

Passarinho, passarinho, cantes pra mim
e me diga onde estás tão verde brilho enfim,
por onde voas?

Passarinho, passarinho, cantes pra ele
e lhe diga onde estou enfim tão brilho verde
por onde voas?

Cante e bata as asas, vá para o rio
e me traga boas novas, faz me sorrir
por onde voas?

Me traga boas novas, faz me feliz
digas que estás perto, pronto a me ter
por onde voas?

Errante

Era uma noite chuvosa e eu o observava de longe, o suficiente para ele não notar que eu o via, apesar de no fundo saber que ele me sentia ali por perto. Sempre fora um homem taciturno. Naquela noite, o olhar me dizia que era a hora dele partir: o rosto sério, olhos sorumbáticos e a postura durona se fortaleceram. A chuva caía na velha jaqueta de couro e de algum modo pude ler as histórias e as sombras do passado impressas em cada rasgo, mancha e furo daquela peça. Mas nada superava o olhar.

Os olhos, que durante algumas noites me observaram com ternura e gentileza, os quais viram o meu corpo desmanchar, agora não passavam de dois experientes caçadores em busca de um novo cenário para desbravar. Na noite em que nos conhecemos eu sabia que não duraria a vida inteira e que a qualquer momento aquele fatídico adeus haveria de chegar. Contudo, por um breve momento, me permiti lembrar dele apenas como um belo menino a dedilhar melodias doces e melancólicas em seu velho violão. A cada nova nota um olhar apaixonado para mim. Sei também que ele viria a lançar esse olhar a outras como eu, mas não me importava, pois naquele momento eu era única para ele e ele para mim.

Quando a data da partida chegou, seus amigos já haviam deixado a cidade e o que ele buscava não mais poderia ser encontrado em terras tão secas como as em que eu vivia. Ele precisava partir, não nasceu para possuir amarras e eu o respeitava ainda mais por isso. De algum modo eu sabia que ele era só um menino buscando o caminho de casa, ou como dizem: o último rebelde. O jeitão reservado era alvo de inúmeras errôneas interpretações, mas ele não ligava, continuava em seu caminho, pois possuía algo que ninguém poderia roubar: um sonho que jamais morrerá.

Mesmo entendendo os caminhos pelos quais ele iria percorrer, uma lágrima escorreu seca em minha face triste e macia, em meu coração sentia que jamais o encontrariam, que ele seria para sempre um cavaleiro errante, em busca de aventuras que o desafiassem, que o fizessem crescer totalmente sozinho. Sei que em poucos anos me casaria, teria filhos, mas jamais haverá outro como ele, pois ele é como um cavalo puro sangue, selvagem: tente domesticá-lo e o coice o levará para longe dele. Existem pessoas, como ele, que nasceram para viver a vida tão intensamente que é quase impossível acompanhar o ritmo ou tentar estudá-los: eles nasceram para serem admirados como os puro sangue que são, livres: o mundo como lar e a estrada como escola.

Desafio de L. R. Andreatta
Música The Last Rebel de Lynyrd Skynyrd

Sozinho

d9e1d1aacdc18992f8c23973f00ed713A cada novo passo que eu dava, mais profundamente me embrenhava naquele espaço escuro, úmido e silencioso. A respiração pesada alcançava as paredes e reverberava em mim como um trovão: aumentando ainda mais a sensação de solidão e angústia.

– Olá! – disse na esperança de ser respondido.
– Olá!
– Quem está aí?
– Quem está aí?

Pensei: “será que isso é uma brincadeira de mau gosto? Isso só pode ser uma piada sem graça.” Então, a princípio, decidi não responder àquela provocação. Deixaria quem estivesse a brincar com o meu medo sentir um pouco o que é estar sozinho no mundo. No entanto, rapidamente lembrei que essa era uma das piores sensações, do tipo que faz seu coração se sentir tão apertado como se estivesse encolhido de tamanho. Não pude evitar sentir empatia por aquele ser que se escondia nas trevas.

– Não sei quem é você e agora noto que também não sei quem sou. Sinto que estou onde deveria estar, só não sei dizer por quê. Talvez eu esteja em busca dessa resposta e isso me trouxe até aqui. Isso faz algum sentido pra você? O que tem a dizer sobre isso?

O silêncio se fez presente. As palavras ecoaram dentro dele, ressoando de forma única: uma bela ópera a ser apresentada em um grande teatro italiano. No fundo, nas profundezas daquilo que ele não sabia descrever, talvez o que ele precisava era fazer ecoar ainda mais alto as palavras: para que penetrassem a pele até alcançarem o coração.

Desafio feito por L. R. Andreatta
Inspirado no poema Sozinho

Light

8ec69c6bcb381dc48df6c7c78035b7b3

Ele partiu antes do alvorecer, deixou o bilhete doce em cima da mesa e uma flor sobre a cama. Na nota um pedido para que não dormisse tarde, que me alimentasse corretamente e que lembrasse sempre de trancar bem a porta, apesar de nosso apartamento ficar no penúltimo andar. Fora uma despedida silenciosa e carinhosa como tantas outras: com passos de algodão ao sair pela porta.

No entanto, diferente das outras, algo em mim dizia que as coisas já não eram mais as mesmas. De imediato senti sua ausência e fui além de seus pedidos: quis ser o farol a guiá-lo de volta e coloquei uma vela próxima à janela. Mentalmente repetia como mantra: “enquanto você ver a luz, saiba que estou aqui”.  No fundo eu só queria que ele não deixasse de ter certeza que continuaria o iluminando, não importava onde ele fosse.

desafiada por L. R. Andreatta