Para lágrima: sorriso

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Ontem, mais precisamente dia 3 de agosto, quinta-feira, recebi a notícia de que não poderei continuar com o meu estágio na Biblioteca por conta da minha grade este semestre. Depois de esperar quatro meses pra ser chamada, saio sem completar quatro meses de casa. Há algum tempo isso teria me abalado muito. Isso porque geralmente faço um planejamento e quando ele sai da linha, fico desestabilizada. Mas incrivelmente ontem não foi assim (mesmo que no fundo ainda tenha dado uma vontadinha de chorar) e acredito que alguns pontos contribuíram para isso.

Primeiro, desde que comecei a estagiar de noite na Biblioteca, perdi inúmeros eventos interessantes por conta do horário, um deles sobre mito, inclusive. Como não dá pra sempre solicitar dispensa para acompanhá-los, muitas vezes eu recebi relatórios detalhados do meu namorado, que os cobria por mim. Agora, poderei estar lá, participando deles.

Segundo, no final do semestre passado aceitei um convite para participar de um Programa de Iniciação Científica na universidade. É uma oportunidade rara de desenvolver uma pesquisa em Educação. Rara porque num momento que tem o nosso cenário político e financeiro não seria diferente. Logo, poderei me aplicar com mais dedicação a esse novo projeto.

Terceiro, tenho me cercado de pessoas tão incríveis, as quais estão me ajudando no meu aprimoramento como ser humano, e é difícil me ver mais tão perto delas. O convívio diário e as trocas de experiências são sempre um aprendizado. Mas sabendo o quão incríveis elas são, não importa a distância, continuarei aprendendo com os ecos do que conversamos e com nossas futuras conversas longe do ambiente de trabalho.

Quarto, duas pessoas muito importantes pra mim me disserem exatamente a mesma coisa: foca na formatura. (Tão focada que faço parte da Comissão rs). Agora, sei que, apesar de não receber mais a bolsa do estágio (que estava destinada ao planejamento que mencionei inicialmente), posso me focar em atividades que verdadeiramente agreguem ao meu currículo pessoal e profissional, como o Português para Falantes de Outras Línguas (PFOL) ou o Inglês para cegos.

Por fim, desenvolver um estágio na Biblioteca, apesar dos inúmeros pontos positivos, não era desafiador nem estimulante. Sou uma pessoa que gosta de certo movimento e quando me vejo sem muita coisa pra fazer, arranjo. Então, agora terei oportunidade para me coçar.

Dos cotidianos imagináveis #8

0eef8427ef1c2e325463c159a948dc4bEla deixa a porta aberta, apesar de insistir não ser preciso que volte. Pensa ser melhor não voltar. As paredes do apartamento angustiantemente claustrofóbicas imitam as de sua garganta: parecem querer se abraçar. As marcas dele ainda não deixaram o travesseiro e ela acabou voltando a fumar. Talvez ele tenha notado ao passar. Não existe um só dia de janela fechada por ali. Tudo está escancarado. É só querer enxergar.

Dos cotidianos imagináveis #7

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A vida foi tiquetaqueando e você nem notou que a cama mudou de lugar e nem o lençol é mais o mesmo. Aquele azul que você gosta deu espaço ao branco. Página pra criar. O roupão, peça indispensável das madrugadas frias, há tempos foi aquecer outro alguém. Você não notou que a cada lembrança que mudava de lugar ou de dono, ou até pro lixo, levava junto algo em mim. Você não notou quando as fotos pararam de sorrir e os tíquetes de cinema começaram a sumir. Já que você não notou, te digo: do que um dia fora um lar só restaram os cactos. Você não notou nem quando, ao andar em frente ao lugar que eu costumava morar, encontrou o seu restaurante favorito. Mas dessa vez, pelo menos, nem pediu pra levar… sentia-se em casa.

Gaiola

Eu não sinto mais nada.
O gosto do café preto e amargo não incendeia mais minhas papilas gustativas.

Eu não tenho mais nada.
Mãos e pés não caminham calçadas frias nem tocam rostos turvos.

Eu não falo mais nada.
Da boca não verte sangue nem veneno.

Eu não sou mais nada.
Só um corpo inerte nesse laboratório escuro que é a vida.

Fugir-se

fugir-seEspelhada na correnteza árida
a imagem distorcida
espumada
afogada
repercutiu como eco
nas vísceras

na pele
reverberou como sombra
abafada
dissolvida
a imagem espelhada
distorcida na lagoa domada!

Sobre a pele

O rosto já não era mais o mesmo, 
sentenças das noites insones agora se evidenciavam na face pálida e magra, 
a alvura ainda mais acentuada - desprovida agora do ar cândido -
e as olheiras ainda mais profundas a emoldurar olhos 
os quais um dia foram seu atributo mais belo. 
Na escrivaninha bagunçada os trapos da luta por produzir
algo que preenchesse não só o branco da página a latejar como enxaqueca,
mas também os vazios que insistiam em ecoar dentro,
reverberando medos e angústias. 
A xícara de café preto, agora frio e oxidado, 
marca o que vinha sentindo no espaço de maior vazão,
o miocárdio.
Escrevia por querer com sofreguidão, 
desesperadoramente,
que ele notasse os detalhes quando "parecia" observa-la 
- não notava. 
Nunca notou. No caderno anota apenas as centenas de ideias 
a brotarem, feito nascente, ao viver ao lado dela.
Anota incansavelmente. 
Escreve em seres inanimados e esquece que ao lado dele 
alguém pulsa, vibra, respira, sente, ama, 
e às vezes também se cansa.

Escrito ao som de Tartini: Devil's Trill Sonata.