Bolso cheio

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Meu andar era leve tal qual manada errante. Eu encarava as pedras da calçada como quem olha de frente um imenso desafio a superar, um desfiladeiro a saltar, um sentimento a enfrentar.

Sentia-me diante de um mundo que repentinamente decidiu se alojar em meus ombros. Tudo o que queria era gastar horas embaixo do chuveiro, abandonar-me na cama e esquecer tudo.

Conquanto, no meio do caminho, entre um passo grosseiro e outro, ele chegou até mim: cabisbaixo; o olhar tão perdido quanto o meu; lágrimas rolando ilimitadamente pela face pálida.

Ao vê-lo assim, rendi-me. Mais rápida que a lágrima a escapar de meus olhos, peguei cada problema que se agigantava em mim e os recolhi, escondi o que pude e entreguei-lhe o meu melhor sorriso.

Quando um amigo chega até mim com um problema, eu recolho os meus e os guardo no bolso. Quem sabe um dia, ao vasculhá-los, eles já não sejam tão intransponíveis assim.

do diário de Olívia

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Maktab*

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E de repente já não era apenas um ponto ou espaço, uma zona demarcada, passível de localização via satélite. Era o cheiro a penetrar de maneira inconsequente as narinas, o som macio a invadir os ouvidos, o movimento ritmado com o qual ríamos e nos olhávamos… eram as lembranças que compartilhávamos apesar do passado incomum. Era ser.

Lembro bem. Visitávamos um prédio histórico, que apesar da poeira acumulada, era capaz de nos fazer notar detalhes de imaculada beleza. Você, astuto como sempre, subia os degraus e admirava a fachada tal qual entrasse em sua própria casa. Impossível não sorrir com tais gestos. Acredito que esse era um dos seus mais preciosos talentos: a capacidade de levar sorrisos aos que te cercam, mesmo quando você chorava por dentro, algo bastante altruísta da sua parte.

Seguro, você abriu a imensa porta de madeira, dessas ornamentadas, pensada nos mínimos entalhes e gritou. O susto quase me levou ao chão. Você não conseguiu evitar a risada. Assim como veio, meu pânico se dissipou tal qual sonhos acordados.

Arrependido ao me ver derramar uma lágrima, suas mãos e braços logo me encontraram e me trouxeram para próximo do seu peito. Naquele momento eu sabia que havia encontrado o lugar perfeito.

*em árabe, lugar para escrever

Lado de fora

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Em certos dias, que não escolhem estação do ano, condição financeira ou de pressão e temperatura, sentimo-nos vulneráveis, frágeis, feito flor madura em dia de ventania, prestes a despetalar. É aquele tipo de sensação de fragilidade que, durante o transporte, nos faria receber um rótulo em letras garrafais: cuidado frágil, num vermelho berrante para indicar que a peça é rara e delicada. Bom, talvez eu esteja apenas exagerando. Mas nos dias de chuva sinto a vulnerabilidade ganhar dimensões estratosféricas, feito foguete lançado ao espaço sem autorização ou tripulação, completamente desnorteado. Às vezes me pergunto se todo esse sentimento seria apenas uma condição temporal? Algo relacionado aos céus, ventos e umidade relativa do ar. Sabe, apesar de conjecturar a respeito de tudo isso, não me sinto confortável em depositar tanta responsabilidade no clima. Contudo, é inegável que dias cinzas tendem a nublar pensamentos e sentimentos. Algo como um reflexo do que vemos nos céus. Talvez minha mente goste de trabalhar dessa forma, refletindo o exterior. Bom, mas tudo isso não ocorre em uma proporção tão prejudicial, afinal de contas o clima é apenas mais uma gota num oceano de incertezas e motivações. Por que cheguei nessa discussão mesmo? Ah, verdade, ao olhar as nuvens cinzas no céu me peguei pensando no que haveria por detrás delas. É claro que sei que o sol estaria ali e também um céu azul de brigadeiro, porém pensei no além do azul. Pensei no que estava além da minha capacidade de enxergar. Estava pensando aqui que existem segredos que ninguém consegue descobrir. Alguns deles só abrem pelo lado de dentro. Qual é o lado de dentro do céu eu não sei dizer, e talvez eu também não saiba qual é o meu lado de dentro. Às vezes penso que ninguém me descobriu ainda porque estou do lado de dentro de mim mesma.

dos rabiscos de Olívia

never mind, little kid

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Lembra de quando você era apenas um pinguinho de gente e tudo que cabia à você era sorrir, correr, pular, sonhar, obedecer pai e mãe e ir para a escola? Lembra dos medos, das inseguranças, das incertezas, que de uma hora para a outra se aproximaram de você e te assustaram com garras frias e escuridão? Lembra da briga que era internamente não saber quem levaria a melhor: os sorrisos ou os medos? Esqueça isso, pequena criança, eu sei que em algum lugar aí dentro você continua aquela menina risonha de anos atrás, no fundo nós nunca a perdemos, elas apenas se escondem um pouquinho. Apareça, menininha, deixa eu te contar uma coisa. Não é tão assustador crescer, a palavra agora é desafiador. A vida parece se assemelhar a um rio. Quantos rios você já visitou até hoje? Traga-os à sua lembrança, pequena, e então deixe eu te contar: às vezes a vida é como estar em um barco num rio a fluir a nosso favor, outras vezes a gente precisa ajudar a remar, colocar braços e fôlego para nos mover, em outras, ainda, encontramos alguém que reme conosco, e nas piores situações, o rio não flui com a corrente necessária, o remo quebrou e estamos sozinhos e tudo o que podemos fazer é pensar, pensar na melhor maneira de encararmos os desafios que se mostram diante de nós.

Instável

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Sentia o vento sussurrar entre as árvores e a própria respiração se confundia numa sinfonia de sons ansiosos e preocupados. A densa neblina da manhã voltou a se condensar durante aquela tarde de clima instável e desagradável, entre as idas e vindas do sol, os períodos de chuva e então o frio intenso de machucar o rosto e a escuridão do céu encoberto de nuvens. Parecia noite. Daquelas noites que a gente só vê em filmes, aqueles nos quais as pessoas estão sempre despreocupadas e de repente algo assustador acontece.

Essa tarde estranha e sombria levou as pessoas mais cedo para casa e as ruas desertas abriram espaço para a imaginação se soltar, pular de galho em galho e assustar os passantes desprevenidos. Os poucos que ousaram transitar por vielas e travessas viram suas fiéis escudeiras – as sombras – de uma hora para outra tornarem-se assassinas em potencial, o gato brincando no lixo um gatuno pronto para levar seus bens e essas são só algumas das inúmeras possibilidades que percorreram a mente de alguns transeuntes.

Menos de Olívia. A menina que por tantas vezes inventou cenários incríveis enquanto passeava pelas mesmas calçadas, naquele momento mostrou-se oca. Algo estranho no clima confundiu seus sentidos. Ela nada percebeu de diferente. Aos seus olhos, a única coisa incomum era o tempo que brincou com todos: desde os que saíram sem guarda-chuva ou vestindo sandálias, aos que esperavam sol e calor até aqueles que esperavam estabilidade do início ao fim do dia. Nem sempre é fácil agradar todo mundo.

Nota

Mais de vinte

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Obstinada a seguir em frente e obcecada pela oportunidade de realizar feitos obtusos e sair pela tangente do óbvio e do cansativo, obsecrou a chance de caminhar por uma estrada diferente. A quem fez tal pedido humilde? Ninguém sabe, talvez um deus ocioso que goste de passatempos ou ainda um ente oco, cujo coração fora substituído por um ocre moldado por um ser sobrenatural. São apenas cogitações e hipóteses, o mais importante era que, quem quer que tenha respondido, talvez a voz dentro dela, disse sim.

Lançada a uma longa jornada pessoal, a moça de madeixas louras e belas levou consigo o estritamente necessário. Leve era a chave. Embora, lá, mais adiante, se preocuparia com pesos extras que lacerariam aos poucos seus ombros desacostumados ao labor de uma viagem lampejante. Mais adiante entenderia que existem certas cargas imateriais que sobrecarregam tanto quanto barras de chumbo e mochilas abarrotadas de tralhas.

Interessada em desapegar das inutilidades trazidas num impulso e que agora a machucavam, decidiu doá-las àqueles que realmente pareciam necessitar. Quem diria que as inutilidades serviriam a tantos pela estrada. Içou acampamento próximo a um muro de pedras numa praia fria de um país estrangeiro e permaneceu alguns dias próxima àquelas pessoas e pode perceber que na doação quem mais ganhava era ela, que enxergava a idiossincrasia em dar e receber. Ignorava qualquer pedido de trocas materiais, aceitava retribuições por meio de pouso, comida e até mesmo histórias.

Valente, a menina de olhar nada vacilante continuava a valiosa peregrinação em busca de sua lenda pessoal. Não era vaidade, nem desafio, pois valia apenas para si, era mais como um sonho onde as coisas vão acontecendo e de repente você está onde deveria estar desde o início. O valor é o de uma conquista pessoal, onde tudo foi realizado com o único propósito de ser alguém melhor, de ir além em si mesmo e de descobrir que ser é maior do que ter.

Irrigou dia após dia a semente que alimentava seu interior e sentiu crescer uma capacidade inexplicável de força, felicidade e plenitude. Sentimentos até então inexplorados desenvolveram-se de forma irrestrita, feito flor selvagem que cresce e se apodera do espaço, algo quase impossível de conter. E não havia motivos para serem contidos.

Ainda que o caminho fosse árduo e a resistência dos que estão ao redor fosse difícil de transpor, a cabeça permaneceria erguida e os olhos focados em seu objetivo pessoal. Acreditava de corpo e alma que um dia sentiria-se confortável com as passadas e a linha de chegada, tudo pois tomara as decisões por conta própria e assumiu toda a responsabilidade pelo que viesse pela frente.