Nebulosa

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De maneira inesperada, quase vulgar, um passado que há muito eu já não conhecia (melhor, pelo qual lutei muito para esquecer) voltou a percorrer as esquinas escuras da minha mente.

No chão do banheiro inacabado, as paredes concretadas e o piso mal colocado eram nossas testemunhas. O cheiro forte e ferroso dominava o ambiente e me enjoava cada vez mais. Atônito, lembro bem… ele parado à porta, o olhar assustado e perdido, feito homem que viaja por terras desconhecidas e não sabe a quem pedir ajuda – o que também não me ajudava – e deixava toda a situação ainda pior.

O tempo passou e não senti qualquer melhora. Estou quase certa que o tempo não é um bom curandeiro. O cheiro de ferro ainda passeia por minhas vias respiratórias, meu coração, minhas mãos, e principalmente minha mente, que de forma mais intensa nos dias chuvosos (quando o ferro e a água parecem se misturar numa tentativa hercúlea de me curarem) recorda que o sangramento há algum tempo parou, embora a ferida aberta jamais tenha cicatrizado.

Fato que sempre me traz ao pensamento você.

Naquele dia disse palavras nada gentis ou verdadeiras. O acontecimento aflorou de tal forma em mim, tão violento, tão distante de quem eu sou, que não pude me controlar ou evitar ser desrespeitosa e até mesmo cruel. Perdoe-me!

O relógio marca um novo horário e o calendário já perdeu muitas folhas, no entanto, a cicatriz jamais parou de doer.

E hoje eu sei que jamais quis dizer qualquer uma daquelas palavras brutas.

do diário de Valentina

Turma de 2012

utfpr

Boa noite mesa diretiva, formandos, pais, familiares e amigos, quem diria, chegamos ao fim de mais uma etapa¹.

Hoje, este momento, essa noite só é possível porque 3, 4 ou 5 anos atrás ingressamos no Curso de Comunicação Institucional apostando que seria uma das coisas das quais gostaríamos de conquistar e da qual sentiríamos orgulho. E como sentimos! Lembrar do banho de lama ou pensar nos olhos vidrados na tela do computador, o choro, o riso, os abraços e as parabenizações, que diria que tudo isso nos traria até aqui.

Sei que é bastante clichê narrar a trajetória construída ao longo do curso, de longe é quase sempre tão igual: estudamos horrores, com cursinho ou sem, noites de estudo, finais de semana sem sair de casa, recusando convite dos amigos e até de familiares, tudo por um objetivo único. E então vem aquela notícia que tanto esperamos: aprovados na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Então é impossível conter a alegria. Cada um comemorando à sua maneira, mas de alguma forma o sentimento de realização é o mesmo para todos.

E então vem o primeiro dia de aula, com ele as primeiras ansiedades, a turma nova por descobrir, professores, ambiente, rotina, tudo novo e tudo um pouco como antes.

Primeira semana tem a confraternização com os veteranos.

De modo geral é nesse momento que nos aproximamos mais de alguém e  é aí que começam os primeiros círculos de amizade. Contudo, não posso deixar de mencionar algo muito interessante: as turmas de comunicação sempre expandem esse círculo. Tudo bem, você continua tendo os amigos mais próximos, com quem faz trabalhos e se encontra no final de semana, mas mesmo assim, sempre que possível lá está a turma de Comunicação. Não era raro ouvir comentários,” ah, essa bagunça toda deve ser o pessoal de Comunicação” ou “aquele grupo todo ali é de Comunicação e são de períodos diferentes, dá pra acreditar?” Pois é, somos bagunceiros, festeiros e temos esse hábito de falar alto por natureza.

Os queijinhos eram poucos para o tamanho da turma. Começava com o primeiro aluno a chegar às aulas, antes das 7h30, e que ocupava logo um lugar no Bloco E e então chegavam outros colegas, desde o calouro até aquele que insiste em permanecer na Universidade, pelo simples fato de querer manter alguma raiz. E essas raízes, bem, são profundas. São profundas porque o que me vem a cabeça, e acredito que a dos meus colegas também, são as inúmeras histórias que compartilhamos na UTFPR. Algumas ligadas à sala de aula e a professores que já nos assustavam antes mesmo de os conhecê-los, né Zama². Ou matérias que já ansiávamos pois todos os comentários eram de que era divertido fazer aquilo.

Não podemos esquecer dos momentos engraçados, aquele das histórias dos e-mails compartilhados e nos quais, algumas vezes, aconteciam desvios e precisávamos explicar o ocorrido, não é Márcio? Ou falas como o “povo é uma pedra” ou “lembre-se de Pedro” ou ainda os “pródromos da independência”, além de tantos outros fatos e momentos que marcaram as turmas e as histórias construídas nesses anos de estudo. Cada um aqui levará consigo marcas que jamais serão apagadas, porque no fundo é isso que faz valer a pena. O diploma é uma conquista individual, mas todas as outras experiências vividas na universidade você conquistou como equipe, como parte de uma turma e da qual, apesar das dificuldades, levará lembranças memoráveis.

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Escrito em 20 de novembro de 2012 às 12:20

¹ texto escrito por hobby como discurso de formatura
² professor de ética e psicologia da Comunicação, patrono da turma de 2012

Nota

nebulosa

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[…] e de repente bateu uma saudade.
nós quatro e um céu estrelado.
à vontade e encantados com as possibilidades encontramos um lugar confortável para observar aquela beleza, uma ponte de madeira, dessas de jardim japonês, sobre um lago no interior do estado.
vimos estrelas e estrelas cadentes, batendo continência pra quem quiser assistir.
nós assistimos de camarote, num lugarzinho tão bom, tão nosso.
sinto falta dos dias estrelados.
e você?
do que sente falta? […]

sobre noites em família

o museu das coisas inatingíveis

Capa Museu

E estava tudo exposto ali, no museu das coisas inatingíveis, um mundaréu de momentos, situações, circunstâncias, lembranças e locais inatingíveis. É até engraçado imaginar que o inatingível estava ali, ao alcance dos olhos, mesmo que de uma forma bastante superficial. Intrigado, passei por todas as seções com os olhos vidrados em cada produto daquele meio. É difícil mensurar o que senti quando coloquei os olhos na seção 32. Todo o meu passado estava ali, descrito, emoldurado, encenado de forma grotesca bem diante dos meus olhos. Como eles ousaram tentar reproduzir aquilo que para mim é tão dificultoso, inclusive, de consultar em minhas memórias há tanto escondidas? Será que eles não entendem que nem tudo pode ser vendido, comercializado, reproduzido? Observar todos aqueles detalhes fez com que me sentisse corrompido. Com que direito eles me expunham daquela forma? Quando ingressei neste recinto jamais ousei imaginar que o que estaria exposto para todos fossem lembranças de um tempo que me foi muito querido, mas que já passou, e que só seria novamente alcançado por meio de histórias incompletas, fotografias envelhecidas e páginas amareladas, e não por uma produção museológica. O inatingível deveria permanecer onde estava, pois, cruel, ele não pode ser alcançado, mas isso não significa que não nos alcança. Ele alcança com duras garras e nos atinge em lugares que jamais acreditamos que sentiríamos pulsar e doer novamente.

Porque eu não tenho medo de trovão

Quando eu era pequena. Não muito.
Ser pequena nunca foi uma referência a mim, sempre sendo a mais alta, a última da fila, a “mãe dos coleguinhas”… Bom, mas isso não vem ao caso.
Eu era novinha e lembro de enfrentar dias de tempestade na escola singela e aconchegante em que estudava no bairro onde ainda moro. Lembro-me bem dos dias de chuva e também de uma querida professora, que para acalmar os ânimos dos alunos assustados nos contava uma história.
Não lembro seu nome, mas recordo de um lindo sorriso, capaz de suavizar diferentes situações. Ela nos convidava a deitar em nossos colchonetes e então nos contava sobre a mania de limpeza de São Pedro.
Ela dizia que São Pedro, um homem que mora no céu, considerado santo, estava fazendo faxina para deixar as nuvens branquinhas e provavelmente havia esquecido de desligar a torneira, desse modo a água do céu derramava-se sobre a cidade.
Quando a chuva engrossava e os primeiros trovões alcançavam nossos ouvidos juvenis, ela dizia que o mesmo santo, aquele que havia esquecido a torneira ligada, começava a arrastar móveis pelo céu. Móveis tão grandes e pesados que escutávamos o seu arrastar aqui embaixo. Por último, no momento em que os raios surgiam como raízes no céu, ela apenas ria e brincava dizendo a faxina devia estar terminando e que deviam ter começado uma festa. Cheia de flashes. De repente estávamos todos calmos, dormindo em nossas horas de soneca.
Ainda me impressiono com o fato de me recordar disso.
Não tenho medo de trovão. A história está tão intrínseca em mim que é difícil deixar de acreditar nesses contos para crianças. Às vezes me pego pensando em quantas coisas deixamos de ter medo quando apenas dedicamos um tempo para escrever histórias. E então eu escrevo. Invento-as. Transformo monstros em mocinhos e vejo aos poucos o medo fugir de mim, como em anos atrás.
Talvez o grande efeito das histórias seja esse: afastar-me de todo o mal.
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Retratos de minhas memórias esquecidas

Nós caminhamos por horas ao redor daquele imenso lago que encontramos por acaso em uma de nossas rápidas viagens de final de semana. Eu ainda consigo lembrar do cheiro úmido da floresta, ao redor pássaros cantavam, o vento soprava delicadamente e o sol começava a aparecer entre as nuvens. Era um dia agradável, apesar do frescor matutino, o que transformava o nosso primeiro piquenique primaveril em algo simples, mas de de valor inestimável.

Depois de um dia intenso de caminhadas, banhos no lago e comida farta, deitamos sobre a manta colorida estendida no gramado verde e já seco daquele paraíso. Adormecemos.

Era engraçado como dormir em seus braços trazia conforto, mesmo quando estávamos em um lugar tão pitoresco e sem qualquer infraestrutura. Como se fosse o encaixe perfeito. Sei que dormi muito bem. E ele afirmava constantemente que havia dormido bem. Apesar de eu saber que em vez de dormir ele preferia aproveitar a visão de tudo aquilo que estava diante de nós: um paraíso particular, nosso segredo.

Já se passaram tantos anos desde esse dia.

Será que o vento é capaz de trazer as lembranças de forma tão clara assim? Um perfume, um cheiro característico que ele carrega e pronto, me coloco a pensar em tudo aquilo que aconteceu e que por tanto tempo ficou adormecido em um canto escuro de minhas memórias. Embora seja uma linda lembrança, não sei o porquê dela ter se escondido em minha cabeça. Mas também não importa mais, porque ela veio à tona e despertou em mim o desejo de viver outros momentos como este. E então, qual será o meu próximo passo?
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