Dos cotidianos imagináveis #7

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A vida foi tiquetaqueando e você nem notou que a cama mudou de lugar e nem o lençol é mais o mesmo. Aquele azul que você gosta deu espaço ao branco. Página pra criar. O roupão, peça indispensável das madrugadas frias, há tempos foi aquecer outro alguém. Você não notou que a cada lembrança que mudava de lugar ou de dono, ou até pro lixo, levava junto algo em mim. Você não notou quando as fotos pararam de sorrir e os tíquetes de cinema começaram a sumir. Já que você não notou, te digo: do que um dia fora um lar só restaram os cactos. Você não notou nem quando, ao andar em frente ao lugar que eu costumava morar, encontrou o seu restaurante favorito. Mas dessa vez, pelo menos, nem pediu pra levar… sentia-se em casa.

Nota

Esta também é uma história de terror

Vendo você…

Nota

Desenrolo

A briga
Embriaga

Em briga
Obriga

Abriga
Obrigada

Nota

Note:

às vezes as pessoas são como músicas que acabamos de conhecer.
Colocamos para tocar até cansarmos:
um interminável repetidor que nos faz amá-las ou nunca mais querê-las ouvir.

Dos cotidianos imagináveis #4

Mikhaël Theimer

Mikhaël Theimer

Ele colecionava risadas em seu velho gravador de pilhas: altas, baixas, escandalosas, desarmônicas, musicais, sussurradas, espelhadas, só não conseguia registrar os risos amarelos. Ela, por sua vez, colecionava tristezas: profundas, escuras, mágoas antigas, melancolias e às vezes algum luto por alguém que partiu ou por quem nunca chegou. A única semelhança entre os dois era o hábito de armazenar aquilo que não é palpável, difícil de ser compartilhado. Em um dia feito só pra eles: descobriram-se. Ele descobriu que por trás do melhor riso, também haviam medos e inseguranças; e ela viu que apesar das dolorosas tristezas, elementos constituintes dos seres humanos, elas passam e sempre há um motivo para sorrir.

Nota

Metaformose

O ninho não é quente, e a vista tão conhecida não agrada mais, contudo, ainda traz algum conforto. A mãe pia enquanto traz novos gravetos. Você também mostra a voz, estufa o peito e pia: quer logo voar. Outros pássaros aproximam-se e não o deixam alçar voo, repetem incansavelmente em uníssono: “tu não sabes voar/ tu não sabes voar”. Ninguém parece lembrar do impulso vital, do instinto de sentir a vida soprar em suas veias ou do vento a passar suave sob suas asas. Ah! quem dera alcançar o sol, as nuvens, as estrelas. Quem dera ouvi-los, todos, de perto, num sussurro doce – às vezes, também, num berro amargo. Tuas asas foram feitas para o exercício. Tuas asas, imensas, assustam os atrofiados, assustam aqueles que tem medo de voar. Porventura, há quem não saiba lidar com a tua imensidão. Há, ainda, quem tente te podar, te enjaular, te julgar. Mas lembre-se: você foi feito pra voar, passarinho. Então, voe! Voe e não deixe de cantar, porque o canto afasta o medo e só faz embelezar. Sei que a essa altura o céu é o limite e o medo da queda pode assustar, porém, lá do alto, os problemas serão menores, passarinho, tu verás com melhor clareza. Voe e faça do mundo tua morada: durma no alto dos montes ou quem sabe repousará nas belas praias de mar azul, desbrave o mundo e não deixe de um dia voltar.