Nota

o(ração) criogênica

Com as ferramentas que possui, começa a esculpir o objeto disforme em si: estranho artefato pulsante preenchido por gélidas desesperanças de um horizonte azul. Mal nasce, já morre. Perde logo no primeiro sopro as unhas antes só roídas; o líquido carmin  escorre profanando o relógio de areia; bolhas saltam em uma manifestação de emoções violentas. A língua fervente afoga o grito que nasce nas entranhas. Mudos os olhos fitam a parede calfinada. A imponente torre de outrora – tronco firme da espinha – rui às suas costas; segue alicerçando o velho castelo de cartas. Corcunda e desajeitado nota pela primeira vez: ter pés.

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Nota

Reverso

sentei-pra-te-escrever

Sentei pra te escrever estas linhas não tortas, mas avessas e, travessa, senti aqui… bem aqui nessa caixa feita de batimentos e ar rarefeito, que eu atravessava não uma ponte… não uma rua… mas um turbilhão de sentimentos inversos aos que eu queria te contar.

Revoltei-me: de dentro pra fora, no contrário de mim, expus-me novamente a esse gesto tão traquina que é escrever.

Agora vai.

Encontrei essa folha amassada num canto da gaveta e pensei que talvez fosse uma boa ideia, uma hora boa pra colocar algumas coisas aqui, agora que o frenesim passou e o mar parece calmo novamente.

Hei, talvez você a receba na semana que vem. Claro, se o moço, aquele que passa de casa em casa fazendo as correspondências e ligando os pontos, não se esquecer de passar na tua rua e nem de apertar a tua campainha. Só espero que ele não saia correndo… assim como fiz tantas vezes.

Hei, mas espera, acredita, ela vai chegar, talvez um pouco mais amassada do que quando a escrevi, mas sei que a entenderá, pois sentirá no toque do papel tudo aquilo que quis te falar.

Dos cotidianos imagináveis #5

Mikhaël Theimer

Mikhaël Theimer

Foi no meio de várias conversas superficiais, dos olhares focados no brilho dos aparelhos sem vida e nas disputas por curtidas e noites mal dormidas que notei, no canto do olho, uma luz intensa a emanar. Viva e cintilante, era algo diferente de tudo que já vi. Não se assemelha às lâmpadas frias a iluminar os centros comerciais ou os espaços residenciais, tampouco era chama de lampião, fogueira ou lareira, apesar de aquecer tanto quanto qualquer uma delas. A menina de olhos estrelados era uma forma de energia radiante e sua claridade não cegava quem estava ao redor; ao contrário, em sua humilde iluminação guiava como um farol os que a cercavam. Talvez por isso, como um marinheiro à deriva ou um solitário náufrago, eu a seguia: na esperança de encontrar terra firme.

Nota

Metaformose

O ninho não é quente, e a vista tão conhecida não agrada mais, contudo, ainda traz algum conforto. A mãe pia enquanto traz novos gravetos. Você também mostra a voz, estufa o peito e pia: quer logo voar. Outros pássaros aproximam-se e não o deixam alçar voo, repetem incansavelmente em uníssono: “tu não sabes voar/ tu não sabes voar”. Ninguém parece lembrar do impulso vital, do instinto de sentir a vida soprar em suas veias ou do vento a passar suave sob suas asas. Ah! quem dera alcançar o sol, as nuvens, as estrelas. Quem dera ouvi-los, todos, de perto, num sussurro doce – às vezes, também, num berro amargo. Tuas asas foram feitas para o exercício. Tuas asas, imensas, assustam os atrofiados, assustam aqueles que tem medo de voar. Porventura, há quem não saiba lidar com a tua imensidão. Há, ainda, quem tente te podar, te enjaular, te julgar. Mas lembre-se: você foi feito pra voar, passarinho. Então, voe! Voe e não deixe de cantar, porque o canto afasta o medo e só faz embelezar. Sei que a essa altura o céu é o limite e o medo da queda pode assustar, porém, lá do alto, os problemas serão menores, passarinho, tu verás com melhor clareza. Voe e faça do mundo tua morada: durma no alto dos montes ou quem sabe repousará nas belas praias de mar azul, desbrave o mundo e não deixe de um dia voltar.

Palavreando

E quem te vê sempre belo,
será que te vê verdadeiro?

E quem te vê sempre belo,
não te vê, verdadeiro?

E quem te vê sempre belo
será que te vê verdadeira
mente?

Os afogados

Zachary Snellenberger

Zachary Snellenberger

Sabatina. Um sábado de sol e céu azul preenchido, paradoxalmente, por uma oração que mal encontra o caminho entre os lábios quase fechados. Tudo o que escapa é um ar miúdo, desses que tem medo de ser descoberto fora da boca. Preocupo-me.

Eclesiástico? Não, apenas alguém de fé. Não uma fé carola, dessas que bate o ponto, mas que ao deixar o templo vira a cara para o irmão que agoniza na rua. É uma crença mais pé no chão, algo quase literal, pés descalços e um olhar de compaixão para o próximo. Nada obrigatório, nada formal. Mas e o que sinto agora?

Nada, a não existência, o que não existe, coisa nenhuma, coisa vã. Assusta! Por quê? Não sei dizer. Apesar da fé e da convicção, é como se uma densa névoa cobrisse os pensamentos e sublimasse as certezas que até então estavam solidificadas em mim.

Temo. Não algum ser supremo ou o espírito infinito e eterno, este eu sei que é feito de amor e compaixão, apesar dos homens insistirem em demonstrarem o contrário. Temo a mim, que por diversas vezes sabia o que estava impresso nas páginas amarelas dos livros, mas não sabia o que fazer com elas no espaço físico do convívio com outro ser humano. Tudo baseado no teórico, não naquele quem escreveu, e sim no conhecimento apenas acadêmico da vida. Repetia inconscientemente fórmulas e teorias que não eram minhas. Mas e onde estão minhas verdadeiras dimensões?

Icnograficamente, acredito que a seção que as apresentava estão em uma sala de minha casa, numa gaveta velha de madeira que hoje está um pouco emperrada. Minhas dimensões esquecidas, manchadas, borradas e ilegíveis, prestes a serem descartadas. Por quê? Não sei dizer. Talvez porque precise repensá-las.

Reescrevê-las? Não. Não penso mais em pô-las no papel. O mundo já está cheio de teorias, hipóteses e crenças. Sinto que alguns pensamentos merecem ser apenas internalizados.