Prognose obsoleta

Tenho certeza de que o diagnóstico de esquizofrenia já está descartado. Até por que, semana passada foi retirado dos verbetes das principais patologias do século XXI. Agora o drama é outro. A doença não é mais a do escarro, do prurido ou tantas outras grotescas. O doentio agora é banal.

Já sei o que você quer. Quer saber onde o meu problema se encaixa. Sim, semana passada eu teria sido considerado esquizofrênico. Não é à toa. Ouço vozes o tempo todo. Vozes desfacetadas, programadas… frias. Eu as ouço em todos os lugares. Às vezes até no banheiro quando não me aguento mais e alivio as necessidades de um dia polifônico.

Ouço no carro, no trabalho, na faculdade e em casa também. Vozes que não pertencem a rostos. Vozes que não pertencem a vidas. Vozes que não consigo ver ou reconhecer. Eu nunca as vejo. Eu nunca as sinto. Mas as escuto. E pior: as sigo.

A última vez que ouvi foi um pouco antes de chegar ao novo local de trabalho. Uma voz doce, feminina, dessas que transmitem não só calma, mas também confiança e credibilidade disse quase ao pé do ouvido: você chegou ao seu destino. Espero um dia também retribuir.

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Ex-vazio

Calarão o silêncio com gritos
sussurrados
em vãos estreitos
destroçados

Colarão bocas maduras
suturadas
em gargantas doidas
esvaziadas

. . . . . . . .
vazio estreito
na garganta vã

insana

Calarão o silêncio com gritos
esquecidos
vencidos

Colarão bocas imaturas
saturadas
. . . .
cansadas

Não tão clandestina

 3x4

A minha relação com os livros não é tão parecida assim com a da protagonista de Felicidade clandestina, de Clarice Lispector, apesar de às vezes parecer uma relação de amor. E nessa relação tem um pouco de tudo: orgulho, vaidade, amor, cuidado, carinho e tantas outras relacionadas a emoções despertadas por palavras bem trabalhadas.

Bom, nessa minha relação, uma vez ou outra aparece alguém que me faz repensá-la. A primeira pessoa foi a Paula, minha professora de linguística no primeiro período de Letras, ela me indicou o Kindle, falou de seus inúmeros benefícios e no semestre seguinte: lá estava eu com o Kindle debaixo do braço. A segunda pessoa a me abrir os olhos, por alguma brincadeira do universo, também se chama Paulla. Ela é minha bibliotecária favorita – não que eu conheça muitas (brincadeirinha, Paulla) – e ela é responsável por me fazer repensar o modo como eu às vezes detenho um conhecimento que poderia alcançar outras pessoas.

Consciente como poucas, a Paulla é o tipo de pessoa que te faz refletir sobre muita coisa, desde a indústria alimentícia até livros e nosso sentimento de posse. E foi vendo o exemplo dela que hoje eu me sinto muito mais desprendida e menos escravizada pelos livros.

Depois dessas duas Paul(l)as na minha vida, percebi que minha compulsão por comprar livros diminuiu (apesar de o número de downloads ter aumentado). E acredito que com isso, minha vaidade em possuí-los também diminuiu. Já não vejo o acúmulo de livros na estante como algo positivo. Tenho pra mim que é muito mais interessante passar alguns livros pra frente (seja por doação, presente ou venda), porque assim o conteúdo presente naquele livro pode chegar a mais pessoas.

Espero com isso: abrir mais espaço em casa para outras coisas, nem que essa outras coisas sejam apenas mais espaço para ar e energia circularem; contagiar outras pessoas com as leituras que tive e com isso ter também com quem discutir (sim, parece um pouco egoísta); gastar menos e aproveitar mais; e ter em casa o estritamente necessário.

Foi pensando nisso que compartilho com vocês minha lista de vendas (as doações vão para o pessoal do Centro Acadêmico de Letras, que está angariando fundos). Caso tenha interesse em algum desses livros, entre em contato comigo: meh.weber@gmail.com.

1. Elizabeth Gilbert, Peregrinos (Editora Alfaguara) – [não lido, novíssimo];
2. Siba Shakib, Do outro lado do destino: a história de coragem, força e determinação da mulher que enfrentou o talibã (Editora Record) – [lido e aprovado, folhas um pouco amareladas];
[VENDIDO] 3. J. K. Rowling, Morte súbita (Editora Nova Fronteira) – [não lido, novíssimo];
4. Marina Nemat, Prisioneira em Teerã: memórias (Editora Planeta) – [lido e aprovado, um pouco amarelado];
5. Shoko Tendo, Yakuza Moon: memórias da filha de um gângster (Livros escala) – [lido, ótimo estado];
6. Johann Wolfgang Goethe, Os sofrimentos do jovem Werther, edição comentada (L&PM Pocket) – [lido, ótimo estado];
7. Jeffrey Eugenides, As virgens suicidas (Companhia das Letras) – [lido, ótimo estado];
8. Luís Dill, O dia em que Luca não voltou (Cia. das Letras) – [lido, novíssimo];
9. Matthew Quick, O lado bom da vida (Editora Intrínseca) – [lido, ótimo estado];
10. Matthew Quick, Perdão, Leonard Peacock (Editora Intrínseca) – [lido, ótimo estado];
11. Javier Moro, As montanhas de Buda: a odisseia de duas jovens monjas tibetanas apaixonadas pela liberdade (Editora Planeta) – [lido, um pouco amarelado];
12. Oliver Bowden, Assassin’s Creed: renascença (Editora Galera) – [do namorado, ótimo estado];
13. Kim Edwards, O guardião de memórias (Editora Sextante: Ficção) – [não lido, ótimo estado]
[VENDIDO] 14. Dante Alighieri, Divina Comédia (Editora Martin Claret) – [do namorado, ótimo estado];
15. Mark Twain, The adventures of Huckleberry Finn (Thomson Heinle, Illustrated Classics Collection) – [do namorado, ótimo estado];

Jaz

Para que serve a pedra?
A quem serve a pedra?
A mãos? A olhos?
Serventia
Tijolo barato de construção
Arremedo de terra
De teto
De chão
A pedra serve a quem?

Dos cotidianos imagináveis #7

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A vida foi tiquetaqueando e você nem notou que a cama mudou de lugar e nem o lençol é mais o mesmo. Aquele azul que você gosta deu espaço ao branco. Página pra criar. O roupão, peça indispensável das madrugadas frias, há tempos foi aquecer outro alguém. Você não notou que a cada lembrança que mudava de lugar ou de dono, ou até pro lixo, levava junto algo em mim. Você não notou quando as fotos pararam de sorrir e os tíquetes de cinema começaram a sumir. Já que você não notou, te digo: do que um dia fora um lar só restaram os cactos. Você não notou nem quando, ao andar em frente ao lugar que eu costumava morar, encontrou o seu restaurante favorito. Mas dessa vez, pelo menos, nem pediu pra levar… sentia-se em casa.

Nota

o(ração) criogênica

Com as ferramentas que possui, começa a esculpir o objeto disforme em si: estranho artefato pulsante preenchido por gélidas desesperanças de um horizonte azul. Mal nasce, já morre. Perde logo no primeiro sopro as unhas antes só roídas; o líquido carmin  escorre profanando o relógio de areia; bolhas saltam em uma manifestação de emoções violentas. A língua fervente afoga o grito que nasce nas entranhas. Mudos os olhos fitam a parede calfinada. A imponente torre de outrora – tronco firme da espinha – rui às suas costas; segue alicerçando o velho castelo de cartas. Corcunda e desajeitado nota pela primeira vez: ter pés.