Dos cotidianos imagináveis #7

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A vida foi tiquetaqueando e você nem notou que a cama mudou de lugar e nem o lençol é mais o mesmo. Aquele azul que você gosta deu espaço ao branco. Página pra criar. O roupão, peça indispensável das madrugadas frias, há tempos foi aquecer outro alguém. Você não notou que a cada lembrança que mudava de lugar ou de dono, ou até pro lixo, levava junto algo em mim. Você não notou quando as fotos pararam de sorrir e os tíquetes de cinema começaram a sumir. Já que você não notou, te digo: do que um dia fora um lar só restaram os cactos. Você não notou nem quando, ao andar em frente ao lugar que eu costumava morar, encontrou o seu restaurante favorito. Mas dessa vez, pelo menos, nem pediu pra levar… sentia-se em casa.

Nota

o(ração) criogênica

Com as ferramentas que possui, começa a esculpir o objeto disforme em si: estranho artefato pulsante preenchido por gélidas desesperanças de um horizonte azul. Mal nasce, já morre. Perde logo no primeiro sopro as unhas antes só roídas; o líquido carmin  escorre profanando o relógio de areia; bolhas saltam em uma manifestação de emoções violentas. A língua fervente afoga o grito que nasce nas entranhas. Mudos os olhos fitam a parede calfinada. A imponente torre de outrora – tronco firme da espinha – rui às suas costas; segue alicerçando o velho castelo de cartas. Corcunda e desajeitado nota pela primeira vez: ter pés.

Nota

Esta também é uma história de terror

Vendo você…

Nota

Reverso

sentei-pra-te-escrever

Sentei pra te escrever estas linhas não tortas, mas avessas e, travessa, senti aqui… bem aqui nessa caixa feita de batimentos e ar rarefeito, que eu atravessava não uma ponte… não uma rua… mas um turbilhão de sentimentos inversos aos que eu queria te contar.

Revoltei-me: de dentro pra fora, no contrário de mim, expus-me novamente a esse gesto tão traquina que é escrever.

Agora vai.

Encontrei essa folha amassada num canto da gaveta e pensei que talvez fosse uma boa ideia, uma hora boa pra colocar algumas coisas aqui, agora que o frenesim passou e o mar parece calmo novamente.

Hei, talvez você a receba na semana que vem. Claro, se o moço, aquele que passa de casa em casa fazendo as correspondências e ligando os pontos, não se esquecer de passar na tua rua e nem de apertar a tua campainha. Só espero que ele não saia correndo… assim como fiz tantas vezes.

Hei, mas espera, acredita, ela vai chegar, talvez um pouco mais amassada do que quando a escrevi, mas sei que a entenderá, pois sentirá no toque do papel tudo aquilo que quis te falar.

Nota

Entorpecer

Dormi vinte dias
acordei semanas
do céu desabavam medos
e aqui dentro pingavam sonhos

os anos de repente caíram sobre mim
como chuvas torrenciais
incessantes… angustiantes
deixei as roupas molhadas pelo chão

o peso da chuva desbotou-me
amarelos azuis vermelhos
substituídos pelo cinza fúnebre
tentei vestir-me de vida

………………………
não consegui

Nota

Desenrolo

A briga
Embriaga

Em briga
Obriga

Abriga
Obrigada