Nota

nebulosa

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[…] e de repente bateu uma saudade.
nós quatro e um céu estrelado.
à vontade e encantados com as possibilidades encontramos um lugar confortável para observar aquela beleza, uma ponte de madeira, dessas de jardim japonês, sobre um lago no interior do estado.
vimos estrelas e estrelas cadentes, batendo continência pra quem quiser assistir.
nós assistimos de camarote, num lugarzinho tão bom, tão nosso.
sinto falta dos dias estrelados.
e você?
do que sente falta? […]

sobre noites em família

Sobre caçar vaga-lumes ou como descobri a escuridão

Capa-Vagalumes

Tendo nas mãos um pequeno pote de vidro, a menina, ainda ingênua, saiu em busca dos belos vaga-lumes no quintal da casa dos avós. Ela, que por tantas vezes teve o seu caminho iluminado pela presença desses bailarinos noturnos, agora, queria mais. Queria mantê-los ainda mais perto, dançando, limitados a um pequeno pote de vidro. A luz deles pulsando no pequeno recipiente, assim, como uma lanterna “natural”. Dessa forma ela poderia, quem sabe, determinar os caminhos e não ser mais guiada. Mas ela não sabia. Não sabia que não era possível aprisionar a luz. Por mais que acreditasse que teria os pirilampos iluminando tal qual lampião, não foi isso que ela descobriu. Em poucos minutos a menina viu-se no meio da completa escuridão. Aprisionados, os vaga-lumes não encontraram razão para brilhar, e então, a luz amarela que iluminava o rosto e o caminho da menina se extinguiram. E foi assim que, com medo e no mais completo breu, a menina começou a entender que existem coisas impossíveis de aprisionar, ainda mais quando se sabe que nasceram para serem livres.

Foi

Ele dedilhou os últimos acordes no violão, pegou a mochila e partiu, deixando-a ali, sozinha, cansada, chorando ao encarar o mundo através da janela embaçada. Por algum tempo a melodia permaneceu ecoando fundo em sua mente. Ela não suportava mais ouvi-lo, encará-lo, não conseguia pronunciar mais nenhuma palavra, os argumentos haviam se esgotado, em ambos os lados. O que restou…

Ela despertou. Já estava escuro do lado de fora do prédio, a sala fria estava iluminada por apenas um abajur, um breu. As lágrimas escorrendo incansavelmente sobre a face a assustaram. Não acreditava naquela situação. Sentiu seu coração parar e depois acelerar de forma assustadora. Estava fragilizada. E como não imaginar o mundo em ruínas quando tudo o que fazia sentido – ou o que acreditava fazer – era o que os dois haviam construído juntos. O que ela havia feito por si nesses anos? Não era capaz de lembrar.

Foram tantas as noites em claro pensando em como manter a relação a dois. Depois de um certo tempo deixou de se preocupar em como manter o próprio organismo funcionando. Esqueceu quem era e até o que gostava de fazer.

E agora?

Agora aceitava a companhia da noite e continuava observando a vida através da janela da sala. Um mundo tão grande diante de si deve ter algo que faça o seu coração vibrar novamente.

Despertar

Ainda era cedo, o sol mal havia se posto e ela já estava sentada em frente à janela, em sua poltrona vermelha favorita. Pensava longe. Passava as pontas dos dedos sobre o livro novo, de páginas meio amareladas e aroma de livraria, aproximava-o do rosto e o percebia como se sentisse próximo de um amigo. Era um de seus momentos prediletos. Adorava sentir o cheiro e a textura de novos livros. Era como receber flores, mas sem o murchar do tempo, talvez apenas o envelhecimento das páginas e a mudança de perfume.
O céu já estava escuro e ela sentia-se extasiada, o clima estava perfeito, o que a deixava de muito bom humor. Começou então o ritual pré-leitura: aproximou o pufe da poltrona, buscou a manta roxa, macia, que trouxera da casa de seus pais, preparou o chocolate quente na caneca que ganhou do melhor amigo e ligou o MP3 na playlist de músicas para ouvir enquanto lê.
Ella olhou maravilhada o seu canto de leitura, organizado com todas as ferramentas necessárias para enfrentar as noites frias, e sentiu-se pronta para ligar o abajur e aconchegar-se novamente na poltrona. Olhou pela janela do apartamento mais uma vez, admirou a noite e as estrelas, agradeceu por mais um dia e começou a degustar aquele paraíso de palavras.
A cada parágrafo um deleite. Chegou a se imaginar como parte da história, alguém que estava ali, bem pertinho, observando tudo em silêncio, mas nem por isso menos importante. Quando lia, Ella era como uma menina mulher de Lispector, ninguém a tirava daquele êxtase.

Depois de algum tempo na poltrona, a inquietação a agitava, jamais permanecia na mesma posição, por vezes chegava a ficar de ponta cabeça, sem tirar, entretanto, os olhos daquele cenário. Era incrível ver como se transformava, como parecia fazer parte de um outro mundo. O mundo poderia cair lá fora, o sol poderia não voltar, e ela permaneceria ali, devotada à leitura. Entretanto, quando o dia não era bom, e tudo se assemelhava a um conto de terror, ela sustentava no máximo uma hora de leitura e adormecia sentada na poltrona.

Por volta das nove horas Henrique, o vizinho da frente, costumava visitá-la. Os dois aproveitavam o fim do dia para dividir angústias, alegrias ou simplesmente uma xícara de chocolate quente. Naquela noite, Rique, que sempre batia três vezes na porta e entrava, bateu três vezes e entrou, diante do apartamento/estúdio, que permitia uma visão ampla de todo o cômodo, olhou para a direita, perto da janela, e a viu ali, dormindo serena e desconfortavelmente com o livro na mão.

Delicadamente ele a pegou no colo, caminhou alguns passos com ela e deitou-a cuidadosamente na cama desfeita. Arrumou a cabeça no travesseiro e a cobriu. Nunca a viu tão linda. Deu um beijo em sua testa e sentou-se na mesma poltrona vermelha onde ela adormecera e ficou ali a noite toda observando-a dormir, seus movimentos agitados e às vezes serenos ao dormir, a movimentação das pernas, dos braços e os suspiros noturnos, como se sonhasse que estava flutuando em algum lugar longe dali. Rique permaneceu ali , feliz, cuidando dela, velando seu sono.
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Deixe a luz acesa

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Por favor, quando sair, deixe a luz acesa. Não permita que eu permaneça no escuro, que eu sinta medo e que esse medo me impeça de seguir em frente. Eu sei que você não é mau e que, mesmo depois de tudo, você não me faria sofrer além do que é comum em uma situação como esta. Então, por favor, deixe a luz acesa e me permita decidir quando apagar a luz e quando enfrentar a escuridão novamente sozinha. Permita-me também escolher o momento certo de acender a luz e de começar tudo de novo.
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A fina dor

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Era noite, vestia o vestido longo mais bonito que havia encontrado no armário, um vermelho sangue com as costas nuas. Vestida para uma noite de gala, colocou-se diante do piano Essenfelder – que ele havia deixado no apartamento dela,  um presente para os dois e que há algum tempo era só dela – um pouco empoeirado, resultado do tempo que ficou esquecido na sala de estar, apenas mais um item de decoração, nada mais do que um apoio para fotos de tempos esquecidos. Doía olhar para um passado que deixou uma ferida tão grande e com uma recordação tão pesada, tão difícil de mudar de lugar. Mas já era preciso enfrentar os fantasmas do passado. Admirando aquele momento mais do que tudo, imaginando-se mais uma vez diante de plateias aconchegantes, de bares tranquilos, com uma noite boêmia contida, daquelas que você só descobre no olhar do outro, ou no toque durante um jantar, passou os dedos compridos e finos delicadamente sobre as teclas daquela obra prima. O piano não estava mais afinado, mas as recordações que vieram a sua mente eram as mesmas, não importava que sons saíssem daquelas notas desafinadas: o coração repleto de orgulho por estar ali, fazendo o que mais gostava valia tanto que não importava.
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