Espelho

Via Della Ruga - Toscana, Itália (Pinterest)

Via Della Ruga – Toscana, Itália (Pinterest)

Sei que existem marcas em minha face que denunciam algo que tolos chamam de idade. Mas elas não me incomodam. Quando as encaro diante do espelho, é como se pudesse lembrar de cada momento que contribuiu para que essas pequenas pregas se formassem em meu rosto.

Às vezes – pode parecer loucura – tenho vontade de nomear cada uma delas. Nomeá-las de acordo com os eventos que as provocaram e as enterraram em minha face. Será que só eu penso que os sinais em meu rosto são resultados de uma vida vivida de forma plena?

Às vezes, diante do espelho, eu fecho os olhos e passo delicadamente as pontas dos dedos sobre a pele flácida. Percorro devagar as linhas e de repente sou transportada para outros tempos. Bons tempos, maus tempos, tempos que me fizeram chegar até aqui. Ser quem eu sou.

Por que eu deveria me envergonhar disso? Os mínimos e deliciosos detalhes desenhados em minha fronte são indícios de que sorri, chorei, gritei, amei. O que me importa se a cada novo dia elas se intensificam? O que vejo no espelho é uma alma jovem, dessas que rodopia, canta e dança sem se importar com o que os outros pensam.

do diário de Ella

Desafio feito pelo Lucas Andreatta!

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Olá, Maio

Hei, Maio,7686b287c893cd59706a5a3befea2668

Tudo bem com você? Quanto tempo não nos falamos, faz o quê, quase um ano desde nossa última conversa? Acredito que seja algo em torno disso. Das recordações que tenho da última vez que nos vimos são poucas as coisas que consigo lembrar. Interessante prestar atenção na ação do tempo. Quando olho pra você sinto que mudei muito mais que você.

O seu primeiro dia iniciou como de costume, um pouco frio, meio nublado, mas de repente, durante a tarde, um sorriso surgiu no céu e tornou o clima agradável. A noite veio e seu brilho partiu com o sol. Ficamos novamente gelados.

Bem, eu não queria parecer grosseira ao dizer que você não mudou em nada, na verdade você tem tantas coisas boas que não vejo mesmo razão para que mude. Seu clima aparentemente instável nos permite uma certa preparação para os meses gélidos que vem pela frente. Obrigada por isso! Faz com que as mudanças se tornem mais fáceis. E falando em mudanças, acredito que eu mudei bastante, não é só o cabelo e as novidades. É muito mais, algo que começa aqui dentro – no coração – e de alguma forma mágica transparece aqui fora. Entende? Talvez por isso eu imagine que você não tenha mudado em nada, talvez seja porque eu tenha mudado bastante.

Não sei o que te dizer, só gostaria mesmo de te agradecer, por me dar essa oportunidade de clareza e espaço para análise e autoconhecimento. Sei que você é um mês muito bom e propício para isso, então, gratidão por todas as reflexões e calmarias que você trouxe – e traz – para a minha vida.

E hei, vê se não some. Vou tentar fazer o mesmo.

Com carinho,

Ella

Instável

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Sentia o vento sussurrar entre as árvores e a própria respiração se confundia numa sinfonia de sons ansiosos e preocupados. A densa neblina da manhã voltou a se condensar durante aquela tarde de clima instável e desagradável, entre as idas e vindas do sol, os períodos de chuva e então o frio intenso de machucar o rosto e a escuridão do céu encoberto de nuvens. Parecia noite. Daquelas noites que a gente só vê em filmes, aqueles nos quais as pessoas estão sempre despreocupadas e de repente algo assustador acontece.

Essa tarde estranha e sombria levou as pessoas mais cedo para casa e as ruas desertas abriram espaço para a imaginação se soltar, pular de galho em galho e assustar os passantes desprevenidos. Os poucos que ousaram transitar por vielas e travessas viram suas fiéis escudeiras – as sombras – de uma hora para outra tornarem-se assassinas em potencial, o gato brincando no lixo um gatuno pronto para levar seus bens e essas são só algumas das inúmeras possibilidades que percorreram a mente de alguns transeuntes.

Menos de Olívia. A menina que por tantas vezes inventou cenários incríveis enquanto passeava pelas mesmas calçadas, naquele momento mostrou-se oca. Algo estranho no clima confundiu seus sentidos. Ela nada percebeu de diferente. Aos seus olhos, a única coisa incomum era o tempo que brincou com todos: desde os que saíram sem guarda-chuva ou vestindo sandálias, aos que esperavam sol e calor até aqueles que esperavam estabilidade do início ao fim do dia. Nem sempre é fácil agradar todo mundo.

Serenidade, Dezembro

Serenity painting of a woman reading by Sherree Valentine DainesE chegamos ao último mês do ano. Seja bem-vindo, Dezembro. Depois da loucura que 2014 foi, espero de coração que você fique e traga um pouquinho de serenidade. Eu sei que é exigir do mês mais movimentado do ano, mas talvez esteja na hora de fazer as coisas de um jeito diferente, não acha? Talvez pudéssemos começar diminuindo o ritmo, escutando mais as pessoas e os sons ao nosso redor, apreciando os dias de céu azul e poucas nuvens, o que pensa sobre isso? Depois poderíamos reduzir o consumo descontrolado e sem sentido. Sim, eu sei que presentear é algo bom, mas companhia e atenção também são ações importantes, porque não priorizar isso?

Posso dar uma ideia? Por que não presentear com presentes caseiros, feitos à mão, com detalhes incorporados por recordações que temos dos outros? Ou se é impossível ficar sem comprar, por que não buscar uma carta nos correios e dar a uma criança carente a oportunidade de ter um natal diferente? Acredito que isso não seja pedir muito. Há tantas maneiras de pacificarmos e desacelerarmos o mês mais conturbado do ano. Então, Dezembro, faça a sua parte, traga a serenidade e nós entramos com a paciência e a tolerância e juntos inovamos e damos uma outra cara para o fim do ano.

Topa me ajudar nisso?

Assombrado

natureza2008_15Às vezes o coração e a cabeça agem ambos como age o clima ou as estações. Um dia é céu azul de brigadeiro – não o doce, mas aquela única patente da aeronáutica que eu conheço – que impera o dia todo, trazendo consigo calor, às vezes moleza e um teto sem nuvens que nos convida a experimentar um dia de aventura. Nos sentimos leves, animados e esperançosos, às vezes um pouco preguiçosos também, admito. Em outros dias é como se armasse aquela terrível tempestade de verão, que começa do nada, com o céu azul perdendo espaço para tons de cinza e então outros sinais surgem ricocheteando no teto de algodão, com raios e trovões, como bem diria o querido Tio Vitor. Os relâmpagos que insistem em iluminar tudo, às vezes assustam e em outras vezes são sinônimos de admiração. Em outros dias, ainda, é chuva calma e mansa que molha e regenera a terra, levando as impurezas para fora. Há também momentos de intenso frio, vento forte e pouco o que fazer além de procurar se aquecer com alguma coisa, seja um cobertor de lã ou uma xícara bem cheia de chocolate quente. Não esqueça também daqueles momentos em que as quatro estações parecem brincar de o mestre mandou e nós nunca sabemos quem é o mestre da vez.

Temporada de férias

Ela é uma cidade. Uma dessas cheias de histórias e mistérios que fazem com que tudo fique mais interessante, enigmático, despertando a curiosidade dos que a visitam.

Ele é um turista. Um desses que visita a cidade num final de semana e, tolo, gaba-se pra quem quiser (ou não) ouvir que já conhece toda a cidade.

A cidade histórica é mais do que monumentos e pontos turísticos, é mais do que o cenário que está exposto. O tolo turista, em poucas horas, percorre monumentos, mas não se aprofunda em nada. Mal sabe o nome de cada lugar.

Ele sai dizendo que me ama, leva algumas recordações, mas não lembra nem da cor dos meus olhos.