Petrichor (n.)*

chuvarain

Sempre a mesma chuva, o mesmo som…

Encharcada, a varanda de madeira não convidava ninguém a se sentar; sequer para apreciar as intensas gotas que caíam a poucos metros da entrada: a menina de ondas no cabelo preferia espiar tudo através da brecha entre as cortinas. Embaçado pelo ar quente que saía por entre seus lábios aflitos, o vidro também castigado pelo tempo, possuía – apesar das duras penas – uma bela moldura colonial: o que proporcionava um charme todo especial àquele lugar.

Passava horas, por vezes dias sozinha naquele refúgio na mata. Ninguém a compreendia tão bem quanto ele, ainda que possuíssem recantos à primeira vista tão distintos: o dela, a casa de campo; o dele, as páginas de um bom livro.

De quando em quando ela perdia a noção do tempo ao observá-lo em seu habitat natural, sentia-se privilegiada por estar diante de tamanha poesia. Ocasionalmente, ele deixava as histórias do Oriente de lado e voltava o corpo e a alma para admirá-la distraída e leve em dias chuvosos.

Àqueles que por alguma sorte ou acaso tinham a chance de os contemplar, diziam que no fundo os dois estavam em sintonia em um mesmo recanto: a única diferença eram as ações empreendidas no ambiente. Ao fim, quando o sol rompia a meio das nuvens, os dois deixavam seus redutos à parte e juntos se encontravam na mesma varanda encharcada, apreciando o cheiro da terra após o contato com outro elemento. No fim, tudo era uma questão de reações elementares.

* O cheiro da terra depois da chuva.
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Free Spirit

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Ele tem uma aptidão natural de olhá-la tão profundamente, que às vezes Ella sente como se ele soubesse ler e descrever cada pensamento, cada detalhe secreto da composição física e emocional dela. Tudo isso feito com um esmero e carinho sem precedentes. Os olhos, em tons verdes, semelhantes aos da praia com a qual um dia sonhou mergulhar, possuem intensidade, força e ainda um elemento não descoberto, alguma coisa que lhe atribui uma magnética sensibilidade, traços responsáveis por surpreender a menina de modos timidamente espontâneos, pois eles despem a alma e revelam-no algo que a doce menina só pode imaginar ser encantadora e singular – um mistério para ela -, pois ele sorri um desses sorrisos constantes e enigmáticos, que a cativa ainda mais. Por vezes, quando os olhos se desencontram, muitas vezes porque ela, nos momentos em que a alegria quer explodir em risos abafados e bobos, os desvia rapidamente. No entanto, ela sente que ele ainda a olha admirado. Talvez o menino de olhos bonitos apenas esteja querendo registrar aquele momento para sempre ou, quem sabe, ele sinta sede de mistérios.

Espelho

Via Della Ruga - Toscana, Itália (Pinterest)

Via Della Ruga – Toscana, Itália (Pinterest)

Sei que existem marcas em minha face que denunciam algo que tolos chamam de idade. Mas elas não me incomodam. Quando as encaro diante do espelho, é como se pudesse lembrar de cada momento que contribuiu para que essas pequenas pregas se formassem em meu rosto.

Às vezes – pode parecer loucura – tenho vontade de nomear cada uma delas. Nomeá-las de acordo com os eventos que as provocaram e as enterraram em minha face. Será que só eu penso que os sinais em meu rosto são resultados de uma vida vivida de forma plena?

Às vezes, diante do espelho, eu fecho os olhos e passo delicadamente as pontas dos dedos sobre a pele flácida. Percorro devagar as linhas e de repente sou transportada para outros tempos. Bons tempos, maus tempos, tempos que me fizeram chegar até aqui. Ser quem eu sou.

Por que eu deveria me envergonhar disso? Os mínimos e deliciosos detalhes desenhados em minha fronte são indícios de que sorri, chorei, gritei, amei. O que me importa se a cada novo dia elas se intensificam? O que vejo no espelho é uma alma jovem, dessas que rodopia, canta e dança sem se importar com o que os outros pensam.

do diário de Ella

Desafio feito pelo Lucas Andreatta!

Sombra

Sabe aquele domingo preguiçoso do tipo que só de pensar já dá cansaço? Estávamos os dois deitados na cama lendo, ele acompanhado do King e eu do Shakespeare. Por um momento meus olhos deixaram a megera de lado e viajaram para quem estava próximo a mim. Foi inevitável. Era magnético.

De olhá-lo lendo, minha mente percorreu caminhos obscuros e tristes até pensamentos bastante estranhos:

Não te assusto? Minhas opiniões fortes, meu posicionamento político ou meu modo de falar não são demais para você? Ou quem sabe a minha sede por conhecimento seja um pouco exagerada. Isso tudo não te intimida? Por tantas vezes senti que características como essa afastavam as pessoas que me acostumei a me colocar alguns degraus abaixo só para não me sentir diferente. Você entende um sentimento como esse? Você é capaz de me compreender ou de pelo menos não me julgar? Você já se sentiu pra baixo dessa forma? Tão embaixo que já nem sabe como sair do fundo?

Demorou algum tempo, mas ele notou que eu o observava.

Será que você consegue apenas ficar ao meu lado e entender que em nenhum momento eu digo ou ajo com a intenção de colocá-lo para baixo ou qualquer outra pessoa? Você vai entender quando eu começar a chorar na novela, no filme, no telejornal e no comercial de margarina? Eu sei, é estranho alguém que mostra-se sempre tão forte de repente estar tão vulnerável. Já cansei de ouvir que intimido, que sei demais e que tudo isso provoca medo nos outros que acabei aceitando o título de monstro. Gostar de alguém, pra mim, é tão difícil quanto enfrentar uma crise de ansiedade. Por quanto tempo você acha que aguentaríamos lidar com isso?

Ele então sorriu. E eu desmoronei. De repente tudo ali eram lágrimas, abraços e a segurança de quem tem braços de compaixão para acalmar.

do diário de Ella
novembro/1970

Olá, Maio

Hei, Maio,7686b287c893cd59706a5a3befea2668

Tudo bem com você? Quanto tempo não nos falamos, faz o quê, quase um ano desde nossa última conversa? Acredito que seja algo em torno disso. Das recordações que tenho da última vez que nos vimos são poucas as coisas que consigo lembrar. Interessante prestar atenção na ação do tempo. Quando olho pra você sinto que mudei muito mais que você.

O seu primeiro dia iniciou como de costume, um pouco frio, meio nublado, mas de repente, durante a tarde, um sorriso surgiu no céu e tornou o clima agradável. A noite veio e seu brilho partiu com o sol. Ficamos novamente gelados.

Bem, eu não queria parecer grosseira ao dizer que você não mudou em nada, na verdade você tem tantas coisas boas que não vejo mesmo razão para que mude. Seu clima aparentemente instável nos permite uma certa preparação para os meses gélidos que vem pela frente. Obrigada por isso! Faz com que as mudanças se tornem mais fáceis. E falando em mudanças, acredito que eu mudei bastante, não é só o cabelo e as novidades. É muito mais, algo que começa aqui dentro – no coração – e de alguma forma mágica transparece aqui fora. Entende? Talvez por isso eu imagine que você não tenha mudado em nada, talvez seja porque eu tenha mudado bastante.

Não sei o que te dizer, só gostaria mesmo de te agradecer, por me dar essa oportunidade de clareza e espaço para análise e autoconhecimento. Sei que você é um mês muito bom e propício para isso, então, gratidão por todas as reflexões e calmarias que você trouxe – e traz – para a minha vida.

E hei, vê se não some. Vou tentar fazer o mesmo.

Com carinho,

Ella

Prefixo

32f918a31e2d38b4af3c95d367587310O frio começou com a promessa de dias de coberta fofa, chocolate quente e muitos momentos de introspecção e reflexão. A garoa fina que agora cai lá fora convida Ella a pensar em todas as coisas que gostaria de fazer ao longo da vida e o que ela de fato pode conquistar. Certa vez disseram para ela que não sabendo que algo era impossível alguém foi lá e fez, e acreditando nessa afirmação decidiu derrubar barreiras e quebrar correntes que a impedissem de realizar coisas.

Quem diria que hoje ela estaria onde está, com a vida construída de forma ainda mais incrível do que um dia poderia sonhar. Às vezes ousar realizar algo pode te levar a lugares inimagináveis. E era assim que a menina de sonhos doces se sentia: num sonho realizado, dentro das páginas de um conto de fadas, desses modernos que nós sabemos que não será perfeito, mas que será do modo que precisa ser e por essa razão, especialmente, ela estava feliz. Ela esqueceu o prefixo em casa e tornou o sonho possível.