Desiluminada

E ela escreveu em linhas nada tortas o que aquele ser sem coração a perguntava: “No que você está pensando?”.
Escreveu e apagou diversas vezes.
Ninguém parecia se importar com o que pensava.  Todos pareciam se importar muito mais com o status que aquilo transmitia ou significava.

Controlada e sentindo-se um pouco manipulada, sem saber ao certo por quem, digitou pensando em cada letra que dedilhava. Contou a todos ali, no ambiente sem coração e sem vida, que estava feliz da vida. Emocionada por ter encontrado o filme estrangeiro que há tempos buscava em locadoras. Mencionou também que estava o colocando para rodar acompanhada de pipoca e uma taça de vinho – duas coisas que não combinavam em nada.

Do outro lado, curtidas e mais curtidas. E por quê? O que ela havia feito de tão grandioso? Alugar um filme de quem nunca ouviu falar e comentar que estava para vê-lo? As demonstrações eram igualmente superficiais, limitavam-se às curtidas e alguns poucos comentários incentivadores.

Mal sabiam que ela estava triste por fazê-lo sozinha. Fechou o computador e voltou-se à realidade.

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Para resgate diz que…

CapaDizque

Às vezes agimos como se tivéssemos uma pedra amarrada à perna. Em vez de desamarrá-la, prosseguimos caminhando, arrastando-a por onde vamos. Como uma corrente prisional, ela nos lembra a todo momento de nossa condição de prisioneiro. Ao olhar para trás, por vezes, notamos o rastro triste que deixamos, mas nada fazemos, apenas lamentamos. Ignorantes, desconhecemos nossa capacidade de desatar o nó a fim de seguirmos leves.

Às vezes, em momentos nunca calculados de forma precisa, prendemos a respiração por tanto tempo que não percebemos o quanto permanecemos inertes, sem ar nos pulmões. Sem inalar e exalar o oxigênio que nos sustenta e renova. Seguimos em um ritmo que não nos permite sequer notar algo tão simples e natural quanto respirar ou piscar os olhos.

Às vezes, por imaturidade ou medo, fechamo-nos em nossos casulos virtuais e deixamos de viver o real. Deixamos de ir atrás dos sonhos e ficamos naquela linha nada tênue onde dizemos muito e fazemos muito pouco. Para alguns, a simples menção da vontade já é a vontade realizada.

Por quanto tempo permitiremos a nós mesmos estar acorrentados, sem ar e vivendo de ilusões?
É preciso desatar o nó, respirar, despertar e ir ao encontro de algo novo e também velho.
Talvez o segredo seja resgatar velhos costumes.

Sobre músicas e paredes

O quarto quase escuro, iluminado parcamente pela iluminação da rua que insistia em atravessar a janela, a convidava a acomodar-se na poltrona, fechar os olhos e ouvir a música doce que vinha do apartamento vizinho. Não era comum escutar coisa alguma vindo do 193, chegou a acreditar que ninguém vivesse ali, mas aquele tipo de música a fez pensar que alguém muito parecido com ela estivesse a poucos metros dela. Sentia como se ambos, desconhecidos, enfrentassem o mesmo momento conturbado, a mesma sensação de medo e impotência diante dos fatos que aconteciam para eles.

Permitiu-se então permanecer em silêncio, em seu próprio lar e, mesmo assim, compartilhar aquela dor, a angústia de sentir-se vazia, com alguém que nunca viu.

A música repetiu algumas dezenas de vezes até que ela, cansada, adormeceu de forma desconfortável na poltrona.

essamesmo

Os dois encontravam-se assim quase todas as noites. Às vezes ela chegava cedo em casa e colocava uma música nova para tocar até cansarem e dormirem. Um segredo compartilhado entre vizinhos que nunca se cruzaram no elevador e nem se cumprimentaram na portaria do prédio.

É possível que numa das muitas andanças tivessem se esbarrado nas calçadas esburacadas ou nas esquinas frias daquela metrópole, mas, de fato, a resposta para essa dúvida nunca seria respondida. Os dois funcionavam daquela maneira. Músicas e uma parede. A dor compartilhada, a cura ouvida, e o sentimento de não estar sozinho nesse mundo.

Foi

Ele dedilhou os últimos acordes no violão, pegou a mochila e partiu, deixando-a ali, sozinha, cansada, chorando ao encarar o mundo através da janela embaçada. Por algum tempo a melodia permaneceu ecoando fundo em sua mente. Ela não suportava mais ouvi-lo, encará-lo, não conseguia pronunciar mais nenhuma palavra, os argumentos haviam se esgotado, em ambos os lados. O que restou…

Ela despertou. Já estava escuro do lado de fora do prédio, a sala fria estava iluminada por apenas um abajur, um breu. As lágrimas escorrendo incansavelmente sobre a face a assustaram. Não acreditava naquela situação. Sentiu seu coração parar e depois acelerar de forma assustadora. Estava fragilizada. E como não imaginar o mundo em ruínas quando tudo o que fazia sentido – ou o que acreditava fazer – era o que os dois haviam construído juntos. O que ela havia feito por si nesses anos? Não era capaz de lembrar.

Foram tantas as noites em claro pensando em como manter a relação a dois. Depois de um certo tempo deixou de se preocupar em como manter o próprio organismo funcionando. Esqueceu quem era e até o que gostava de fazer.

E agora?

Agora aceitava a companhia da noite e continuava observando a vida através da janela da sala. Um mundo tão grande diante de si deve ter algo que faça o seu coração vibrar novamente.

só lá mi fá dó lá si: Norah Jones

Dezembro, a neve grossa cobrindo os passos, e cá estou, de volta à Manhattan. Depois de tanto tempo numa caça aos piratas, preso em uma perseguição que parecia não ter fim, chego aqui e não sei o que fazer. Tanto tempo livre e tão pouca ideia do que fazer. Com a dedicação de um devoto entreguei minhas energias a algo em que acreditava e, agora, sentindo-me leve como uma pena, resolvo descansar.
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No entanto, o descanso não dura muito. O sangue jovem a fluir pelas veias mostra-me que estou vivo e ficar parado não é solução para nada. Ainda menos para esquecer. Esquecer olhos e olhares, bocas e beijos apaixonados, o perfume impregnado na roupa depois de um dia todo junto. Momentos que permanecerão por algum tempo gravados na memória.
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A saída foi me entregar a uma nova missão e pela primeira vez em meses eu sabia e sentia que, nessa nova persecução, eu não precisaria de você. Talvez jamais volte a precisar. Pode demorar. Mas será pra melhor. Porque você sabe o tempo que fiquei esperando e acreditando, e mesmo assim você me arruinou. (Ou talvez eu tenha deixado você me arruinar).
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Então, por favor, faça um favor a nós e diga a sua mãe a verdade. Diga que não você não é e nunca foi uma santa. Diga que é uma devoradora de corações solitários. Conte o número de vezes que seduziu e deixou o outro ali, entregue, inerte por só pensar em perder você, a quem ele nunca teve e nem terá.
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Há pouco tempo eu era o homem do momento e agora o que sou? O que somos? O que fomos? Momento breve não é mesmo? Não existe mais bom dia, o café feito na hora e os biscoitos caseiros para acompanhar. Só existe um longo e triste “diga adeus” ecoando em minha mente. O que restou depois da queda foi essa terra seca e fria dos pequenos corações partidos. Infértil e improdutiva, provocando o meu êxodo, a minha saída para uma nova busca. Um novo destino.
Um novo começo.
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Viajando fora da estrada, matando tempo à base de “comprimidos de alegria”, sigo gritando como louco “leve de volta! Leve de volta os quatro corações partidos que você deixou para trás, sem serventia, estéreis”. Grito e ninguém responde.
Os que me conhecem há tempos, preocupados com a minha ensandecida loucura tentam argumentar: “mas ela só tem 22, o que você esperava?”. Eu me recuso a acreditar que é imaturidade. Eu não escuto. Não quero escutar. Faço-me de surdo. Eu não quero ouvir nenhum outro som além da sua queda iminente, Miriam.
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Deve ser tudo um sonho. Melhor, um pesadelo. Talvez eu esteja equivocado e tudo o que vivemos não passou de mera invenção da minha mente carente e romântica. Contudo, no momento, eu sou só mais um coração partido desejando coisas que jamais desejaria pra você. Me desculpe.
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Gostaria de poder deixar no passado todo o mal que você me fez, ou que penso que tenha feito, e separar apenas os momentos bons. Lembrar, por exemplo, de quando estávamos naquele pequeno quarto da casa dos seus pais, ninando sua nova sobrinha, Rosie, com sua canção de dormir. Você lembra disso? Lembra desse dia? Nós dois, felizes, adormecemos no sofá observando aquela pequena criaturinha dormir. Angelical.
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Uma lição que eu ainda não aprendi.
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Ainda.
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Quebrado e ainda assim pensando em você, afundando rapidamente num oceano de sentimentos e pensamentos, desejo desesperadamente que alguém me acorde. Olhar para o lado, encontrar um sorriso e dirigir-me a ele com um “seja meu alguém, fique comigo e me ajude a sair desse abismo no qual eu caí”. Mas nada acontece e eu continuo caindo.
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E quando eu acordo, poucas coisas me mantém de pé. No meu querido país, por exemplo, o sol não gosta de você. Então, o jeito que você encontrou para continuar sobrevivendo é permanecendo nos espaços escusos da minha mente ou até mesmo caminhando por becos vazios e escuros.
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Talvez não seja tarde demais pra perceber que o escuro não é meu amigo e que estamos separados por caminharmos por lugares tão diferentes.
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O que eu sou pra você? O que fui pra você? Fui aquelas palavras doces que pronunciei ao pé do ouvido quando vimos o nascer do sol? Ou aquele que quando de manhã, ainda de pé depois de uma noite de festas, segui o caminho mais longo para casa com você, porque você queria ter mais tempo para apreciar a brisa fria da manhã? Ou eu sou, fui, aquele que espontaneamente disse que a coisa mais linda já fora vista no mundo era você?
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Eu fui um sonho ou um pesadelo?

Esqueça. A culpa não é sua. Não sei por quê demorei pra perceber que ambos estávamos acima do chão, novamente em lugares opostos, eu com os dedos dos pés firmes na terra e você flutuando inalcançável. Relutante eu sentia que as coisas estavam diferentes. Pensava, “por favor, esteja aqui pra me amar, porque você me torna humilde, me faz querer ser alguém melhor”. Mas pra quem? Você nem notava. Em meus piores pesadelos eu estava na cidade do carnaval, olhando ao redor, procurando por algum sinal de você, rastejando sem forças e não encontrava nada.
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Eu não sinto nenhuma saudade sua, agora.
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Agora.
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Depois de sete anos vivendo com um coração gelado, eu não sinto mais a sua falta. A louca vontade de encontrá-la em cada canto não existe mais. Embora certas lembranças ainda façam com que eu acabe me sentindo do mesmo jeito, mas não dura muito. O longo dia acabou. O rouxinol canta durante um voo para baixo e sinto que estou bem, posso ver o céu e voar também. Atire na lua e flocos de neve cairão sobre a cidade. A música da pintora, que vive ao lado, preenche os meus ouvidos, me excita e diz que eu não sou mais uma estrela solitária.

Sinto que, agora, depois de tanto tempo, quando você resolver ligar – se resolver -, e dizer “tenho que te ver novamente. Venha embora comigo”, como em muitas noites eu ousei imaginar, vou responder “não”.

A proximidade de você é tóxica, viciante e eu sou só mais um viciado que acredita estar curado. Repito para os outros, diversas vezes, que está tudo bem, que um olhar a mais não fará mal. Mas faz. E por isso eu evito. E continuarei evitando. Porque eu sei , eu senti, a dor da queda. Foi difícil recolher e reunir os pedacinhos dos pequenos corações partidos. Sei também que não é bom se sentir em casa quando as coisas não andam bem. É perigoso se acomodar. Então, por favor, venha comigo, vou te mostrar que não é tarde para perceber que não somos nada além de estranhos agora.
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Ordem de aparecimento:
The Fall
Little Broken Hearts
Not Too Late
Feels Like Home
Come Away With Me

Hipoglicemia e lembranças desordenadas

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Acho que nos falamos, não lembro direito, você olhava nos meus olhos e eu estava dispersa, não olhava pra você, não olhava para nada, talvez olhasse para dentro, não lembro.

Lembro apenas de algumas coisas que você me dizia: preste atenção em mim, eu cansei, eu vou embora.

Acredito que tenha despertado já no final da conversa, quando você abria a porta e passava por ela com todas as suas coisas.

Eu não corri atrás.

Estava cansada, de tudo… talvez nem fosse canseira, mas só outro caminho, outras escolhas.

No final, bom, no final, era só falta de açúcar.
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