Nota

Observações

Eu sei, você faz de tudo para parecer bruto: deixou a barba crescer, não sorri com a mesma frequência de antes e faz o impossível para não tocar em assuntos que se referem ao coração, porque “não faz o seu estilo”. Tudo bem, mas eu conheço um segredo seu. Sei de algo que, por mais que você tente, não consegue controlar. E nós dois sabemos que não adianta fechar os olhos. Se não está diante dos olhos está presente no ar, no toque, nas palavras. Depois de olhar pra ela, de saber que ela está ali, não adianta vendar os olhos. O que você os impede de dizer, o sorriso alegre e meio bobo de poucos segundos já revelou por detrás dessa imensa muralha facial que você construiu. Numa olhada rápida deu até pra notar que ela gostou do seu novo visual. Acredito que, ao te olhar desse jeito, ela foi capaz de te enxergar de uma forma diferente, talvez até mais maduro. Mas, por favor, não crie expectativas em torno de minhas palavras, essas são apenas algumas observações a respeito de alguém que eu não conheço, mas de quem há algum tempo ouço falar. Para quem está apenas a observar, digo que ela parece animada. E será que você está? O que toda essa sua reação diz sobre o que sentes? Você sempre disse que ela é determinada e persistente, algo bem diferente da sua insistente e infantil teimosia perante à vida, acreditando merecer por merecer. Ela parece o tipo de garota que acredita em algo e corre atrás até alcançar, mas e você? Pela primeira vez, pelo que você está disposto a correr atrás?

Da série: encontros de Valentina e Bernardo

Gratidão

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O meu opa Valentim, aquele cara fortão e querido que me inspirou a escrever Ode aos cabelos brancos, um dia foi esse menininho lindo, descalço, que está à esquerda na foto preto e branca que encontrei remexendo as fotos antigas da família. Hoje ele é o único representante vivo daqueles que sempre foram segundos pais para mim: meus avós. Quando eu encontro fotos deles por aí é impossível não lembrar dos colos, das histórias, dos sorrisos, dos conselhos, dos abraços, dos beijos, dos sonhos compartilhados, das artes em fazer coisas que os pais geralmente não deixam – como comer sobremesa antes do almoço ou limpar a mão na toalha, entre outras situações impossíveis de enumerá-las aqui sem que o conteúdo fique extenso.

Fui muito abençoada por ter tido a oportunidade de conviver com eles. Não são todas as pessoas que tem essa chance. Inclusive, além de poder ter os quatro em minha vida por um bom tempo (nunca o suficiente), tive a oportunidade de conviver com minha bisavó materna, o que eu acredito que, mesmo quando havia a dificuldade da fala, pois ela só falava em alemão, ainda assim foi uma relação muito bonita, de muita troca de sorrisos e olhares cúmplices. Por essas e muitas outras coisas sou muito grata.

E, não podendo estar hoje ao lado deles, três que agora me protegem de outro lugar, e por, em especial não poder abraçar o meu opa querido, quero apenas deixar essa mensagem para a posterioridade, e lembrar do que eu senti nesse dia: uma extrema felicidade e alegria por tê-los tido comigo, num dia de céu com poucas nuvens e uma cara de dia bonito na capital paranaense, hoje um pouco fria, mas nada que impeça de ser aproveitado. Obrigada meus queridos, eu amo muito vocês.

Tem coisas que ninguém escolhe

Infelizmente não escolhemos por quem nos apaixonamos. De repente não paro de pensar em você, e a cada pensamento me pergunto como isso foi acontecer. Tudo isso me apavora. Você nem sabe que sofro em silêncio, imaginando como seria se estivéssemos juntos. Lembro-me, então, que você já é comprometido, mas mesmo assim eu não desisto de ser a responsável pelo seu sorriso, deve ser o melhor dos sentimentos. No fundo eu sei que é amor. Você me visita em meus sonhos e me põe a pensar e acreditar que eu não deveria te amar, mas nós não escolhemos quem amamos. Continuo sofrendo em silêncio. Não transpareço ciúmes, nem amor, porque sei que o que sinto, não é o mesmo que o que você sente. Mas eu sei que, se estivesse comigo, eu te daria um mundo de bons motivos para permanecer ao meu lado, independente do que venhamos a ser.
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…, 17 de setembro de ….
Do diário da Ella.
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Pessoas quebradas

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Com triste pesar, ainda recolhendo os pequenos e delicados estilhaços de algo que um dia ela pôde chamar de coração – agora só um punhado de peças perdidas e espalhadas por aí, provavelmente atrapalhando o caminhar descalço daquele alguém, por essas estreitas ruas que ela costumava usar para caminhar. A moça de sorriso fácil fechou-se dentro de si. Agora que está partida, quebrada tem medo de que as partes que lhe restam acabem partindo também. A solução foi permanecer onde está, quietinha, sem levantar suspeitas, para não dar chance que aconteça de novo. O quê? Você não soube? Ela está colando caquinho por caquinho, mas você sabe, leva tempo – oh, se leva – são tantos e ela já notou que alguns não encaixaram como deveriam. Sei que restou-lhe alguns vazios e um coração remendado, frágil a ponto de partir com um lágrima, então, por favor, a compreenda, se ela não vê mais a luz do dia ou não coloca o pé fora de casa, entenda, é só a insegurança dela a impedindo de tentar outra vez. Permita que ela seja precavida, mas faça o possível para mostrar a ela que as coisas podem ser diferentes. Nós sabemos, não é sua responsabilidade, mas não custa dar um empurrãozinho. Acredito que você saiba, pessoas quebradas ainda podem sentir e além disso, ainda são capazes de surpreender.
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Geborgenheit

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Depois de vinte dias enfrentando tantas coisas juntas não é de se espantar que meu coração tenha ficado contigo. Nos conhecemos desde que nasci, e se não fosse você eu provavelmente não estaria aqui. Graças a você e o Opa, eu tenho um dos meus mais preciosos presentes, então, tudo o que fiz nesses dias é apenas uma pequeníssima demonstração de gratidão diante de tudo o que você já fez por nós. Obrigada! Sei que quando era pequena não tivemos tantas oportunidades de ficarmos juntas. Mamãe não gosta de dar trabalho para os avós, então só te visitávamos quando ela podia ir junto a fim de não te dar trabalho. Mas isso nunca evitou que você não se preocupasse, afinal, você sempre se preocupou com tanta coisa, coisas que às vezes nem importavam tanto assim pra gente, como o fato de ter uma montanha de comida e o almoço ser servido sempre no mesmo horário, ou até mesmo sobremesa, os famosos pavê de bolacha e o rocambole de chocolate. Claro que eu nunca rejeitaria essas coisas, mas eu te visito não por esses detalhes, mas por você. Oma, você bem sabe que se existirem cobertas suficientes para dormir no chão nós dormiremos assim, sem problemas, não nos importaremos se o almoço do dia for o mesmo a semana toda, ou que não tenhamos sobremesa. Essas coisas não são de fato importantes, o que importa são as pessoas. E eu me importo tanto com você e agradeço de mais a oportunidade de ter te conhecido melhor depois de crescida. A minha visão de você é tão mais amadurecida. Não sei se consigo explicar isso, mas não ter você como a Oma que paparica e mima me fez te ver mais como uma amiga mais velha que sabe a hora de dar bronca, de conversar, de ser confidente. Bom, tirando quando eu te contei que gostava de um menino da minha turma na quarta série, e o pai e a mãe ficaram pegando no meu pé por muito tempo [risos]. Mas isso tudo só me foi possível porque eu te tenho assim, como alguém importante demais, como uma amiga, como uma Oma que muito me ensina. Então, não se espante se de repente dois corações estiverem batendo aí contigo. Eu deixei o meu com você pra te dar força pra lutar e vencer mais esse desafio na sua vida. Ich liebe dich.

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Déjà vu

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Talvez a vida seja um eterno Déjà vu, um eterno “já vi, já vivi, já sonhei, já presenciei”. Talvez seja um sinal para que possamos aprender sempre com o que já aconteceu. Um alarme natural da vida pra dizer que temos que escolher o outro caminho ou que devemos olhar para trás e ver o que fizemos de errado e consertar agora que estamos cientes do que já passamos. Talvez o Déjà vu seja um eterno: “acorde, você já sabe o que fazer, um erro pode te mostrar o acerto e agora você pode seguir pelo caminho certo”.
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