Eu me lembro

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Eu me lembro da primeira vez que te vi. Não sei se nos vimos, não me recordo do seu olhar no meu, mas me lembro bem. Te vi. Bem te vi ali no cantinho esquerdo da entrada principal do prédio onde trabalhava. Seus cabelos castanhos estavam encharcados e a chuva parecia castigar os passantes. Você, por acaso ou brincadeira do destino, foi um dos afetados. E é por isso que estava ali, parado, procurando um abrigo da chuva intensa que caía lá fora. A chuva também me afetou. Não da mesma forma, eu continuava seca, mas já não era a mesma.

Dei-me conta disso no exato momento que me percebi também parada. Eu, que tantas vezes saía do prédio com a rapidez de uma maratonista, naquele dia me vi mais como uma espectadora concentrada em não perder detalhes. Distraída por alguns minutos, ignorei os colegas que saíam me desejando um bom final de semana. Sexta-feira e eu continuava ali, sem vontade de ir embora.

Queria dizer a eles que não foi por querer. Eu não os ignorava de fato, apenas não percebia nada ao redor além daquela figura ali parada conversando com o porteiro do prédio. Queria dizer-lhes que de súbito algo invadiu minha mente e que fui arrastada pela correnteza de pensamentos tal e qual uma folha que cai mansa no rio. Olhar você ali no canto despertou em mim sentimentos que há muito tinham sumido do meu vocabulário e principalmente do meu ser.

Não sei se posso dizer que isso tudo era amor à primeira vista. Como posso dizer que é amor se naquele momento não trocamos sequer uma palavra? Talvez fosse um mal súbito, uma atração fatal ou algo cósmico, quem sabe!

Desculpe, não quero e nem devo rotular nada.

Naquela noite na qual conversamos pela primeira vez combinamos de que a história dos cosmos querendo que nos conhecêssemos seria a história do nosso primeiro encontro real. O que éramos um para o outro e o que significou aquela primeira troca de olhares não era mais do que uma artimanha do universo para nos ver frente a frente. Se era pra ser amor, amizade, paixão ou qualquer outra coisa não importava mais, nunca importou. A única coisa que contava era que poderíamos ficar ali a vida toda, lembrando de momentos como esse e nos olhando nos olhos sem qualquer pressa.

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na minha estante: A menina do capuz vermelho e outras histórias de dar medo

Capa Contos

Contos de fadas são para crianças, certo? Bom, para os dias de hoje é bem provável que isso esteja correto, mas para alguns séculos atrás, contos de fadas eram histórias de entretenimento adulto. Em “A menina do capuz vermelho e outras histórias de dar medo”, da Editora Penguin Companhia, a jornalista Angela Carter produziu uma compilação com diversos contos de fadas originais de regiões diferentes, desde a Rússia até a Inglaterra ou algum lugar que já nem existe mais.

Neste livro a autora traz contos, a princípio, conhecidos de nossa infância, como Nourie Hadig, hoje conhecida como Branca de Neve, ou Casaco de Musgo, a nossa Cinderela. Todas essas histórias eram contadas e passadas de geração em geração por meio da contação. Este era o entretenimento dos pobres, os contos de fadas, com um conteúdo bastante adulto, pesado, às vezes com conotações sexuais e violentas, os contos transmitiam lições disfarçadas entre as metáforas. Com o passar do tempo, os contos foram vendidos à burguesia, e para serem aceitos por eles precisaram de algumas adaptações. Adaptações que ocorrem até os dias de hoje. Quantas não são as histórias que ouvimos contadas de formas diferentes?

E essa é a grande questão dos contos de fadas, as inúmeras possibilidades de serem contadas. Neste livro, de início, me assustei, mas algumas histórias até que fazem muito sentido, outras são engraçadas e outras ainda muito inteligentes. O conto de que mais gostei foi o russo A menina inteligente, outros também muito interessante são os ingleses Catarina Quebra-Nozes e A mulher que vivia dentro de uma garrafa de vinagre. Essa é uma leitura que não recomendo às crianças, mas aos adultos curiosos que quiserem saber um pouco mais do universo dos contos, aqui está uma boa leitura.

Autora: Angela Carter
Tradução: Luciano Vieira Machado
Editora: Penguin / Companhia das Letras
Páginas: 144
Ano: 2011

a moça de flor no cabelo

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ela era uma menina engraçada
tinha flores brancas no cabelo, nada feito noiva,
mas como se dissesse aos outros quem ela era,
do tipo romântica, que acredita em finais felizes,
sejam eles reais ou não.

olhos fundos e azuis feito oceano,
do tipo que faz você querer mergulhar
e não se importar se vai conseguir chegar à tona a tempo de respirar.
mesmo sem o mergulho seu olhar já era de perder a respiração.

mãos delicadas dedilhavam um piano velho,
desses de bazar de garagem,
e a voz, puxa, a voz
a mais linda que já tinha ouvido.

a moça de flor no cabelo,
oceano nos olhos e
mãos macias
fitava-me sorrindo
e eu,
bobo,
não sorri de volta.

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Conto minado

Ela havia sido criada para ser uma princesa, dessas que atuam representando o reino. Presa em um castelo imenso, abarrotado de móveis nunca utilizados, lareiras que disfarçam a cara fria e sombria dos cômodos, criados por todos os lados e incontáveis ambientes para se perder, a nossa princesa, de olhar jovem e curioso, buscava frestas por entre as pedras frias e mudas daquele lugar gótico. Queria ver o que existia além das muralhas e dos bosques construídos para impedi-la de ver além do permitido.

Apesar da rígida criação, nossa heroína lutava bravamente para enxergar além do que lhe era entregue mastigado. Ela sentia que nascera para ser grande, mas talvez não para o que eles acreditavam ser o melhor, nem para casar-se com algum príncipe almofadinha, nem para cuidar de nenhum palácio.

No seu aniversário de 16 translações solares, a jovem foi convidada a conhecer o vilarejo próximo ao castelo, a fim de fazer sua primeira aparição pública e conquistar a simpatia dos súditos. Ela sabia o motivo de tanta preparação – ao conquistar os camponeses do vilarejo, nossa princesa estaria a um passo apenas da próxima tarefa: o casamento para selar a paz.

Por noites incontáveis, a jovem se perguntou como a paz poderia ser mantida por algo tão frágil quanto o matrimônio. Como ela, sendo tão nova e tão imatura seria capaz de entrar de cabeça em um relacionamento que não foi escolhido por ela. De onde viria o amor, o respeito e o cuidado para com o próximo? Obrigações morais e familiares não seriam suficientes para manter esse acordo.

Ao dirigir-se ao lugarejo, pensou em mil e uma maneiras de fugir de tal compromisso. Metade das fugas terminariam com ela sendo pega pelo guarda do rei, um quarto com ela morrendo de fome na floresta e a outra parte ela nem cogitou imaginar. Pensou, inclusive, em pedir ajuda aos camponeses, no entanto, a probabilidade era a de acharem que ela estava sendo mimada e egoísta.

Quem aceitaria que uma princesa, tendo tudo (ou quase) ao alcance das mãos, estaria insatisfeita com a vida de luxo, conforto e riqueza? Quem poderia enxergar tristeza nos olhos de menina sonhadora.

Perdida em tantos pensamentos, mal viu que já estava na praça da cidade.O chefe da cavalaria abriu a porta da carruagem e ofereceu a mão para que ela descesse e viesse ao encontro dos súditos para cumprimentá-los.

Sorrindo eles sorriram, acenando eles acenaram, reverenciando eles reverenciaram. Que loucura. Como eles poderiam se submeter de tal forma à alguém que acabavam de conhecer? Qual a garantia de que seria, de fato, a princesa? Será que era por conta da presença da guarda e da carruagem? O que aconteceria a eles caso não respondessem positivamente às suas ações?

Em meio a tantos pensamentos, Valentina entrou em pânico. Ela pode ter sido criada e educada para exercer funções e sorrisos, para obedecer e ser servida, assim como para casar com quem quisessem que ela se casasse, mas isso nunca a faria feliz, nunca.

Em choque, solicitou um lugar para sentar-se. Os guardas a conduziram a uma pequena casa de tijolos a vista e jardim bonito e bem cuidado. As janelas de molduras verdes escuras contrastavam com as flores no peitoril. Uma senhora de uns 90 anos estava sentada em uma cadeira velha de balanço, quando a princesa e parte dos soldados que a acompanhavam entraram de súbito na residência.

– Perdoe-me senhora! Precisamos de sua casa para a princesa. Ela está indisposta por conta da viagem e estamos solicitando a sua moradia para o seu devido repouso. – disse o chefe da guarda.

Valentina, que encontrava-se mesmo indisposta, ficou estupefata com tal atitude e justificativa dada por aquele homem. Em nenhum momento ela mencionara o motivo de seu mal estar. Sentiu-se ainda pior pelo modo com que dominaram a moradia daquela senhora. Ela jamais quis causar desconforto a alguém. Aquilo a incomodava mais do que a indisposição.

– Desculpe-me, senhora! Não quero causar nenhum incômodo, a guarda só veio me deixar sentar um pouco e já está de saída, não é mesmo, sr. Chefe da Guarda?!

Com um olhar de desaprovação o homem alto e robusto, conhecido como Nikola, deixou a casa a contragosto e dirigiu-se à praça central.

– Estaremos à espera de Vossa Alteza no lado de fora.

Com doçura, Valentina aproximou-se da senhorinha daquele lar invadido, buscou suas mãos e, tendo as trazido junto ao peito, pediu inúmeras vezes perdão.

– Não se preocupe, princesa, está tudo bem – disse a mulher de cabelos brancos como a neve.
– Não, não está. Com que direito eu invado o seu lar e o domino com a presença fantasmagórica dessas sombras que me perseguem? Com que direito eu tomo um lugar que é seu por direito e tiro a sua paz? – chorou copiosamente, caindo de joelhos em frente à senhora.
– Vossa Alteza é dona de todo o reino, como eu poderia negar o seu ingresso ao seu próprio lar?

Tomando consciência daquelas palavras tristes, mas tão docemente pronunciadas, Valentina sentiu-se ainda pior. Ela já tinha tanto. Um lar no castelo, com um quarto que deveria ser do tamanho daquela casa, por que ela precisaria de todo o resto?

Segundo o rei e a rainha, tendo as coisas em seu poder eles teriam o controle sobre as ações da população e a vida, assim, poderia seguir em paz. Mas que paz era essa que só valia para os grandes? Que paz pode ser verdadeiramente paz quando o próximo não tem seu próprio espaço?

A senhora parecia ler ser seus pensamentos, pois logo num olhar carinhoso disse à menina:

– A culpa não é sua, minha querida princesa! O mundo é que tem andado torto. Às vezes a vida coloca um peso sobre as nossas costas, mas não somos obrigados a suportá-lo. Lembre-se, sempre existem outras opções, cabe a você escolher.
– Existe mesmo? Por que eu não as enxergo?
– Porque você não quer ver. Está cega.
– Cega? Como cega? Estou te vendo agora.
– A cegueira não é só dos olhos, mas também da alma.

Confusa, a princesa tentava processar aquelas novas informações, a fim de entender o que a senhora quis dizer com tudo aquilo. Pra quem viveu sempre uma semi-vida, era difícil processar coisas que não lhe eram entregues de forma resumida. Tudo era tão processado e entregue à ela mastigado que ela nunca precisou se preocupar em questionar nada. Menos de um dia e a vida já se mostrava tão diferente.

– Desculpe, Vossa Alteza, não quis ser indolente, muito menos intrometida. Só pensei que você quisesse uma outra visão das coisas.

Que visão? Ela ainda não compreendia o que ela havia tentado dizer com aquilo que mencionou sobre “cegueira da alma”. Como ela poderia voltar a enxergar? Isso seria possível?

– Senhora, como posso voltar a ver?
– Minha querida, o primeiro passo você já deu e agora é só continuar caminhando.
– Mas para onde?
– Se continuar perguntando continuará nesse estado. Para onde você quer ir?

Era a primeira vez que alguém perguntava de forma tão sincera o que e para onde ela gostaria de ir. Tão inédito que ela não soube o que responder. A vida toda havia alguém ao seu lado orientando o que ela deveria fazer que agora ela não sabia o que queria. A única coisa que conseguiu fazer aquela hora foi pedir que a guarda esperasse do lado de fora. Mas e aí? Qual seria o próximo passo?

– Eu quero descobrir quem eu sou.

A senhora sorriu e sentiu que não precisava dizer mais nada. Valentina esta a caminho de ter uma visão ampliada da estrada que sempre esteve a sua frente, só esperando o próximo passo. Um novo jeito de caminhar mostrava-se para aqueles olhinhos brilhantes e cheios de vida. O que estaria ao seu alcance ela nem imaginava, mas isso não era importante também. O objetivo era descobrir o que havia de verdadeiro dentro de si, qual era a sua verdadeira essência. Será que ainda haviam partes intocadas dentro de si? Ela deveria expulsar tudo o que, durante anos, as pessoas disseram que era verdadeiro? Ela saberia separar o falso do verdadeiro? Não sabemos. Só sabemos que ela deu o primeiro passo e está buscando por ela.
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Desafio VI – Reescrever uma história

O Belo e a Fera

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Era uma vez um belo rapaz que gostava de música erudita e passava boa parte das horas do seu dia com o nariz enfiado no meio dos livros. Todos o consideravam belo, mas muito esquisito. As mulheres caíam aos seus pés e desejavam desesperadamente que ele desse atenção a elas. Mas ele era bastante desligado e tímido, jamais reparara em alguma moça na cidade – a sua paixão eram os livros. Um dia, quando estava distraído, caminhando de volta para casa, o belo rapaz perdeu-se na floresta e encontrou uma linda casa, dessas de campo. 
Começou a chover. 
Num impulso para proteger seus livros, correu em direção a casa e por ali permaneceu por uns bons minutos, até que percebeu a porta aberta. Entrou. Encontrou um mundo maravilhoso dentro daquela singela casa de madeira, enterrada no coração da floresta. À primeira vista uma aconchegante sala de estar, a lareira acesa, com o fogo queimando brando. Ao lado uma linda sala de jantar com a mesa posta para apenas uma pessoa. Sentiu-se um pouco incomodado, mas continuou seguindo pela casa, agora perguntando se alguém estava por ali. Ninguém respondeu. Mais a frente parou diante de uma linda escada. Ela parecia um imenso armário, cheio de gavetas de vários tamanhos, algumas até com fechaduras. Não ousou tocar nelas, respeitou ao menos aqueles detalhes reservados, entretanto começou a subir os degraus. 
Prêmio pela ousadia: um andar inesquecível para qualquer leitor, um andar de muitíssimos livros e excelentes cantos para leitura. Pensou que havia encontrado o céu, mal sabia que estava na toca de uma fera. Ela chegou com um copo de vinho nas mãos e uma máscara cobrindo a face, o único detalhe de seu rosto que era perceptível eram os lábios, belos e pintados com um forte batom vermelho. Ele levou um susto. E ela ficou uma fera. Bradou a todos os cantos que ele não deveria estar ali e que deveria sair imediatamente, pois caso não o fizesse ela tomaria as medidas necessárias. Ele continuava assustado, mas não conseguia movimentar os pés e seus olhos estavam hipnotizados por aquela imagem diante de si. Era como se ela tivesse acabado de sair de um livro – o que mais ele poderia querer? -, ficou ali, desafiando-a. Ela voltou a ameaçá-lo, pensou em chamar a polícia, mas estava curiosa demais para saber mais sobre aquele visitante – o primeiro em anos. A fim de atender as duas necessidades restou-lhe apenas amarrá-lo em uma das cadeiras da sala e fazê-lo falar. 
Aos poucos, os dois, apesar de inseguros e assustados foram mantendo a curiosidade como carro chefe, descobriram anseios, medos, sonhos e pessoas que marcaram suas vidas, descobriram o que os fizeram seguir pelo caminho que seguem e cogitaram inúmeras respostas às suas perguntas existenciais. Em algum momento, o belo e a fera eram apenas duas pessoas compartilhando pedacinhos de suas almas. 
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Esse desafio, para variar, é do Marcel Danilo e a ideia era reescrever uma história clássica com exageros e coisa e tal, espero que eu tenha atendido a expectativa.

Chove

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E se não chove, eu faço chover só pra te ver ficar desesperada, abrir o guarda-chuva irritada, dizendo que vai estragar o penteado e assim estaremos mais uma hora atrasados. Eu não me importo. Vou te olhar sorrindo, e você vai ficar com aquela cara de quem quer rir mas acha que não é o momento. Eu não me importo, contanto que possamos ficar mais uma hora juntos, só nós dois. Eu faço chover de novo, se for preciso.

Elle

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