Nota

Hallelujah

womanalone

Já faz cinco meses que jantara. Há algum tempo, na curva fechada dos lábios perdera além da fome, a direção. O que era forte e belo, agora dissipava-se diante da insensatez e do medo. Ao fundo os pequenos ouvidos apreciavam os acordes melancólicos daquela conhecida oração. Na violência da escuridão, as primeiras e translúcidas mensagens transbordavam em sintonia, enquanto o pulso buscava o ritmo. Lembrei de você! Luzes e vozes ecoaram, mas não abafaram as notas que persistiam em manter o ritmo em mim, evitando que a vida entrasse em uníssono e silêncio. Invisível, você encontrava formas de se fazer presente: as notas agudas reverberavam e em graves toques embalavam meu corpo. Acalmada, sinto agora uma brisa delicada, um suspiro quente e algo deslizando superficialmente sobre a pele macia. As notas ganharam vida, transbordaram em sentimentos lúcidos e límpidos que agora entrego a ti, só cuidado para não se molhar.

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Nota

Cantiga de amigo

Passarinho, passarinho, cantes pra mim
e me diga onde estás tão verde brilho enfim,
por onde voas?

Passarinho, passarinho, cantes pra ele
e lhe diga onde estou enfim tão brilho verde
por onde voas?

Cante e bata as asas, vá para o rio
e me traga boas novas, faz me sorrir
por onde voas?

Me traga boas novas, faz me feliz
digas que estás perto, pronto a me ter
por onde voas?

Nota

Outrossim

Gosto quando o sol de fim de tarde irradia cândido no céu, encontra objetos inesperados pelo caminho e, sem pretensões, transforma-os em algo mais bonito. Parece que um pouco de luz consegue criar certo encantamento nas coisas. Ademais, observar o tempo passar por meio do movimento do sol é desligar-se um pouco do mundo, conectar-se à algo dentro de si, divagar e permitir-se ir além de onde se está. Deixar as coisas mudarem. Talvez observar o céu seja compreender um pouco as mudanças que ocorrem conosco. Em muitos momentos como esse me distraio e deixo passar os minutos, às vezes as horas, e nem noto que o sol já se pôs e que agora as estrelas ocupam o céu. E tudo isso é tão mágico. Não pelo momento, nem pelas cores fantásticas no céu, mas por tudo que me permiti pensar e viver nesses momentos. Isso já aconteceu com você?

rascunho de uma carta de Olívia para alguém
novembro de 2006

Cartas para um certo alguém

Alguém,

Como você está? Faz tempo que não te mando notícias. Às vezes o tempo parece brincar comigo, rouba-me os ponteiros do relógio e eu nem noto que já passou da meia-noite e que ainda  não sentei pra te escrever esta carta. 
Está escuro e silencioso. E pra completar o meu cenário favorito está um tempo agradável lá fora e eu estou de novo na estrada, desta vez em terras argentinas.
Buenos Aires é uma cidade fantástica. Dessas que nós nos apaixonamos pelas histórias que imaginamos encontrar por aqui. É tudo tão histórico e grandioso, faz com que a gente sinta vontade de passar um dia todo admirando pra ver se em algum momento algum detalhe nos salta aos olhos e então descobriremos algo impressionante (apesar de tudo aqui já ser impressionante sem histórias cotidianas para nos distrair). Entende o que quero dizer? São tantos cenários, é improvável que não haja centenas de histórias. Você consegue imaginar dezenas delas só pelo modo como as pessoas interagem com a cidade. Incrível.
Mesmo assim, no meio de tanta coisa linda como os Bosques de Palermo, com o belíssimo Rosedal, também encontramos sinais de abandono. Em cada esquina encontramos prédios históricos com fachadas abandonadas, diversas placas de aluga/vende pelos imóveis na cidade, pichações políticas (as quais aprendi a apreciar durante a estadia), vandalismo e muito, muito lixo nas ruas. O império de outrora está sofrendo uma baixa (e isto é uma das coisas que pode deixar qualquer um muito triste). É como olhar para um jardim abandonado, nós podemos enxergar diversas flores belas em meio ao mato que cresce grosseiramente, mas é preciso olhar com cuidado.
Será que você iria gostar desta cidade?
Apesar da crise há tantos lugares bonitos para conhecer e o melhor de tudo: dá pra se fazer muita coisa por aqui sem usar o carro. Faço quase tudo a pé. Em San Telmo, antigo bairro glamouroso de Buenos Aires, hoje um bairro boêmio, a segurança ao andar pelas calçadas durante a noite é invejável: um policial em cada esquina. Apreciar o tango na Plaza Dorrego é uma pedida certa e segura. Além disso, agora, no começo do ano, é bem provável que você consiga acompanhar os ensaios de algumas baterias de escola de samba. Pois é, parece que o carnaval não é forte apenas no Brasil, os argentinos também curtem o samba.
Se vier a cidade, não deixe de conhecer o metrô, histórico. E mais histórico ainda é a livraria El Ateneo, que fica na Avenida Santa Fe. O local é um antigo teatro transformado em livraria. São três andares de êxtase para os apaixonados por cultura e literatura. E se ainda assim não se sentir satisfeito existem diversos cafés, parques, museus e lugares incríveis para conhecer.

Com saudades,

Ella.
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Cartas a um certo alguém VII

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Já faz um tempo que saí da Grécia. Que país incrível, nem dá vontade de sair de lá. Mas como meu tempo é curto nessas viagens precisei seguir em frente, e cá estou: Itália. Outro país pelo qual me apaixonei. Você deveria estar aqui, vivia pegando no meu pé a respeito de comida e aqui é o país da boa mesa. Comi pizza que nem louca. Visitei museus, praças, monumentos. Fui a praia, montanhas, jardins. Depois te conto outras coisas desse lugar. Agora queria poder estar aí contigo e te dizer que estou preocupada. Acho que estou doente. É uma doença diferente, daquelas que não ficam tão a mostra, sabe? Acho que é por isso que tenho tanto medo de falar o nome dela. Dois anos atrás, quando tive aquela crise de choro e eu não sabia bem o por quê, recebi um diagnóstico, que me fez chorar muito. Um mês depois, soube que estava ‘curada’, então fiquei cética. Agora eu fico pensando, será que o diagnóstico estava certo? Tenho medo. E agora estou sozinha, com milhões de pensamentos, em um país tão incrível que fico até me sentindo culpada de estar assim. Quem sabe isso não me faça voltar mais cedo para casa. Talvez eu precise disso.Voltar. Recomeçar. 
Estou com saudades.
Ella.

Cartas a um certo alguém VI

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Em qualquer lugar, num dia qualquer de outubro, num ano de pouca importância.

É quase uma da manhã e eu deveria estar dormindo, mas o sono não chegou, a música não parou, então, escolhi ver a caneta deslizar pelas páginas brancas desse caderno velho. Está tudo escuro lá fora e a única luz aqui dentro vem do abajur velho sob a cabeceira. Fiquei pensando em mil coisas pra escrever, pra te contar, mas acho que não quero te contar nada em especial. Só quero escrever, faz tanto tempo desde a última vez que peguei uma caneta e um caderno com esse objetivo. Algo que antes era tão comum, agora parece novidade. Desculpe te encher com essas bobagens, mas sempre que eu me expresso através da escrita, as palavras simplesmente fluem com naturalidade. Você sabe o quanto eu gosto delas. Às vezes eu não as uso muito bem, mas eu me esforço e espero que você entenda como faz diferença ter um meio para exteriorizar tudo o que sentimos ou pensamos. Então, meu bem, aguente mais um pouco, as linhas estão quase acabando e eu só quero que você saiba que é muito bom saber que você entende tudo isso. Que você entende tudo aquilo que fica escondido nessas linhas, nessas tentativas de te dizer alguma coisa, alguma coisa que vá além dessas poucas palavras. Obrigada, meu amor. Obrigada.
Com carinho,
Ella.