Nota

Hallelujah

womanalone

Já faz cinco meses que jantara. Há algum tempo, na curva fechada dos lábios perdera além da fome, a direção. O que era forte e belo, agora dissipava-se diante da insensatez e do medo. Ao fundo os pequenos ouvidos apreciavam os acordes melancólicos daquela conhecida oração. Na violência da escuridão, as primeiras e translúcidas mensagens transbordavam em sintonia, enquanto o pulso buscava o ritmo. Lembrei de você! Luzes e vozes ecoaram, mas não abafaram as notas que persistiam em manter o ritmo em mim, evitando que a vida entrasse em uníssono e silêncio. Invisível, você encontrava formas de se fazer presente: as notas agudas reverberavam e em graves toques embalavam meu corpo. Acalmada, sinto agora uma brisa delicada, um suspiro quente e algo deslizando superficialmente sobre a pele macia. As notas ganharam vida, transbordaram em sentimentos lúcidos e límpidos que agora entrego a ti, só cuidado para não se molhar.

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Nota

Simbolista

5a053953b8b60ab0018b23153c5f6cc2Uma lágrima escorreu no canto dos olhos. O sal fazia arder o percurso entre os olhos e a boca após a agressão. Não soluçava. Não havia solução. Deixava as lágrimas escolherem o próprio destino, tão livres quanto um dia ela mesma fora. Agora só o medo da repetição.

Diante da cena, o passado que há tempos não reconhecia, contra o qual lutara bravamente para esquecer durante tantos meses, voltou a percorrer as esquinas escuras de sua mente escusa. Não se cansara de partir?

Na presença de tamanha angústia, tudo o que ele mais queria era transformar o toque das mãos no conforto que ela merecia; proporcionar no entrelaçar dos corpos o refúgio tão desejado. Naquele duro instante oferecia-lhe afagos, beijos, abraços intermináveis e o silêncio – o que ela mais precisava.

Ela sabia o quão difícil era para ele compreender tudo aquilo que se passava: ainda mais depois de tanta confusão e medo. Uma situação do passado, até então adormecido, que despertara como um gigante não só odioso, mas também desastrado que destrói inclusive seu próprio reinado.

Apesar de tudo isso, acima dos medos e angústias enfrentados, para ela o mundo ainda é um lugar bom.  Nele vive alguém com quem ela pode contar, ainda que existam inúmeras dificuldades e que os silêncios ecoem como gritos surdos.

Petrichor (n.)*

chuvarain

Sempre a mesma chuva, o mesmo som…

Encharcada, a varanda de madeira não convidava ninguém a se sentar; sequer para apreciar as intensas gotas que caíam a poucos metros da entrada: a menina de ondas no cabelo preferia espiar tudo através da brecha entre as cortinas. Embaçado pelo ar quente que saía por entre seus lábios aflitos, o vidro também castigado pelo tempo, possuía – apesar das duras penas – uma bela moldura colonial: o que proporcionava um charme todo especial àquele lugar.

Passava horas, por vezes dias sozinha naquele refúgio na mata. Ninguém a compreendia tão bem quanto ele, ainda que possuíssem recantos à primeira vista tão distintos: o dela, a casa de campo; o dele, as páginas de um bom livro.

De quando em quando ela perdia a noção do tempo ao observá-lo em seu habitat natural, sentia-se privilegiada por estar diante de tamanha poesia. Ocasionalmente, ele deixava as histórias do Oriente de lado e voltava o corpo e a alma para admirá-la distraída e leve em dias chuvosos.

Àqueles que por alguma sorte ou acaso tinham a chance de os contemplar, diziam que no fundo os dois estavam em sintonia em um mesmo recanto: a única diferença eram as ações empreendidas no ambiente. Ao fim, quando o sol rompia a meio das nuvens, os dois deixavam seus redutos à parte e juntos se encontravam na mesma varanda encharcada, apreciando o cheiro da terra após o contato com outro elemento. No fim, tudo era uma questão de reações elementares.

* O cheiro da terra depois da chuva.
Nota

E eu sei…

até elas, 
as estrelas da Primavera 
que despontam, agora, no céu verde 
sabem 
e 
entendem 
o que sinto por ti
pois 
assim como eu
te observam
Meu Amor, 
talvez
a grande beleza,
criação da natureza
sejas tu!

 

Dos cotidianos imagináveis #6

Mikhaël Theimer

Mikhaël Theimer

Muitos foram e serão os momentos que os dois compartilharão com aquele adorável item: na sala, no quarto, às vezes até na cozinha; apesar de ele detestar vê-la carregando-o para cima e para baixo pelo apartamento, de forma especial no local onde comiam – mesmo quando os dias eram tão frios que a vontade era de nem sair da cama. Mas era inegável que os dois tinham um apreço diferente por aquela peça: mas não importa. Caso aquele cobertor pudesse falar, diria que amantes não são feitos apenas de noites de sexo ardente, de brigas bobas ou discussões acerca do futuro; diria que antes de tudo eles são feitos de sonhos.

Dos cotidianos imagináveis #5

Mikhaël Theimer

Mikhaël Theimer

Foi no meio de várias conversas superficiais, dos olhares focados no brilho dos aparelhos sem vida e nas disputas por curtidas e noites mal dormidas que notei, no canto do olho, uma luz intensa a emanar. Viva e cintilante, era algo diferente de tudo que já vi. Não se assemelha às lâmpadas frias a iluminar os centros comerciais ou os espaços residenciais, tampouco era chama de lampião, fogueira ou lareira, apesar de aquecer tanto quanto qualquer uma delas. A menina de olhos estrelados era uma forma de energia radiante e sua claridade não cegava quem estava ao redor; ao contrário, em sua humilde iluminação guiava como um farol os que a cercavam. Talvez por isso, como um marinheiro à deriva ou um solitário náufrago, eu a seguia: na esperança de encontrar terra firme.