Dos cotidianos imagináveis #7

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A vida foi tiquetaqueando e você nem notou que a cama mudou de lugar e nem o lençol é mais o mesmo. Aquele azul que você gosta deu espaço ao branco. Página pra criar. O roupão, peça indispensável das madrugadas frias, há tempos foi aquecer outro alguém. Você não notou que a cada lembrança que mudava de lugar ou de dono, ou até pro lixo, levava junto algo em mim. Você não notou quando as fotos pararam de sorrir e os tíquetes de cinema começaram a sumir. Já que você não notou, te digo: do que um dia fora um lar só restaram os cactos. Você não notou nem quando, ao andar em frente ao lugar que eu costumava morar, encontrou o seu restaurante favorito. Mas dessa vez, pelo menos, nem pediu pra levar… sentia-se em casa.

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Gaiola

Eu não sinto mais nada.
O gosto do café preto e amargo não incendeia mais minhas papilas gustativas.

Eu não tenho mais nada.
Mãos e pés não caminham calçadas frias nem tocam rostos turvos.

Eu não falo mais nada.
Da boca não verte sangue nem veneno.

Eu não sou mais nada.
Só um corpo inerte nesse laboratório escuro que é a vida.

Nota

Hallelujah

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Já faz cinco meses que jantara. Há algum tempo, na curva fechada dos lábios perdera além da fome, a direção. O que era forte e belo, agora dissipava-se diante da insensatez e do medo. Ao fundo os pequenos ouvidos apreciavam os acordes melancólicos daquela conhecida oração. Na violência da escuridão, as primeiras e translúcidas mensagens transbordavam em sintonia, enquanto o pulso buscava o ritmo. Lembrei de você! Luzes e vozes ecoaram, mas não abafaram as notas que persistiam em manter o ritmo em mim, evitando que a vida entrasse em uníssono e silêncio. Invisível, você encontrava formas de se fazer presente: as notas agudas reverberavam e em graves toques embalavam meu corpo. Acalmada, sinto agora uma brisa delicada, um suspiro quente e algo deslizando superficialmente sobre a pele macia. As notas ganharam vida, transbordaram em sentimentos lúcidos e límpidos que agora entrego a ti, só cuidado para não se molhar.

Nota

o(ração) criogênica

Com as ferramentas que possui, começa a esculpir o objeto disforme em si: estranho artefato pulsante preenchido por gélidas desesperanças de um horizonte azul. Mal nasce, já morre. Perde logo no primeiro sopro as unhas antes só roídas; o líquido carmin  escorre profanando o relógio de areia; bolhas saltam em uma manifestação de emoções violentas. A língua fervente afoga o grito que nasce nas entranhas. Mudos os olhos fitam a parede calfinada. A imponente torre de outrora – tronco firme da espinha – rui às suas costas; segue alicerçando o velho castelo de cartas. Corcunda e desajeitado nota pela primeira vez: ter pés.

Fluxo de consciência

Jatobá (Hymaenea courbaril).

Jatobá (Hymaenea courbaril).

Um pequeno animal, desses que cabem facilmente na palma da mão, corre enquanto é engolido por uma imensa e escura floresta. É um inédito e assustador lugar. Perdido. Olha ao redor e nada parece nem perto de ser familiar. Todo o conhecimento de mundo que possui, limitado à gaiola com sua roda de exercício e o pote de alimentação, precisa ser reconstruído. No ambiente hostil, não só a linguagem é novidade, mas também os talhes, os sons e os cheiros: monstruosamente colossais. Ao redor tudo assusta e não existe uma toca na qual possa se esconder. Potencializando a angústia e o medo, o pequeno animal sabe não possuir garras e nem força para se defender ou para construir um abrigo para si. À medida que o tempo passa e a caminhada o leva a diversos setores do ambiente, outros animais parecem observa-lo; não aparentam agressividade, mas o amedrontam na escuridão e vastidão daquele espaço adverso. Dentes afiados; garras recentemente lixadas; olhos parecem devorar tanto quanto a bocarra. Paralisa.

Nota

Desenrolo

A briga
Embriaga

Em briga
Obriga

Abriga
Obrigada