Sozinho

d9e1d1aacdc18992f8c23973f00ed713A cada novo passo que eu dava, mais profundamente me embrenhava naquele espaço escuro, úmido e silencioso. A respiração pesada alcançava as paredes e reverberava em mim como um trovão: aumentando ainda mais a sensação de solidão e angústia.

– Olá! – disse na esperança de ser respondido.
– Olá!
– Quem está aí?
– Quem está aí?

Pensei: “será que isso é uma brincadeira de mau gosto? Isso só pode ser uma piada sem graça.” Então, a princípio, decidi não responder àquela provocação. Deixaria quem estivesse a brincar com o meu medo sentir um pouco o que é estar sozinho no mundo. No entanto, rapidamente lembrei que essa era uma das piores sensações, do tipo que faz seu coração se sentir tão apertado como se estivesse encolhido de tamanho. Não pude evitar sentir empatia por aquele ser que se escondia nas trevas.

– Não sei quem é você e agora noto que também não sei quem sou. Sinto que estou onde deveria estar, só não sei dizer por quê. Talvez eu esteja em busca dessa resposta e isso me trouxe até aqui. Isso faz algum sentido pra você? O que tem a dizer sobre isso?

O silêncio se fez presente. As palavras ecoaram dentro dele, ressoando de forma única: uma bela ópera a ser apresentada em um grande teatro italiano. No fundo, nas profundezas daquilo que ele não sabia descrever, talvez o que ele precisava era fazer ecoar ainda mais alto as palavras: para que penetrassem a pele até alcançarem o coração.

Desafio feito por L. R. Andreatta
Inspirado no poema Sozinho

Anúncios
Nota

Mar-íntima

eb6be9737cb5e4573c930c651101de92Ela tinha olhos tão profundos quanto os oceanos e uma química com o mar de invejar qualquer marinheiro experiente. Às vezes, submersa em densos pensamentos, esquecia que não estava sozinha a navegar em mares turbulentos: olhava para a linha do horizonte, os olhos marejavam e sorrisos leves apontavam em seus lábios rosa.

Ele, atento como sempre, cauteloso em relação aos perigos do mar agitado, a observava de uma distância segura. Cada vez que a via franzir o cenho, o coração apertava e sentia falta de ar, como quem há muito mergulha sem conseguir emergir.

“Teus olhos são águas profundas, Menina”.

Voltando a face em direção àqueles olhos de enseada, sorriu de maneira doce, saindo do transe em que se encontrava. Ele tinha essa habilidade única de provocar-lhe calmarias, de fazê-la sorrir, de fazê-la sentir-se única no mundo.

Por essas e outras razões, ela também queria fazê-lo sentir-se único no mundo, dessa forma, compartilhava seus momentos mais íntimos com ele: o silêncio restaurador, a brisa do mar que acalenta e um barco balançando levemente para embalar os sonhos dos apaixonados. No seu mais profundo, ela queria encontrar as palavras certas para agradecê-lo por tudo o que tem feito.

Recôndito

9146fbf7110115e2ffb61695dbb14528Nesse tempo que temos nos conhecido acredito que você nunca me viu num dia ruim. É bem provável que isso tenha acontecido porque, primeiro, sinto-me muito bem quando estamos juntos, não há motivos para me abater ou para afastar o sorriso da face; segundo, tenho uma tendência a manter certas emoções em um sacrário: a melancolia é uma dessas. Perdoe-me, não é por mal, não é por que não confio em você, nada disso, simplesmente acontece; como disse, é uma tendência, e existem algumas bem difíceis de mudar. Além disso, não gosto de sentir que estou trazendo cargas desnecessárias às pessoas. É o tipo de sensação que faz com que eu sinta o peso da responsabilidade somar-se ao estado sorumbático. Quero tanto que os outros sejam felizes que não permito, por nenhuma razão, lançar sobre eles qualquer sentimento negativo. E isso cabe também pra ti. Não quero que o teu riso fácil saia do seu rosto. Em determinadas situações, para evitar teu olhar que tudo percebe, me escondi às suas costas para que não notasse o olhar cabisbaixo e perdido, assim como os olhos que começavam a marejar com vontade de desabar no teu peito. Perdoe-me. Um dia eu encontro a chave que mantém tudo isso engavetado aqui dentro e apresento pra ti.

notas esquecidas

Motor imóvel

a99ff4c03e80cd6c3d326f99a32b48f8

Era madrugada, a rua estava silenciosa e a noite era fria e chuvosa. Os poucos corajosos a caminhar falavam baixo, respeitavam os sonos dos ajuizados, algo bastante atípico para aquela região. Bernardo era um deles; o andar cabisbaixo denunciava as muitas horas a que tinha se dedicado naquele dia. Cansado, deixou a mente viajar e então parou. Em uma escura encruzilhada no centro da cidade o menino de sorriso doce se questionava a cada instante “o que me faz dar cada um desses passos em direção ao meu destino final?” O tardar da hora não o assustava, na verdade, ele já nem o reconhecia mais. A pergunta o corroía. “O que me move?” Não sabia responder. Naquele exato minuto, sua única motivação era chegar até em casa, tomar banho e largar-se na cama. Triste diante de tal constatação, fechou os olhos e a viu. Inconscientemente, o sorriso tímido dela saltou diante dele e então suas memórias começaram a provocá-lo: o perfume da pele dela ao sair do banho, as risadas doces dos momentos a dois, o toque macio da mão dela deslizando pela nuca e os olhos tipo oceano, daqueles que todos querem arriscar mergulhar. Em um ímpeto de bravura e determinação, Bernardo voltou a caminhar, não mais em  direção ao lar frio e escuro, mas à fonte de seus movimentos.

Desafio proposto por L. R. Andreatta 

Quando vem

3a45b7c6ada4dc201caeb7fa3f035609

Você tem um jeito tão doce de dormir quando está feliz: de bruços, as costas nuas, o rosto virado para o lado esquerdo da cama e o ombro esquerdo encostando gentilmente no queixo, as pernas dobradas de maneira peculiar. Te olho e te vejo pronta a entregar-se completamente ao sono.

Gosto de te observar dormir. Acho que já deu pra notar. O modo como você respira e parece sorrir mesmo sabendo que sou eu quem está ao seu lado. Nunca entendi porque você me permitiu entrar na sua vida. Às vezes penso que você sonha sonhos impossíveis e só por isso ri, porque eles são só teus.

Sorrio ao te ver tão serena, tão feliz. Sentado na poltrona próximo à cama, fecho os olhos e escuto um sussurro doce vindo de um lugar mágico: “é porque te amo”.  Impossível não me envolver ainda mais.

notas de Bernardo

Calejada

Via: Pinterest

Via: Pinterest

Era uma noite chuvosa, como inúmeras das noites que passamos nesta cidade cinza, quando ouvi seus delicados passos se dirigirem em direção à sala. O dia tinha sido bastante conturbado, tantos altos e baixos, algo bastante exaustivo, mas imagino que a insônia tenha resolvido te fazer companhia de novo.

Suas noites insones são como uma batalha para mim, na mesma intensidade com a qual elas me incomodam, não posso evitar observá-la de um jeito diferente. Já disse que você tem um jeito doce para lidar com a insônia? É algo ainda mais especial em dias chuvosos. Acredito que você nem tenha reparado nos seus rituais para essas situações, mas, para mim, são algo que a tornam ainda mais única.

A sua primeira atitude é deixar a cama da forma mais delicada possível. Você usa seus talentos e habilidades como bailarina de maneira impecável. Nas pontas dos pés você caminha silenciosamente até a sala e me deixa aqui, sozinho, imaginando que não notei seus movimentos. Obrigado por se preocupar comigo!

Deitado na cama, ouço atentamente cada passo no cômodo ao lado. Imagino não só os movimentos dos pés no assoalho, mas também cada curva de seu corpo movimentando-se com o cuidado de uma mãe ao checar seu filho a noite.  Suas mãos finas e macias próximas ao corpo para não tocar em nada e não fazer barulho. Por vezes a imagino de olhos fechados dançando a última música que ensaiou no balé.

Pena que você não pode se ver como eu a vejo. Cada pequeno movimento, cada curvatura, cada detalhe é pura poesia. Mas confesso que suas noites insones me incomodam. Não por que você não se deita ao meu lado e me deixa só por alguns instantes. Não porque você fica a vagar pelo apartamento. E sim porque em nenhum momento você pensa em compartilhar o que sente comigo. Hei, eu estou aqui! Então, por favor, não me deixe dormir enquanto os seus pensamentos podem implodir o Empire State!

das memórias de Bernardo