Represar

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Existe uma represa em mim. As paredes de concreto são sólidas, firmes, não há nada que as impeça de fazer o que precisa ser feito: manter o que está dentro, dentro. Represo. Nada sai. A conta gotas, o pouco espaço que resta parece insuficiente para armazenar tudo o que a vida quer propor. Represo. As gotas – agora oceanos em si mesmas – derramam-se em mim e nada que eu possa fazer as manterá longe da tensão superficial a que são impostas. Eu mesma me imponho tantas coisas diariamente. Como julgar a água, tão pura e, talvez por isso, tão represada? Represo. A sala iluminada e aquecida pelo sol, agora parece escura e fria. Preso na garganta o grito represado por segundos. Segundos de inconstância, de medo, insegurança. Um intervalo tão breve quanto o último suspiro em seu ouvido. Talvez você não saiba – ou não queira mais – ouvir todo o aguaceiro que se forma nesse espaço também conhecido como caixa toráxica. Talvez, quando as comportas forem abertas, ou, quem sabe, quando os muros não suportarem mais e romperem com um estrondo excruciante, você escute cada milímetro de água a escapar de minhas ranhuras expostas, de minhas feridas doloridas, de minhas vistas esgotadas. Tarde demais. Melhor fechar os olhos e esperar o novo dia.

Das notas de Adèle

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Nota

Inferno astral

O relógio desperta alguém terrivelmente esgotado: este, por sua vez, já bastante condicionado, acorda, coloca os dois pés firmes no chão e – sentado – leva as mãos ao rosto e se pergunta qual a razão para tanto esforço. O cômodo vazio não o responde. O sol ainda não alcançou o recôndito espaço de pouquíssimos metros quadrados. A angústia o corrompe e sua vontade é desistir antes mesmo de dar o primeiro passo. Qual o próximo passo? Primeiro, voltar para a cama e aceitar que existem dias nos quais nada de produtivo acontece; segundo, levantar e fazer o possível para reverter o placar e quem sabe esquecer que momentos negativos acontecem para todos; terceiro, é necessário mesmo? Para agora, para as emoções que venho sentindo agora, talvez voltar para a cama seja a solução mais sensata.

do diário de Adèle

Only for you

9739c06e52784f5dfadf2585fd301491Houve um tempo em que cheguei mesmo a acreditar que o órgão a bombear sangue dentro de mim havia vindo com problema, só servia a um único propósito: manter-me viva. Por que digo isso? Porque os sentimentos que antes pudessem ter existido, hoje são meras lembranças de um passado que julgo nem ser meu, logo, o órgão não era responsável por borboletas no estômago, ansiedade, calor e excitação. Sua única função era circular.

Por várias e várias vezes fui questionada e categoricamente afirmei que meu coração era defeituoso: “não, não, é apenas cardíaco, nada mais, não sinto nada, eu juro”. Poucos acreditavam em minhas palavras secas e duras.

Mas então, na primavera, como um ineditismo em minha vida, o músculo preso na caixa toráxica floresceu, deu sinais de sua existência. Foi muito além da circulação. Eram sinais tão claros: a começar por senti-lo na boca. Em pânico, achei que ele estivesse tentando escapar de mim. Como um prisioneiro que se descobre vivo e desesperadamente procura a saída mais próxima.

Foram aqueles olhos misteriosos diante de mim, a me encarar quando olhei para o lado, que me convidaram a conhecê-los melhor. E, honestamente, como eu queria conhecê-los melhor. Tal qual a sereia que encanta os pescadores, teus olhos cantavam e me atraíam para mais perto de você, para a enseada. Eu queria te conhecer melhor, mergulhar profundamente em ti, sentir o ar escapar dos pulmões e escancarar meu coração pra você.

Melhor! Eu o entregaria numa bandeja de prata, com um poema doce ao lado, o néctar olimpiano e um pequeno narciso. Eu seria capaz te entregar o mundo. De alguma forma, o medo e a insegurança que senti um dia, agora eram poeira no tempo.

Meu bem, eu abriria meu coração pra você.

Apesar dos anos que lidei com as mentiras, com os jogos de sedução que só me levaram às estradas escuras e sombrias, à toda dor de cabeça que isso me provocou e ao pavor que senti durante anos. Os anos nublados, de vista cansada e coração fraco se foram. E tudo graças a você. Por favor, me deixe conhecê-lo melhor. Saiba que por você, e somente por você, eu abriria meu coração mais uma vez. E o abriria porque não sinto que estou apenas sendo mantida viva, mas sinto a vida brotar em cada espacinho dentro de mim, uma fonte pura. Por você!

das confissões de Adèle

Light

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Ele partiu antes do alvorecer, deixou o bilhete doce em cima da mesa e uma flor sobre a cama. Na nota um pedido para que não dormisse tarde, que me alimentasse corretamente e que lembrasse sempre de trancar bem a porta, apesar de nosso apartamento ficar no penúltimo andar. Fora uma despedida silenciosa e carinhosa como tantas outras: com passos de algodão ao sair pela porta.

No entanto, diferente das outras, algo em mim dizia que as coisas já não eram mais as mesmas. De imediato senti sua ausência e fui além de seus pedidos: quis ser o farol a guiá-lo de volta e coloquei uma vela próxima à janela. Mentalmente repetia como mantra: “enquanto você ver a luz, saiba que estou aqui”.  No fundo eu só queria que ele não deixasse de ter certeza que continuaria o iluminando, não importava onde ele fosse.

desafiada por L. R. Andreatta

Entrelace

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A mão percorria vagarosamente a nuca alva; os dedos se entrelaçavam nas ondas emaranhadas dos cabelos e encontravam o lugar certo no qual se fixar. Os olhares se cruzaram e os sorrisos se revelaram espontaneamente – como tudo o que ocorria entre eles. Cada gesto era um pedido velado: fica. Fiquei e a mão nunca deixou o posto: não por medo de que eu me fosse, mas porque se sentia confortável no local em que estava – o tipo de abrigo que protegia duas sensíveis almas, dessas que sofrem, mas que no fim acreditam que tudo, inclusive as tempestades, são um bom motivo para sorrir.

Decifra-me

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Conheço de cor tua fama de durona, que gosta de tornar público o famoso lema de “pode deixar que eu me viro”. Tola, nem ao menos percebe que aquele que te conhece descobre a verdade em apenas uma ligeira troca de olhares. A dor escondida atrás do sorriso, os olhos a desviar constantemente – preocupados com a possível chance de ser desmascarada – te denunciam a cada instante. Olhos esses incapazes de ocultar aquela centelha a indicar sentimentos divergentes. Você nunca foi muito boa em mentir, admita. De suas incontáveis habilidades, proferir como verdadeiro o que é falso não é algo pelo qual as pessoas se lembrem de você. A questão é que elas lembram de você e você esquece de si. Nada relacionado a amnésia ou qualquer coisa do tipo, é um tipo de esquecimento que coloca o outro em posição de destaque. E não me entenda mal, isso não é uma crítica, na verdade é muito bom não ser boa com mentiras, mas não é tão bom assim ser aquela a quem as pessoas recorrem para descarregar as energias negativas. Até quando você vai permitir que elas abusem de você?