Noturno

Eu o cobria
E ele ia lá e se descobria
Era um descobridor nato

Nota

País das maravilhas

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Tal qual Alice, rendeu-se ao gramado verde e às flores. Um dia lindo, de céu azul com poucas nuvens, deitada sobre as flores do jardim, entregou-se ao chão. Fechando os olhos passou a sonhar. Ia longe… viajava até as estrelas e voltava na cauda de um cometa, caindo feito chuva sobre a terra. Com os pés firmes no chão voltava o olhar para o céu e contava estrelas, nunca estava satisfeita. Um pé na terra o outro no céu. De tanto brincar entre as duas dimensões, nossa pequena Alice viu-se diante de um grande desafio, escolher apenas um lugar para estar. “Mas e como eu posso escolher entre coisas que eu gosto tanto?” Olhou pro chão, olhou pra cima… repetiu o movimento tantas vezes que chegou a ficar tonta. Era tudo tão encantador aos seus olhos de menina que ficou perdida. Talvez fosse melhor não escolher nenhum. Mas será? Com medo de ficar mesmo sem nada, nossa menina optou pela terra. Da terra ela poderia construir um castelo com uma torre bem alta e, todo dia, poderia sentir um pouquinho do céu novamente.
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devaneios de uma menina sonhadora

Passarinhando

Era comum sentir os pés deixando o chão e flutuar acima das coisas ruins e supérfluas que a incomodavam. Também era habitual se perder nesses vôos primaveris e esquecer-se de retornar à terra firme. 
Por vezes chegou a acreditar que era feita de penas e plumas e que fora feita para voar na imensidão do céu azul.
Em outras ocasiões acreditava no que aqueles que não possuem asas a diziam e pensava mesmo que tinha a cabeça fora do lugar. Talvez fosse feita de vento, carregada feito nuvem para longe, para encobrir certos defeitos de fabricação. 
Apesar de tudo, costumava acreditar na primeira proposição. Gostava e acreditava que era bom ser alguém feito passarinho, fora da gaiola, a buscar novos horizontes e novos ninhos.
Ser passarinho é a oportunidade de escolher para onde se quer voar e as paisagens que se quer visitar.
Ser passarinho é poder fazer o impossível com aquilo que se tem: duas asas, o vento sob elas e um imenso campo de visão cheio de novas possibilidades.
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Tem coisas que ninguém escolhe

Infelizmente não escolhemos por quem nos apaixonamos. De repente não paro de pensar em você, e a cada pensamento me pergunto como isso foi acontecer. Tudo isso me apavora. Você nem sabe que sofro em silêncio, imaginando como seria se estivéssemos juntos. Lembro-me, então, que você já é comprometido, mas mesmo assim eu não desisto de ser a responsável pelo seu sorriso, deve ser o melhor dos sentimentos. No fundo eu sei que é amor. Você me visita em meus sonhos e me põe a pensar e acreditar que eu não deveria te amar, mas nós não escolhemos quem amamos. Continuo sofrendo em silêncio. Não transpareço ciúmes, nem amor, porque sei que o que sinto, não é o mesmo que o que você sente. Mas eu sei que, se estivesse comigo, eu te daria um mundo de bons motivos para permanecer ao meu lado, independente do que venhamos a ser.
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…, 17 de setembro de ….
Do diário da Ella.
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De um ou de outro

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eu sei que de um jeito
ou de outro
continuarei vivendo,
mas
seria tão bom 
se fosse da melhor forma possível.
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Despertar

Ainda era cedo, o sol mal havia se posto e ela já estava sentada em frente à janela, em sua poltrona vermelha favorita. Pensava longe. Passava as pontas dos dedos sobre o livro novo, de páginas meio amareladas e aroma de livraria, aproximava-o do rosto e o percebia como se sentisse próximo de um amigo. Era um de seus momentos prediletos. Adorava sentir o cheiro e a textura de novos livros. Era como receber flores, mas sem o murchar do tempo, talvez apenas o envelhecimento das páginas e a mudança de perfume.
O céu já estava escuro e ela sentia-se extasiada, o clima estava perfeito, o que a deixava de muito bom humor. Começou então o ritual pré-leitura: aproximou o pufe da poltrona, buscou a manta roxa, macia, que trouxera da casa de seus pais, preparou o chocolate quente na caneca que ganhou do melhor amigo e ligou o MP3 na playlist de músicas para ouvir enquanto lê.
Ella olhou maravilhada o seu canto de leitura, organizado com todas as ferramentas necessárias para enfrentar as noites frias, e sentiu-se pronta para ligar o abajur e aconchegar-se novamente na poltrona. Olhou pela janela do apartamento mais uma vez, admirou a noite e as estrelas, agradeceu por mais um dia e começou a degustar aquele paraíso de palavras.
A cada parágrafo um deleite. Chegou a se imaginar como parte da história, alguém que estava ali, bem pertinho, observando tudo em silêncio, mas nem por isso menos importante. Quando lia, Ella era como uma menina mulher de Lispector, ninguém a tirava daquele êxtase.

Depois de algum tempo na poltrona, a inquietação a agitava, jamais permanecia na mesma posição, por vezes chegava a ficar de ponta cabeça, sem tirar, entretanto, os olhos daquele cenário. Era incrível ver como se transformava, como parecia fazer parte de um outro mundo. O mundo poderia cair lá fora, o sol poderia não voltar, e ela permaneceria ali, devotada à leitura. Entretanto, quando o dia não era bom, e tudo se assemelhava a um conto de terror, ela sustentava no máximo uma hora de leitura e adormecia sentada na poltrona.

Por volta das nove horas Henrique, o vizinho da frente, costumava visitá-la. Os dois aproveitavam o fim do dia para dividir angústias, alegrias ou simplesmente uma xícara de chocolate quente. Naquela noite, Rique, que sempre batia três vezes na porta e entrava, bateu três vezes e entrou, diante do apartamento/estúdio, que permitia uma visão ampla de todo o cômodo, olhou para a direita, perto da janela, e a viu ali, dormindo serena e desconfortavelmente com o livro na mão.

Delicadamente ele a pegou no colo, caminhou alguns passos com ela e deitou-a cuidadosamente na cama desfeita. Arrumou a cabeça no travesseiro e a cobriu. Nunca a viu tão linda. Deu um beijo em sua testa e sentou-se na mesma poltrona vermelha onde ela adormecera e ficou ali a noite toda observando-a dormir, seus movimentos agitados e às vezes serenos ao dormir, a movimentação das pernas, dos braços e os suspiros noturnos, como se sonhasse que estava flutuando em algum lugar longe dali. Rique permaneceu ali , feliz, cuidando dela, velando seu sono.
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