Nota

Reverso

sentei-pra-te-escrever

Sentei pra te escrever estas linhas não tortas, mas avessas e, travessa, senti aqui… bem aqui nessa caixa feita de batimentos e ar rarefeito, que eu atravessava não uma ponte… não uma rua… mas um turbilhão de sentimentos inversos aos que eu queria te contar.

Revoltei-me: de dentro pra fora, no contrário de mim, expus-me novamente a esse gesto tão traquina que é escrever.

Agora vai.

Encontrei essa folha amassada num canto da gaveta e pensei que talvez fosse uma boa ideia, uma hora boa pra colocar algumas coisas aqui, agora que o frenesim passou e o mar parece calmo novamente.

Hei, talvez você a receba na semana que vem. Claro, se o moço, aquele que passa de casa em casa fazendo as correspondências e ligando os pontos, não se esquecer de passar na tua rua e nem de apertar a tua campainha. Só espero que ele não saia correndo… assim como fiz tantas vezes.

Hei, mas espera, acredita, ela vai chegar, talvez um pouco mais amassada do que quando a escrevi, mas sei que a entenderá, pois sentirá no toque do papel tudo aquilo que quis te falar.

Nota

Não houve ninguém

Apesar do dia radiante que via pela janela, dentro era tudo sombrio e escuro. Levantou-se cedo, espiou rapidamente a vida lá fora e deixou as cortinas fechadas: acendeu apenas a luz fria do abajur azul da cabeceira. Contemplava gélida o espaço ao seu redor: as nuances dos raios solares a tocarem alguns móveis; as sombras dos livros na biblioteca; as roupas espalhadas pelo chão. Queria gritar, mas não havia força pra isso, e mesmo que o fizesse, quem a ouviria? A vida corria lá fora e ela se recusava a participar, não por falta de vontade, mas por medo. O que descobririam quando a vissem encarando o mundo? Não era uma pessoa fácil: os medos, incertezas e inseguranças dominavam os pensamentos; apesar do sorriso que insistia em levar nas raras vezes que punha os pés na rua. Era uma contradição ambulante. Nas mídias sociais era conhecida por aconselhar sabiamente pessoas exatamente como ela. Por que não conseguia aplicar seus conselhos para si? Ao observá-la digo que é por que tem medo de ser uma pessoa perdida, de que nada poderia ser aplicado a ela, pois não merece. Se ela pudesse me ouvir, diria para relaxar, olhar-se no espelho e ver, assim como eu vejo, a pessoa brilhante que ela é; mas infelizmente ela não me ouve, ela não ouve ninguém.

Nota

Incompletude

Era um dia qualquer de novembro: após dias de sol a pino e céu azul com poucas nuvens; a grama verde começava a ficar ainda mais úmida, regada não só pelo orvalho da manhã, mas também pelas constantes chuvas de verão. Contudo, apesar da tendência sazonal, o clima parecia estranhamente mudar. Sentada no chão úmido, a menina de capuz azul demonstrava não se importar muito com os corpos vazios que a observavam ali sozinha. Quando a viu ali sentada entre as árvores secas do parque, quis logo fazer um retrato. Ele a observava a alguns passos de distância, ela de costas para ele estava com o rosto levemente direcionado para o imenso lago que havia diante dos dois. Atento, o fotógrafo amador dizia que os pensamentos pareciam brincar com a cabeça dela. Era como se por meio da fotografia ele percebesse o modo como todo aquele cenário a afetava: os dias que até então pareciam belos e infinitos, agora pareciam também contar o tempo no calendário, quem sabe alcançar rapidamente as cinzas marcas de estações que já se foram e que só deveriam voltar no próximo ano. Como os dias, a menina de olhar contemplativo parecia ter o mesmo temor: as cores monótonas e sombrias de outro tempo.

Nota

Cantiga de amigo

Passarinho, passarinho, cantes pra mim
e me diga onde estás tão verde brilho enfim,
por onde voas?

Passarinho, passarinho, cantes pra ele
e lhe diga onde estou enfim tão brilho verde
por onde voas?

Cante e bata as asas, vá para o rio
e me traga boas novas, faz me sorrir
por onde voas?

Me traga boas novas, faz me feliz
digas que estás perto, pronto a me ter
por onde voas?

Nota

diálogos particulares

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-Você sempre faz isso?
– O quê?
– Aparece, encanta e vai embora?

~Silêncio~

– Acredito que você deveria tomar algum cuidado. Já parou pra pensar no número de corações que você deixou partido por aí?
– E você já parou pra pensar que o meu também pode estar? Ao me verem o que enxergam, sem saber, é apenas mais um coração quebrado precisando de cuidados. Talvez num instinto protetor os que olham se encantem não pelo que veem, mas sim porque se identificaram, pois encontraram um coração tão machucado quanto o deles, por um breve momento sentem que alguém é seu semelhante, no entanto esquecem do que ambos realmente precisam e partem ainda mais feridos.

~Silêncio~

Para resgate diz que…

CapaDizque

Às vezes agimos como se tivéssemos uma pedra amarrada à perna. Em vez de desamarrá-la, prosseguimos caminhando, arrastando-a por onde vamos. Como uma corrente prisional, ela nos lembra a todo momento de nossa condição de prisioneiro. Ao olhar para trás, por vezes, notamos o rastro triste que deixamos, mas nada fazemos, apenas lamentamos. Ignorantes, desconhecemos nossa capacidade de desatar o nó a fim de seguirmos leves.

Às vezes, em momentos nunca calculados de forma precisa, prendemos a respiração por tanto tempo que não percebemos o quanto permanecemos inertes, sem ar nos pulmões. Sem inalar e exalar o oxigênio que nos sustenta e renova. Seguimos em um ritmo que não nos permite sequer notar algo tão simples e natural quanto respirar ou piscar os olhos.

Às vezes, por imaturidade ou medo, fechamo-nos em nossos casulos virtuais e deixamos de viver o real. Deixamos de ir atrás dos sonhos e ficamos naquela linha nada tênue onde dizemos muito e fazemos muito pouco. Para alguns, a simples menção da vontade já é a vontade realizada.

Por quanto tempo permitiremos a nós mesmos estar acorrentados, sem ar e vivendo de ilusões?
É preciso desatar o nó, respirar, despertar e ir ao encontro de algo novo e também velho.
Talvez o segredo seja resgatar velhos costumes.