Não tão clandestina

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A minha relação com os livros não é tão parecida assim com a da protagonista de Felicidade clandestina, de Clarice Lispector, apesar de às vezes parecer uma relação de amor. E nessa relação tem um pouco de tudo: orgulho, vaidade, amor, cuidado, carinho e tantas outras relacionadas a emoções despertadas por palavras bem trabalhadas.

Bom, nessa minha relação, uma vez ou outra aparece alguém que me faz repensá-la. A primeira pessoa foi a Paula, minha professora de linguística no primeiro período de Letras, ela me indicou o Kindle, falou de seus inúmeros benefícios e no semestre seguinte: lá estava eu com o Kindle debaixo do braço. A segunda pessoa a me abrir os olhos, por alguma brincadeira do universo, também se chama Paulla. Ela é minha bibliotecária favorita – não que eu conheça muitas (brincadeirinha, Paulla) – e ela é responsável por me fazer repensar o modo como eu às vezes detenho um conhecimento que poderia alcançar outras pessoas.

Consciente como poucas, a Paulla é o tipo de pessoa que te faz refletir sobre muita coisa, desde a indústria alimentícia até livros e nosso sentimento de posse. E foi vendo o exemplo dela que hoje eu me sinto muito mais desprendida e menos escravizada pelos livros.

Depois dessas duas Paul(l)as na minha vida, percebi que minha compulsão por comprar livros diminuiu (apesar de o número de downloads ter aumentado). E acredito que com isso, minha vaidade em possuí-los também diminuiu. Já não vejo o acúmulo de livros na estante como algo positivo. Tenho pra mim que é muito mais interessante passar alguns livros pra frente (seja por doação, presente ou venda), porque assim o conteúdo presente naquele livro pode chegar a mais pessoas.

Espero com isso: abrir mais espaço em casa para outras coisas, nem que essa outras coisas sejam apenas mais espaço para ar e energia circularem; contagiar outras pessoas com as leituras que tive e com isso ter também com quem discutir (sim, parece um pouco egoísta); gastar menos e aproveitar mais; e ter em casa o estritamente necessário.

Foi pensando nisso que compartilho com vocês minha lista de vendas (as doações vão para o pessoal do Centro Acadêmico de Letras, que está angariando fundos). Caso tenha interesse em algum desses livros, entre em contato comigo: meh.weber@gmail.com.

1. Elizabeth Gilbert, Peregrinos (Editora Alfaguara) – [não lido, novíssimo];
2. Siba Shakib, Do outro lado do destino: a história de coragem, força e determinação da mulher que enfrentou o talibã (Editora Record) – [lido e aprovado, folhas um pouco amareladas];
[VENDIDO] 3. J. K. Rowling, Morte súbita (Editora Nova Fronteira) – [não lido, novíssimo];
4. Marina Nemat, Prisioneira em Teerã: memórias (Editora Planeta) – [lido e aprovado, um pouco amarelado];
5. Shoko Tendo, Yakuza Moon: memórias da filha de um gângster (Livros escala) – [lido, ótimo estado];
6. Johann Wolfgang Goethe, Os sofrimentos do jovem Werther, edição comentada (L&PM Pocket) – [lido, ótimo estado];
7. Jeffrey Eugenides, As virgens suicidas (Companhia das Letras) – [lido, ótimo estado];
8. Luís Dill, O dia em que Luca não voltou (Cia. das Letras) – [lido, novíssimo];
9. Matthew Quick, O lado bom da vida (Editora Intrínseca) – [lido, ótimo estado];
10. Matthew Quick, Perdão, Leonard Peacock (Editora Intrínseca) – [lido, ótimo estado];
11. Javier Moro, As montanhas de Buda: a odisseia de duas jovens monjas tibetanas apaixonadas pela liberdade (Editora Planeta) – [lido, um pouco amarelado];
12. Oliver Bowden, Assassin’s Creed: renascença (Editora Galera) – [do namorado, ótimo estado];
13. Kim Edwards, O guardião de memórias (Editora Sextante: Ficção) – [não lido, ótimo estado]
[VENDIDO] 14. Dante Alighieri, Divina Comédia (Editora Martin Claret) – [do namorado, ótimo estado];
15. Mark Twain, The adventures of Huckleberry Finn (Thomson Heinle, Illustrated Classics Collection) – [do namorado, ótimo estado];
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Para lágrima: sorriso

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Ontem, mais precisamente dia 3 de agosto, quinta-feira, recebi a notícia de que não poderei continuar com o meu estágio na Biblioteca por conta da minha grade este semestre. Depois de esperar quatro meses pra ser chamada, saio sem completar quatro meses de casa. Há algum tempo isso teria me abalado muito. Isso porque geralmente faço um planejamento e quando ele sai da linha, fico desestabilizada. Mas incrivelmente ontem não foi assim (mesmo que no fundo ainda tenha dado uma vontadinha de chorar) e acredito que alguns pontos contribuíram para isso.

Primeiro, desde que comecei a estagiar de noite na Biblioteca, perdi inúmeros eventos interessantes por conta do horário, um deles sobre mito, inclusive. Como não dá pra sempre solicitar dispensa para acompanhá-los, muitas vezes eu recebi relatórios detalhados do meu namorado, que os cobria por mim. Agora, poderei estar lá, participando deles.

Segundo, no final do semestre passado aceitei um convite para participar de um Programa de Iniciação Científica na universidade. É uma oportunidade rara de desenvolver uma pesquisa em Educação. Rara porque num momento que tem o nosso cenário político e financeiro não seria diferente. Logo, poderei me aplicar com mais dedicação a esse novo projeto.

Terceiro, tenho me cercado de pessoas tão incríveis, as quais estão me ajudando no meu aprimoramento como ser humano, e é difícil me ver mais tão perto delas. O convívio diário e as trocas de experiências são sempre um aprendizado. Mas sabendo o quão incríveis elas são, não importa a distância, continuarei aprendendo com os ecos do que conversamos e com nossas futuras conversas longe do ambiente de trabalho.

Quarto, duas pessoas muito importantes pra mim me disserem exatamente a mesma coisa: foca na formatura. (Tão focada que faço parte da Comissão rs). Agora, sei que, apesar de não receber mais a bolsa do estágio (que estava destinada ao planejamento que mencionei inicialmente), posso me focar em atividades que verdadeiramente agreguem ao meu currículo pessoal e profissional, como o Português para Falantes de Outras Línguas (PFOL) ou o Inglês para cegos.

Por fim, desenvolver um estágio na Biblioteca, apesar dos inúmeros pontos positivos, não era desafiador nem estimulante. Sou uma pessoa que gosta de certo movimento e quando me vejo sem muita coisa pra fazer, arranjo. Então, agora terei oportunidade para me coçar.

Nota

Reverso

sentei-pra-te-escrever

Sentei pra te escrever estas linhas não tortas, mas avessas e, travessa, senti aqui… bem aqui nessa caixa feita de batimentos e ar rarefeito, que eu atravessava não uma ponte… não uma rua… mas um turbilhão de sentimentos inversos aos que eu queria te contar.

Revoltei-me: de dentro pra fora, no contrário de mim, expus-me novamente a esse gesto tão traquina que é escrever.

Agora vai.

Encontrei essa folha amassada num canto da gaveta e pensei que talvez fosse uma boa ideia, uma hora boa pra colocar algumas coisas aqui, agora que o frenesim passou e o mar parece calmo novamente.

Hei, talvez você a receba na semana que vem. Claro, se o moço, aquele que passa de casa em casa fazendo as correspondências e ligando os pontos, não se esquecer de passar na tua rua e nem de apertar a tua campainha. Só espero que ele não saia correndo… assim como fiz tantas vezes.

Hei, mas espera, acredita, ela vai chegar, talvez um pouco mais amassada do que quando a escrevi, mas sei que a entenderá, pois sentirá no toque do papel tudo aquilo que quis te falar.

Nota

Não houve ninguém

Apesar do dia radiante que via pela janela, dentro era tudo sombrio e escuro. Levantou-se cedo, espiou rapidamente a vida lá fora e deixou as cortinas fechadas: acendeu apenas a luz fria do abajur azul da cabeceira. Contemplava gélida o espaço ao seu redor: as nuances dos raios solares a tocarem alguns móveis; as sombras dos livros na biblioteca; as roupas espalhadas pelo chão. Queria gritar, mas não havia força pra isso, e mesmo que o fizesse, quem a ouviria? A vida corria lá fora e ela se recusava a participar, não por falta de vontade, mas por medo. O que descobririam quando a vissem encarando o mundo? Não era uma pessoa fácil: os medos, incertezas e inseguranças dominavam os pensamentos; apesar do sorriso que insistia em levar nas raras vezes que punha os pés na rua. Era uma contradição ambulante. Nas mídias sociais era conhecida por aconselhar sabiamente pessoas exatamente como ela. Por que não conseguia aplicar seus conselhos para si? Ao observá-la digo que é por que tem medo de ser uma pessoa perdida, de que nada poderia ser aplicado a ela, pois não merece. Se ela pudesse me ouvir, diria para relaxar, olhar-se no espelho e ver, assim como eu vejo, a pessoa brilhante que ela é; mas infelizmente ela não me ouve, ela não ouve ninguém.

Nota

O dois

large– Respira!

Em um despertar firme acordei com o pronunciamento imperativo. Mais uma vez lembrou-me de realizar uma dessas ações fundamentais da vida humana: inspirar oxigênio e mandar embora o gás carbônico.

Talvez respirar não seja bem um ato involuntário.

Nota

Incompletude

Era um dia qualquer de novembro: após dias de sol a pino e céu azul com poucas nuvens; a grama verde começava a ficar ainda mais úmida, regada não só pelo orvalho da manhã, mas também pelas constantes chuvas de verão. Contudo, apesar da tendência sazonal, o clima parecia estranhamente mudar. Sentada no chão úmido, a menina de capuz azul demonstrava não se importar muito com os corpos vazios que a observavam ali sozinha. Quando a viu ali sentada entre as árvores secas do parque, quis logo fazer um retrato. Ele a observava a alguns passos de distância, ela de costas para ele estava com o rosto levemente direcionado para o imenso lago que havia diante dos dois. Atento, o fotógrafo amador dizia que os pensamentos pareciam brincar com a cabeça dela. Era como se por meio da fotografia ele percebesse o modo como todo aquele cenário a afetava: os dias que até então pareciam belos e infinitos, agora pareciam também contar o tempo no calendário, quem sabe alcançar rapidamente as cinzas marcas de estações que já se foram e que só deveriam voltar no próximo ano. Como os dias, a menina de olhar contemplativo parecia ter o mesmo temor: as cores monótonas e sombrias de outro tempo.