Seja filtro

seja filtro

Três dias após o primeiro turno das eleições, tamo como? Ninguém mais se encara nos olhos: a única mensagem vem pela tela do celular. Metade da família já saiu do grupo e a outra metade só manda mensagem de bom dia. Mentira. Ainda tem aquele 1% que insiste em mandar fake news. Na fila do ônibus, do pão e do cinema só tem gente expressando o lado recalcado da extrema direita.

Ontem, enquanto eu passava a tarde com um dos meus melhores amigos, que por acaso é gay, refleti sobre como a vida é delicada e parece querer nos escapar das mãos. Juntos conversamos sobre a atual conjuntura e sofremos juntos. Em casa, sofro a cada notícia de tortura, espancamento, assédio, toda essa violência. Sofro por ver como os ânimos estão alterados e o pessoal resolveu deixar o ID correr solto (você não brinca em serviço, né não Freud?).

No meio desse caos todo, já em casa, tentando me focar no trabalho, minha mãe chega com um filtro de café. Isso mesmo, esse branquinho de papel que usamos pra coar aquele café gostoso pela manhã ou no mesmo bate-papo com o melhor amigo. Foi um gesto gentil pra me dizer: “Filha, sei que vivemos tempos difíceis, mas, por favor, deixe de ser esponja e passe a ser filtro”.

Ao refletir sobre essa incrível metáfora, penso que todos aprenderíamos se passássemos mais tempo filtrando as informações que recebemos em vez de as compartilhando. Já parou pra pensar no número de mensagens que recebemos todos os dias e não conferimos as fontes? Já pensou no número de coisas que compartilhamos e não contribuem para que o dia do próximo seja melhor? Já pensou em como contribuímos para aumentar o alarde sobre o desemprego, a violência, a saúde? Será que não estamos sendo manipulados?

Todos esses questionamentos me levaram a lembrar dessa sigla/verbo: think. Em inglês alguém criou 5 questões para que pensemos antes de falar a partir das letras desse verbo:

Before you speak: THINK!
T = Is it TRUE?
H = Is it HELPFUL?
I = Is it INSPIRING?
N = Is it NECESSARY?
K = Is it KIND?

Antes de falar: PENSE!
T = É verdadeiro?
H = É auxiliador?
I = É inspirador?
N = É necessário?
K = É gentil?

Então, diante de tempos tão difíceis, que tal pensar um pouquinho? 😉

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Solo sagrado

Solo sagrado

E então eu arranquei a planta pela raiz, quando estava começando a florescer…

Louca, corajosa, insensível, forte.
É o que dizem quando alguns me veem sem entender o porquê dos meus atos. Eu também não sei como me definir, prefiro não pensar em definições.

Já fazia tempo que tinha notado a presença dessa plantinha no meu jardim. Uma plantinha admirável, exótica sem dúvida. Como foi parar ali, não tenho a menor ideia. Apeguei-me a ela, e cada dia fui regando um pouquinho e vendo criar raízes.

Sim, já fazia tempo também que a minha cabeça dava voltas em todos os meus conhecimentos de jardinagem. A voz do sábio jardineiro ecoando no meu interior: ela não faz parte do seu jardim, a tua terra não tem os minerais de que ela necessita, ela vai morrer se você deixa-la aí.

Eu sabia o que eu tinha que fazer, mas como é difícil depois de ver ela ali tão inocente crescendo, criando raízes. Sua beleza me admirava, seu exotismo me atraía.

Arranca! Agora!

E cada vez que me aproximava, em vez de arrancar eu regava.
Mas então eu percebi que não servia de nada mantê-la ali, e vê-la morrer pouco a pouco…

E então eu arranquei a planta pela raiz, quando estava começando a florescer…

Eu a entreguei ao jardineiro e fiz um pedido: leve-a a algum lugar onde a terra seja apropriada, onde possa crescer e ter todos os minerais de que ela precisa. Leve-a, plante-a, regue-a por mim e cuide-a… deixe que cresça e que seja bela e forte. Aqui ela morrerá, mas longe de mim crescerá e terá muitos frutos.

E vi como o jardineiro levava a plantinha para longe de mim. O jardineiro sorria e para me consolar, dizia: Forte, corajosa, você não se esqueceu do que eu te ensinei, e por causa do seu ato vou plantá-la em uma terra apropriada e cuidá-la como me disseste.

Em frente ao meu jardim algumas pessoas viram a cena, e sem entender gritavam: Louca! Insensível! Como pode arrancar a planta pela raiz?! Depois de todo cuidado, depois de regá-la?!

Louca, corajosa, insensível ou forte. Não me importo muito com as definições que possam fazer de mim. De que vale a vida viver disso? Prefiro cuidar do meu jardim. Esperar o temporal passar e admirar a chuva regando a terra, contemplar a luz do sol, e ver tudo florescer outra vez. Prefiro acreditar que mesmo longe de mim, e dos meus cuidados há um jardineiro sábio e fiel que sabe cuidar muito mais do que eu seria capaz. Prefiro acreditar na sabedoria da natureza, que vai muito além da minha mísera sabedoria. Contemplar a beleza da vida e viver em paz.

Prognose obsoleta

Tenho certeza de que o diagnóstico de esquizofrenia já está descartado. Até por que, semana passada foi retirado dos verbetes das principais patologias do século XXI. Agora o drama é outro. A doença não é mais a do escarro, do prurido ou tantas outras grotescas. O doentio agora é banal.

Já sei o que você quer. Quer saber onde o meu problema se encaixa. Sim, semana passada eu teria sido considerado esquizofrênico. Não é à toa. Ouço vozes o tempo todo. Vozes desfacetadas, programadas… frias. Eu as ouço em todos os lugares. Às vezes até no banheiro quando não me aguento mais e alivio as necessidades de um dia polifônico.

Ouço no carro, no trabalho, na faculdade e em casa também. Vozes que não pertencem a rostos. Vozes que não pertencem a vidas. Vozes que não consigo ver ou reconhecer. Eu nunca as vejo. Eu nunca as sinto. Mas as escuto. E pior: as sigo.

A última vez que ouvi foi um pouco antes de chegar ao novo local de trabalho. Uma voz doce, feminina, dessas que transmitem não só calma, mas também confiança e credibilidade disse quase ao pé do ouvido: você chegou ao seu destino. Espero um dia também retribuir.

Ex-vazio

Calarão o silêncio com gritos
sussurrados
em vãos estreitos
destroçados

Colarão bocas maduras
suturadas
em gargantas doidas
esvaziadas

. . . . . . . .
vazio estreito
na garganta vã

insana

Calarão o silêncio com gritos
esquecidos
vencidos

Colarão bocas imaturas
saturadas
. . . .
cansadas

Equilíbrio.

Em um primeiro momento, minha única vontade é de dizer o quão complicada é essa palavra, mas então, tão rápido quanto veio a primeira ideia, vem a voz do Tar na minha cabeça me dizendo que quem complica as coisas somos nós, seres humanos.

Bem… ele está certo.

Desde que eu parei pra pensar nesse fator – “quem complica somos nós” – muita coisa mudou pra mim. Embora, é claro, eu ainda possa melhorar MUITO.

Uma das mudanças percebi hoje praticando Yoga. A minha concentração melhorou horrores desde que a minha postura diante da prática mudou. Percebi que esse momento é meu pra mim. Esse é um dos raros momentos que me permito algo pra mim.

E esse mês, não sei se por conta do aniversário, me permiti outros dois luxos: o primeiro uma massagem relaxante e o segundo um mimo nos pés.

A massagem foi um presente da Vera, instrutora de Yoga e amiga há quase 7 anos. Fiquei meio sem jeito de receber o presente, mas como estava precisando, aceitei e foi a melhor coisa que poderia fazer por mim. A massagem é pensada para o que você precisa e ela identifica rapidinho os pontos de maior tensão. No meu caso: mandíbulas, ombros e lombar (foi assustador ouvir os estalos dos ombros hahaha). No geral, saí desejando que todos tivessem a mesma oportunidade que eu. Minha vontade é de distribuir massagem como presente.

O mimo para os pés também não foi algo pensado. Basicamente estava na podóloga como acompanhante e saí cliente. Nunca senti meus pés tão macios e bonitos. Acho muito estranho achar pés lindos, mas foi essa impressão que tive. Foi uma delícia, com direito a massagem pra relaxar. A Maria é uma daquelas pessoas com um astral tão gostoso que você nem vê que ficou uma hora ali sentado com alguém cuidando de membros tão esquecidos por nós.

No fim aprendi algumas coisas sobre mim. Por exemplo, que eu posso me permitir relaxar. Eu sei me manter concentrada e disciplinada, eu só não posso deixar as emoções controlarem a minha vida.

E, bem, equilíbrio não existe.

Haverão momentos bons e ruins, a questão é como eu lido com cada um deles. Espero ser capaz de serenar.

Eu sei que o mês está quase acabando, mas só agora encontrei tempo e ânimo para voltar a escrever. Sendo assim, gostaria de compartilhar alguns aprendizados e embates vividos nesse ano que passou.

Saúde e bem-estar

Uma das coisas das quais mais me orgulho é o campo da saúde. O ano passado foi um ano de mudanças muito positivas, a começar pelas práticas esportivas. No segundo semestre do ano (antes tarde do que mais tarde), o Lucas e eu começamos musculação e natação na universidade, segunda e quarta para nadar e terça e quinta para malhar.

Além disso, começamos a usar a bicicleta como meio de transporte: só ir e voltar da uni já somava 12,8 km diários de atividade física. Ademais, economizamos juntos 17 reais por dia, o que no fim do mês representa metade de nossas bolsas. Tudo isso fez com que eu me sentisse muito mais disposta e por que não, mais contente com o meu corpo. Parei de tomar refrigerante há algum tempo e as raras exceções que abri para a bebida só revalidaram a minha decisão em não consumi-la mais: corpo pesado. Além disso, reduzi o consumo de sal e açúcar e recorro a outros ingredientes para temperar a comida: outro quesito importante pra mim, e acredito que para o Lucas também, que começamos a consumir menos coisas industrializadas e passamos a cozinhar mais em casa e levar alimentos saudáveis para a aula. Contudo, no meio de tanta coisa boa, minha mente foi um pouco negligenciada.

Sem praticar Yoga há alguns meses, agora que tenho mais tempo livre, percebo que o campo mental ficou em segundo plano, pois enquanto estou super ocupada com todas essas atividades e mais as tarefas da universidade, vou sobrevivendo. Agora, abre uma brecha na agenda pra eu pensar em outras coisas: um mar de negatividade me atinge e não sei como lidar. As férias foram um pouco isso, perceber o quanto me saboto quando estou longe das paredes da universidade. É triste como não me permito relaxar e aproveitar, como me culpo por momentos de ócio e lazer. Isso é algo que quero mudar. Fato que me traz a seguinte reflexão:

“Se a sua compaixão não inclui a si mesmo, ela é incompleta”.

Buda

Universidade

Falando em como a universidade está fortemente relacionada ao meu dia a dia, 2017 começou de um jeito meio difícil pra mim. Minha ansiedade generalizada já me importunava em janeiro sobre os desafios que eu viria a enfrentar no 5º e 6º semestres da faculdade, em específico, a prática docente. Com isso, meu aniversário foi celebrado no hospital e depois em casa, sendo cuidada pelo namorado.

Sempre fugi dessa ideia de dar aula, mesmo ao entrar no curso de Licenciatura em Letras imaginava que seria possível, de alguma forma, passar pela sala de aula “ilesa” e encerrar o curso em uma cadeira como revisora. Contudo, apesar do medo, da ansiedade e da cobrança ferrenha que deposito em mim, dar aula foi um daqueles acontecimentos incríveis com os quais nunca sonhamos na vida. Acompanhar, mesmo que brevemente, o desenvolvimento dos estudantes é uma das melhores sensações que já tive na vida. E ser cumprimentada por eles nos corredores da universidade, um carinho gostoso no coração e uma validação do trabalho que venho desenvolvendo há 3 anos (e claro, no ego e na vaidade também). Descobri que posso muito como professora e que isso é tão prazeroso quanto revisar.

Além disso, meu trabalho acadêmico me levou para um novo campo: a Iniciação Científica. Em Comunicação não pude experimentar essa oportunidade, mas em Letras, estou – ainda que em passos lentos – entendendo como funciona a pesquisa e me permitindo expandir os horizontes, visto que participo de dois grupos de estudo distintos dentro da universidade: um de linguística e outro de literatura. Agradeço imensamente os professores que acreditaram em mim nessa caminhada.

Trabalho

Além do campo acadêmico, o campo profissional passou por pequenas transformações: o foco continua sendo os estudos. Por conta disso, continuei com meus projetos como freelancer em revisão e estagiei por alguns meses na biblioteca da Universidade, recolhendo, registrando e repondo os livros nas estantes. No entanto, o que valeu mesmo foram as pessoas que conheci e que hoje tem um lugar muito importante na minha vida. Sendo assim, a amizade é outro quesito que me provocou muito no ano passado.

Amizade

Foram algumas crises e algumas boas lágrimas derramadas no colo do namorado sobre qual é o verdadeiro significado de amigo e amizade. Como boa pisciana que sou (sinto muito se você não acredita nem um pouquinho em signos), tenho muita dificuldade em encerrar ciclos. Uma das minhas maiores dificuldades foi perceber que eu não tinha mais coisas em comum com grande parte das pessoas com quem eu estava acostumada a interagir. Não foram poucas as vezes que chorei e me senti culpada por não falar com as amigas da outra faculdade, por não sair com elas ou os meus amigos de infância. Por um momento quase culpei meu relacionamento por esse afastamento. No fim, depois de meditar no fim de ano, a avaliação é: é natural o afastamento, porque assim como não somos mais os mesmos, nossos amigos também mudam e com isso a dinâmica do relacionamento também. Ainda dói pensar que não faço parte de certos núcleos, mas é bom ver que núcleos novos se formaram e que antigos ainda permanecem íntegros apesar do distanciamento. Amadureci muito com isso.

Falando em amadurecimento, acho que esse post já está grande o suficiente… No próximo posso, talvez, falar do que uma temporada longe de casa, praticamente morando e gerindo uma casa própria ‘sozinha’ fez por mim.