isso é você

 

Texto de Amanda Lopes

Não falta! Você é suficiente. Toda a sua vivência, desde seu primeiro piscar de olhos até esse momento, te fez quem você é. Isso é clichê, eu sei. Mas chega mais perto, deixa eu te falar de novo, com jeito, e mais uma vez. Isso aí é você. Esse aglomerado de composições biológicas, físicas e químicas. Essa mistura de emoções, sentimentos, pensamentos, ideias, vontades, sonhos; isso tudo é você. E não, você não é só isso. Você é mais, muito mais! Você é tudo. Tudo aquilo que deseja, almeja e luta pra ser. Você simplesmente é. E, por mais difícil que tenha sido a tua caminhada, a herança que o teu eu de ontem deixou pro teu eu de hoje é linda! E não, eu não vou te dizer pra viver preocupado com o teu eu de amanhã. Porque por mais radical que seja sua mudança com o passar do tempo, cada detalhe da tua vida faz sentido. Cada parte tua veio de um lugar diferente e tudo o que você vive hoje já impulsiona seu futuro pra um lugar novo. Seja ele qual for. Então, sim, você é suficiente. Cada ser humano nesse mundo é singular. Cada pessoa tem um universo dentro de si, com vários mundos de possibilidades. Cada um escolhe onde quer habitar. Não se compare. Não se diminua. Se você ainda não alcançou aquele projeto que tanto quer, não se desespere! Respira fundo! Muitas vezes a gente nem sabe o que quer da vida e cria paranóias por isso. Vive-um-dia-de-cada-vez. Não é o fim do mundo, mesmo que pareça ser. Você ainda é você. Mesmo depois de pancadas, tombos, desafios e dificuldades. Então por que você não seria você agora? Você é suficiente. Nada falta pra você ser alguém, você já é. Aquela viagem? Ela vai te transbordar, não vai te completar ou fazer você ser outro alguém. Os bens que você acha que precisa pra ser feliz, não vão mudar quem você já é. A gente acumula experiência, história. Não uma história no exterior, ou uma história de feitos grandiosos para a humanidade. Simplesmente histórias. Grandiosas elas sempre são. Os seus feitos são grandiosos para você. Não, esse não é o seu limite, é claro que você consegue caminhar para mais longe. Mas não se cobre tanto! Você é suficiente. Não falta! Tudo o que a gente vive é pra somar experiência, somar vivência. E, por mais que a gente seja um aglomerado de experiências, também, a gente não precisa de muitas delas para descobrir quem a gente é. Você já é alguém. Você não está correndo para descobrir quem você é. Você já sabe. Você é isso. Se for pra correr agora, é pra viver mais, amar mais, sonhar mais. Se for pra correr, é pra somar, e não porque falta. Não falta!

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Seja filtro

seja filtro

Três dias após o primeiro turno das eleições, tamo como? Ninguém mais se encara nos olhos: a única mensagem vem pela tela do celular. Metade da família já saiu do grupo e a outra metade só manda mensagem de bom dia. Mentira. Ainda tem aquele 1% que insiste em mandar fake news. Na fila do ônibus, do pão e do cinema só tem gente expressando o lado recalcado da extrema direita.

Ontem, enquanto eu passava a tarde com um dos meus melhores amigos, que por acaso é gay, refleti sobre como a vida é delicada e parece querer nos escapar das mãos. Juntos conversamos sobre a atual conjuntura e sofremos juntos. Em casa, sofro a cada notícia de tortura, espancamento, assédio, toda essa violência. Sofro por ver como os ânimos estão alterados e o pessoal resolveu deixar o ID correr solto (você não brinca em serviço, né não Freud?).

No meio desse caos todo, já em casa, tentando me focar no trabalho, minha mãe chega com um filtro de café. Isso mesmo, esse branquinho de papel que usamos pra coar aquele café gostoso pela manhã ou no mesmo bate-papo com o melhor amigo. Foi um gesto gentil pra me dizer: “Filha, sei que vivemos tempos difíceis, mas, por favor, deixe de ser esponja e passe a ser filtro”.

Ao refletir sobre essa incrível metáfora, penso que todos aprenderíamos se passássemos mais tempo filtrando as informações que recebemos em vez de as compartilhando. Já parou pra pensar no número de mensagens que recebemos todos os dias e não conferimos as fontes? Já pensou no número de coisas que compartilhamos e não contribuem para que o dia do próximo seja melhor? Já pensou em como contribuímos para aumentar o alarde sobre o desemprego, a violência, a saúde? Será que não estamos sendo manipulados?

Todos esses questionamentos me levaram a lembrar dessa sigla/verbo: think. Em inglês alguém criou 5 questões para que pensemos antes de falar a partir das letras desse verbo:

Before you speak: THINK!
T = Is it TRUE?
H = Is it HELPFUL?
I = Is it INSPIRING?
N = Is it NECESSARY?
K = Is it KIND?

Antes de falar: PENSE!
T = É verdadeiro?
H = É auxiliador?
I = É inspirador?
N = É necessário?
K = É gentil?

Então, diante de tempos tão difíceis, que tal pensar um pouquinho? 😉

Solo sagrado

Solo sagrado

E então eu arranquei a planta pela raiz, quando estava começando a florescer…

Louca, corajosa, insensível, forte.
É o que dizem quando alguns me veem sem entender o porquê dos meus atos. Eu também não sei como me definir, prefiro não pensar em definições.

Já fazia tempo que tinha notado a presença dessa plantinha no meu jardim. Uma plantinha admirável, exótica sem dúvida. Como foi parar ali, não tenho a menor ideia. Apeguei-me a ela, e cada dia fui regando um pouquinho e vendo criar raízes.

Sim, já fazia tempo também que a minha cabeça dava voltas em todos os meus conhecimentos de jardinagem. A voz do sábio jardineiro ecoando no meu interior: ela não faz parte do seu jardim, a tua terra não tem os minerais de que ela necessita, ela vai morrer se você deixa-la aí.

Eu sabia o que eu tinha que fazer, mas como é difícil depois de ver ela ali tão inocente crescendo, criando raízes. Sua beleza me admirava, seu exotismo me atraía.

Arranca! Agora!

E cada vez que me aproximava, em vez de arrancar eu regava.
Mas então eu percebi que não servia de nada mantê-la ali, e vê-la morrer pouco a pouco…

E então eu arranquei a planta pela raiz, quando estava começando a florescer…

Eu a entreguei ao jardineiro e fiz um pedido: leve-a a algum lugar onde a terra seja apropriada, onde possa crescer e ter todos os minerais de que ela precisa. Leve-a, plante-a, regue-a por mim e cuide-a… deixe que cresça e que seja bela e forte. Aqui ela morrerá, mas longe de mim crescerá e terá muitos frutos.

E vi como o jardineiro levava a plantinha para longe de mim. O jardineiro sorria e para me consolar, dizia: Forte, corajosa, você não se esqueceu do que eu te ensinei, e por causa do seu ato vou plantá-la em uma terra apropriada e cuidá-la como me disseste.

Em frente ao meu jardim algumas pessoas viram a cena, e sem entender gritavam: Louca! Insensível! Como pode arrancar a planta pela raiz?! Depois de todo cuidado, depois de regá-la?!

Louca, corajosa, insensível ou forte. Não me importo muito com as definições que possam fazer de mim. De que vale a vida viver disso? Prefiro cuidar do meu jardim. Esperar o temporal passar e admirar a chuva regando a terra, contemplar a luz do sol, e ver tudo florescer outra vez. Prefiro acreditar que mesmo longe de mim, e dos meus cuidados há um jardineiro sábio e fiel que sabe cuidar muito mais do que eu seria capaz. Prefiro acreditar na sabedoria da natureza, que vai muito além da minha mísera sabedoria. Contemplar a beleza da vida e viver em paz.

Prognose obsoleta

Tenho certeza de que o diagnóstico de esquizofrenia já está descartado. Até por que, semana passada foi retirado dos verbetes das principais patologias do século XXI. Agora o drama é outro. A doença não é mais a do escarro, do prurido ou tantas outras grotescas. O doentio agora é banal.

Já sei o que você quer. Quer saber onde o meu problema se encaixa. Sim, semana passada eu teria sido considerado esquizofrênico. Não é à toa. Ouço vozes o tempo todo. Vozes desfacetadas, programadas… frias. Eu as ouço em todos os lugares. Às vezes até no banheiro quando não me aguento mais e alivio as necessidades de um dia polifônico.

Ouço no carro, no trabalho, na faculdade e em casa também. Vozes que não pertencem a rostos. Vozes que não pertencem a vidas. Vozes que não consigo ver ou reconhecer. Eu nunca as vejo. Eu nunca as sinto. Mas as escuto. E pior: as sigo.

A última vez que ouvi foi um pouco antes de chegar ao novo local de trabalho. Uma voz doce, feminina, dessas que transmitem não só calma, mas também confiança e credibilidade disse quase ao pé do ouvido: você chegou ao seu destino. Espero um dia também retribuir.

Ex-vazio

Calarão o silêncio com gritos
sussurrados
em vãos estreitos
destroçados

Colarão bocas maduras
suturadas
em gargantas doidas
esvaziadas

. . . . . . . .
vazio estreito
na garganta vã

insana

Calarão o silêncio com gritos
esquecidos
vencidos

Colarão bocas imaturas
saturadas
. . . .
cansadas

Equilíbrio.

Em um primeiro momento, minha única vontade é de dizer o quão complicada é essa palavra, mas então, tão rápido quanto veio a primeira ideia, vem a voz do Tar na minha cabeça me dizendo que quem complica as coisas somos nós, seres humanos.

Bem… ele está certo.

Desde que eu parei pra pensar nesse fator – “quem complica somos nós” – muita coisa mudou pra mim. Embora, é claro, eu ainda possa melhorar MUITO.

Uma das mudanças percebi hoje praticando Yoga. A minha concentração melhorou horrores desde que a minha postura diante da prática mudou. Percebi que esse momento é meu pra mim. Esse é um dos raros momentos que me permito algo pra mim.

E esse mês, não sei se por conta do aniversário, me permiti outros dois luxos: o primeiro uma massagem relaxante e o segundo um mimo nos pés.

A massagem foi um presente da Vera, instrutora de Yoga e amiga há quase 7 anos. Fiquei meio sem jeito de receber o presente, mas como estava precisando, aceitei e foi a melhor coisa que poderia fazer por mim. A massagem é pensada para o que você precisa e ela identifica rapidinho os pontos de maior tensão. No meu caso: mandíbulas, ombros e lombar (foi assustador ouvir os estalos dos ombros hahaha). No geral, saí desejando que todos tivessem a mesma oportunidade que eu. Minha vontade é de distribuir massagem como presente.

O mimo para os pés também não foi algo pensado. Basicamente estava na podóloga como acompanhante e saí cliente. Nunca senti meus pés tão macios e bonitos. Acho muito estranho achar pés lindos, mas foi essa impressão que tive. Foi uma delícia, com direito a massagem pra relaxar. A Maria é uma daquelas pessoas com um astral tão gostoso que você nem vê que ficou uma hora ali sentado com alguém cuidando de membros tão esquecidos por nós.

No fim aprendi algumas coisas sobre mim. Por exemplo, que eu posso me permitir relaxar. Eu sei me manter concentrada e disciplinada, eu só não posso deixar as emoções controlarem a minha vida.

E, bem, equilíbrio não existe.

Haverão momentos bons e ruins, a questão é como eu lido com cada um deles. Espero ser capaz de serenar.