Solo sagrado

Solo sagrado

E então eu arranquei a planta pela raiz, quando estava começando a florescer…

Louca, corajosa, insensível, forte.
É o que dizem quando alguns me veem sem entender o porquê dos meus atos. Eu também não sei como me definir, prefiro não pensar em definições.

Já fazia tempo que tinha notado a presença dessa plantinha no meu jardim. Uma plantinha admirável, exótica sem dúvida. Como foi parar ali, não tenho a menor ideia. Apeguei-me a ela, e cada dia fui regando um pouquinho e vendo criar raízes.

Sim, já fazia tempo também que a minha cabeça dava voltas em todos os meus conhecimentos de jardinagem. A voz do sábio jardineiro ecoando no meu interior: ela não faz parte do seu jardim, a tua terra não tem os minerais de que ela necessita, ela vai morrer se você deixa-la aí.

Eu sabia o que eu tinha que fazer, mas como é difícil depois de ver ela ali tão inocente crescendo, criando raízes. Sua beleza me admirava, seu exotismo me atraía.

Arranca! Agora!

E cada vez que me aproximava, em vez de arrancar eu regava.
Mas então eu percebi que não servia de nada mantê-la ali, e vê-la morrer pouco a pouco…

E então eu arranquei a planta pela raiz, quando estava começando a florescer…

Eu a entreguei ao jardineiro e fiz um pedido: leve-a a algum lugar onde a terra seja apropriada, onde possa crescer e ter todos os minerais de que ela precisa. Leve-a, plante-a, regue-a por mim e cuide-a… deixe que cresça e que seja bela e forte. Aqui ela morrerá, mas longe de mim crescerá e terá muitos frutos.

E vi como o jardineiro levava a plantinha para longe de mim. O jardineiro sorria e para me consolar, dizia: Forte, corajosa, você não se esqueceu do que eu te ensinei, e por causa do seu ato vou plantá-la em uma terra apropriada e cuidá-la como me disseste.

Em frente ao meu jardim algumas pessoas viram a cena, e sem entender gritavam: Louca! Insensível! Como pode arrancar a planta pela raiz?! Depois de todo cuidado, depois de regá-la?!

Louca, corajosa, insensível ou forte. Não me importo muito com as definições que possam fazer de mim. De que vale a vida viver disso? Prefiro cuidar do meu jardim. Esperar o temporal passar e admirar a chuva regando a terra, contemplar a luz do sol, e ver tudo florescer outra vez. Prefiro acreditar que mesmo longe de mim, e dos meus cuidados há um jardineiro sábio e fiel que sabe cuidar muito mais do que eu seria capaz. Prefiro acreditar na sabedoria da natureza, que vai muito além da minha mísera sabedoria. Contemplar a beleza da vida e viver em paz.

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