Nota

Hallelujah

womanalone

Já faz cinco meses que jantara. Há algum tempo, na curva fechada dos lábios perdera além da fome, a direção. O que era forte e belo, agora dissipava-se diante da insensatez e do medo. Ao fundo os pequenos ouvidos apreciavam os acordes melancólicos daquela conhecida oração. Na violência da escuridão, as primeiras e translúcidas mensagens transbordavam em sintonia, enquanto o pulso buscava o ritmo. Lembrei de você! Luzes e vozes ecoaram, mas não abafaram as notas que persistiam em manter o ritmo em mim, evitando que a vida entrasse em uníssono e silêncio. Invisível, você encontrava formas de se fazer presente: as notas agudas reverberavam e em graves toques embalavam meu corpo. Acalmada, sinto agora uma brisa delicada, um suspiro quente e algo deslizando superficialmente sobre a pele macia. As notas ganharam vida, transbordaram em sentimentos lúcidos e límpidos que agora entrego a ti, só cuidado para não se molhar.

Nota

o(ração) criogênica

Com as ferramentas que possui, começa a esculpir o objeto disforme em si: estranho artefato pulsante preenchido por gélidas desesperanças de um horizonte azul. Mal nasce, já morre. Perde logo no primeiro sopro as unhas antes só roídas; o líquido carmin  escorre profanando o relógio de areia; bolhas saltam em uma manifestação de emoções violentas. A língua fervente afoga o grito que nasce nas entranhas. Mudos os olhos fitam a parede calfinada. A imponente torre de outrora – tronco firme da espinha – rui às suas costas; segue alicerçando o velho castelo de cartas. Corcunda e desajeitado nota pela primeira vez: ter pés.