Fugir-se

fugir-seEspelhada na correnteza árida
a imagem distorcida
espumada
afogada
repercutiu como eco
nas vísceras

na pele
reverberou como sombra
abafada
dissolvida
a imagem espelhada
distorcida na lagoa domada!

Nota

Esta também é uma história de terror

Vendo você…

Fluxo de consciência

Jatobá (Hymaenea courbaril).

Jatobá (Hymaenea courbaril).

Um pequeno animal, desses que cabem facilmente na palma da mão, corre enquanto é engolido por uma imensa e escura floresta. É um inédito e assustador lugar. Perdido. Olha ao redor e nada parece nem perto de ser familiar. Todo o conhecimento de mundo que possui, limitado à gaiola com sua roda de exercício e o pote de alimentação, precisa ser reconstruído. No ambiente hostil, não só a linguagem é novidade, mas também os talhes, os sons e os cheiros: monstruosamente colossais. Ao redor tudo assusta e não existe uma toca na qual possa se esconder. Potencializando a angústia e o medo, o pequeno animal sabe não possuir garras e nem força para se defender ou para construir um abrigo para si. À medida que o tempo passa e a caminhada o leva a diversos setores do ambiente, outros animais parecem observa-lo; não aparentam agressividade, mas o amedrontam na escuridão e vastidão daquele espaço adverso. Dentes afiados; garras recentemente lixadas; olhos parecem devorar tanto quanto a bocarra. Paralisa.

Nota

Reverso

sentei-pra-te-escrever

Sentei pra te escrever estas linhas não tortas, mas avessas e, travessa, senti aqui… bem aqui nessa caixa feita de batimentos e ar rarefeito, que eu atravessava não uma ponte… não uma rua… mas um turbilhão de sentimentos inversos aos que eu queria te contar.

Revoltei-me: de dentro pra fora, no contrário de mim, expus-me novamente a esse gesto tão traquina que é escrever.

Agora vai.

Encontrei essa folha amassada num canto da gaveta e pensei que talvez fosse uma boa ideia, uma hora boa pra colocar algumas coisas aqui, agora que o frenesim passou e o mar parece calmo novamente.

Hei, talvez você a receba na semana que vem. Claro, se o moço, aquele que passa de casa em casa fazendo as correspondências e ligando os pontos, não se esquecer de passar na tua rua e nem de apertar a tua campainha. Só espero que ele não saia correndo… assim como fiz tantas vezes.

Hei, mas espera, acredita, ela vai chegar, talvez um pouco mais amassada do que quando a escrevi, mas sei que a entenderá, pois sentirá no toque do papel tudo aquilo que quis te falar.

Nota

Entorpecer

Dormi vinte dias
acordei semanas
do céu desabavam medos
e aqui dentro pingavam sonhos

os anos de repente caíram sobre mim
como chuvas torrenciais
incessantes… angustiantes
deixei as roupas molhadas pelo chão

o peso da chuva desbotou-me
amarelos azuis vermelhos
substituídos pelo cinza fúnebre
tentei vestir-me de vida

………………………
não consegui