Sobre a pele

O rosto já não era mais o mesmo, 
sentenças das noites insones agora se evidenciavam na face pálida e magra, 
a alvura ainda mais acentuada - desprovida agora do ar cândido -
e as olheiras ainda mais profundas a emoldurar olhos 
os quais um dia foram seu atributo mais belo. 
Na escrivaninha bagunçada os trapos da luta por produzir
algo que preenchesse não só o branco da página a latejar como enxaqueca,
mas também os vazios que insistiam em ecoar dentro,
reverberando medos e angústias. 
A xícara de café preto, agora frio e oxidado, 
marca o que vinha sentindo no espaço de maior vazão,
o miocárdio.
Escrevia por querer com sofreguidão, 
desesperadoramente,
que ele notasse os detalhes quando "parecia" observa-la 
- não notava. 
Nunca notou. No caderno anota apenas as centenas de ideias 
a brotarem, feito nascente, ao viver ao lado dela.
Anota incansavelmente. 
Escreve em seres inanimados e esquece que ao lado dele 
alguém pulsa, vibra, respira, sente, ama, 
e às vezes também se cansa.

Escrito ao som de Tartini: Devil's Trill Sonata.

 

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Nota

Não houve ninguém

Apesar do dia radiante que via pela janela, dentro era tudo sombrio e escuro. Levantou-se cedo, espiou rapidamente a vida lá fora e deixou as cortinas fechadas: acendeu apenas a luz fria do abajur azul da cabeceira. Contemplava gélida o espaço ao seu redor: as nuances dos raios solares a tocarem alguns móveis; as sombras dos livros na biblioteca; as roupas espalhadas pelo chão. Queria gritar, mas não havia força pra isso, e mesmo que o fizesse, quem a ouviria? A vida corria lá fora e ela se recusava a participar, não por falta de vontade, mas por medo. O que descobririam quando a vissem encarando o mundo? Não era uma pessoa fácil: os medos, incertezas e inseguranças dominavam os pensamentos; apesar do sorriso que insistia em levar nas raras vezes que punha os pés na rua. Era uma contradição ambulante. Nas mídias sociais era conhecida por aconselhar sabiamente pessoas exatamente como ela. Por que não conseguia aplicar seus conselhos para si? Ao observá-la digo que é por que tem medo de ser uma pessoa perdida, de que nada poderia ser aplicado a ela, pois não merece. Se ela pudesse me ouvir, diria para relaxar, olhar-se no espelho e ver, assim como eu vejo, a pessoa brilhante que ela é; mas infelizmente ela não me ouve, ela não ouve ninguém.

Nota

O dois

large– Respira!

Em um despertar firme acordei com o pronunciamento imperativo. Mais uma vez lembrou-me de realizar uma dessas ações fundamentais da vida humana: inspirar oxigênio e mandar embora o gás carbônico.

Talvez respirar não seja bem um ato involuntário.

Nota

Simbolista

5a053953b8b60ab0018b23153c5f6cc2Uma lágrima escorreu no canto dos olhos. O sal fazia arder o percurso entre os olhos e a boca após a agressão. Não soluçava. Não havia solução. Deixava as lágrimas escolherem o próprio destino, tão livres quanto um dia ela mesma fora. Agora só o medo da repetição.

Diante da cena, o passado que há tempos não reconhecia, contra o qual lutara bravamente para esquecer durante tantos meses, voltou a percorrer as esquinas escuras de sua mente escusa. Não se cansara de partir?

Na presença de tamanha angústia, tudo o que ele mais queria era transformar o toque das mãos no conforto que ela merecia; proporcionar no entrelaçar dos corpos o refúgio tão desejado. Naquele duro instante oferecia-lhe afagos, beijos, abraços intermináveis e o silêncio – o que ela mais precisava.

Ela sabia o quão difícil era para ele compreender tudo aquilo que se passava: ainda mais depois de tanta confusão e medo. Uma situação do passado, até então adormecido, que despertara como um gigante não só odioso, mas também desastrado que destrói inclusive seu próprio reinado.

Apesar de tudo isso, acima dos medos e angústias enfrentados, para ela o mundo ainda é um lugar bom.  Nele vive alguém com quem ela pode contar, ainda que existam inúmeras dificuldades e que os silêncios ecoem como gritos surdos.

Petrichor (n.)*

chuvarain

Sempre a mesma chuva, o mesmo som…

Encharcada, a varanda de madeira não convidava ninguém a se sentar; sequer para apreciar as intensas gotas que caíam a poucos metros da entrada: a menina de ondas no cabelo preferia espiar tudo através da brecha entre as cortinas. Embaçado pelo ar quente que saía por entre seus lábios aflitos, o vidro também castigado pelo tempo, possuía – apesar das duras penas – uma bela moldura colonial: o que proporcionava um charme todo especial àquele lugar.

Passava horas, por vezes dias sozinha naquele refúgio na mata. Ninguém a compreendia tão bem quanto ele, ainda que possuíssem recantos à primeira vista tão distintos: o dela, a casa de campo; o dele, as páginas de um bom livro.

De quando em quando ela perdia a noção do tempo ao observá-lo em seu habitat natural, sentia-se privilegiada por estar diante de tamanha poesia. Ocasionalmente, ele deixava as histórias do Oriente de lado e voltava o corpo e a alma para admirá-la distraída e leve em dias chuvosos.

Àqueles que por alguma sorte ou acaso tinham a chance de os contemplar, diziam que no fundo os dois estavam em sintonia em um mesmo recanto: a única diferença eram as ações empreendidas no ambiente. Ao fim, quando o sol rompia a meio das nuvens, os dois deixavam seus redutos à parte e juntos se encontravam na mesma varanda encharcada, apreciando o cheiro da terra após o contato com outro elemento. No fim, tudo era uma questão de reações elementares.

* O cheiro da terra depois da chuva.
Nota

E eu sei…

até elas, 
as estrelas da Primavera 
que despontam, agora, no céu verde 
sabem 
e 
entendem 
o que sinto por ti
pois 
assim como eu
te observam
Meu Amor, 
talvez
a grande beleza,
criação da natureza
sejas tu!