Dos cotidianos imagináveis #6

Mikhaël Theimer

Mikhaël Theimer

Muitos foram e serão os momentos que os dois compartilharão com aquele adorável item: na sala, no quarto, às vezes até na cozinha; apesar de ele detestar vê-la carregando-o para cima e para baixo pelo apartamento, de forma especial no local onde comiam – mesmo quando os dias eram tão frios que a vontade era de nem sair da cama. Mas era inegável que os dois tinham um apreço diferente por aquela peça: mas não importa. Caso aquele cobertor pudesse falar, diria que amantes não são feitos apenas de noites de sexo ardente, de brigas bobas ou discussões acerca do futuro; diria que antes de tudo eles são feitos de sonhos.

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Nota

Desenrolo

A briga
Embriaga

Em briga
Obriga

Abriga
Obrigada

Em frente

oldmanEm uma esquina fria da cidade, duas ruas muito diferentes se cruzavam: a primeira, arborizada do início ao fim – árvores centenárias, altas e distantes da floração -, marcada pela sombra e pelas calçadas modificadas pelas raízes a procurarem luz; a segunda, é seca, sem vida, os únicos sinais verdes são da luz do semáforo e as ervas daninhas que insistem em encontrar espaço na ciclovia. Nessa esquina de disparates, um homem na faixa de cinquenta anos e semblante sério parece apressado ao revirar todo e qualquer bolso que encontra nas roupas que leva no corpo. Na pressa de encontrar algo, deixa cair um papel meio amassado no chão. Ninguém vê, e se vê, não fala, não esboça qualquer intenção em ajudá-lo. O sinal abre convidando os pedestres a se sentirem livres para atravessar. O homem pisa com firmeza o pé direito na faixa e nem desconfia que o destino de sua vida foi recalculado, ou talvez eu só tenha ido longe demais.

Nota

Note:

às vezes as pessoas são como músicas que acabamos de conhecer.
Colocamos para tocar até cansarmos:
um interminável repetidor que nos faz amá-las ou nunca mais querê-las ouvir.

na minha estante: Literatura Portuguesa

portugalConfesso não lembrar de ter comentado por aqui que estou cursando Letras Português/Inglês, e, em virtude disso, minhas leituras estão bem direcionadas à Literatura Portuguesa – ainda mais porque fiz duas matérias referentes a isso esse semestre – e as leituras foram do clássico ao contemporâneo, incluindo poesia de Camões, Almeida Garrett e Cesário Verde. Hoje vejo que quanto mais estudo, menos sinto-me à vontade para criticar ou falar qualquer coisa sobre as obras, mas aqui vão alguns apontamentos:

  • Auto da barca do inferno – Gil Vicente [Editora Hedra, São Paulo, 2012- Teatro português]:

Recomendo muito a leitura da obra, principalmente na versão da Coleção Clássicos na escola da Editora Hedra, pois vem com notas de rodapé que ajudam na leitura, visto que Auto da barca do inferno, por ser uma obra do século XVI, apresenta um português diferente do nosso. É bom apontar ainda que apesar da superficialidade dos personagens apresentados na peça, acredito que a crítica de Gil Vicente pode ser vista inclusive nisso. Vale a leitura e ela é bem rapidinha!

  • Amor de perdição – Camilo Castelo Branco [Editora Diário do Nordeste – Romantismo]:

Enquanto estava na cadeia, o português Camilo Castelo Branco escreveu uma história de amor à Romeu e Julieta: o romance proibido entre Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, engrossado pelo amor não correspondido de Mariana por Simão. Li a obra em três dias e confesso que ela é um bom entretenimento, contudo, apresenta alguns problemas quanto às datas, nada que interfira muito seriamente no desenrolar da história e acredito que estava mais atenta a isso, pois meu trabalho no semestre foi apresentar o tempo na narrativa de O primo Basílio, logo, meus olhos estavam buscando informações como datas, anos e outros acontecimentos.  Minha dica é: se você não gosta de histórias como a dos jovens italianos de Shakespeare, não leia Camilo.

  • O primo Basílio – Eça de Queiroz [Editora L&PM, São Paulo, 2006 – Realismo português]:

Ai ai ai, o que falar do Realismo de Eça de Queiroz, bem, se você gosta de narrativas extremamente minuciosas a respeito do clima, das personagens e suas vestimentas, bem como do espaço que as cercam – do paninho do criado mudo ao quarto da empregada, bem, essa história é pra você. Em O primo Basílio, Eça descreve cada um desses detalhes como se estivesse a descrever a cena de uma fotografia. Visualmente torna a história bem mais próxima do verossimilhante, mas também a deixa bem devagar e acredito que seja por isso que eu não tenha gostado tanto. Contudo, a leitura me permitiu enxergar os elementos trazidos pelo autor de uma maneira diferente, pois você percebe que nem o livro que a personagem Luísa estava lendo durante a história foi colocado ali sem razão. Como conhecimento histórico da Literatura Portuguesa recomendo a leitura, pois foi o marco do realismo português, mas se você assim como eu não se prende tanto a descrições miúdas, prepare-se!

  • Ensaio sobre a cegueira – José Saramago [Editora Companhia das Letras, São Paulo, 1995 – Contemporâneo]:

Que delícia ler Saramago e poder mergulhar em sua visão nua e crua da humanidade, fica até difícil escrever sobre a obra sem parecer que quero vendê-la para vocês. Já fazia algum tempo que eu conhecia a história, pois tinha visto o filme de Fernando Meirelles, mas confesso que isso em nada atrapalhou minha leitura. O livro é tão bem escrito e a história tão bem contada que não tinha como não mergulhar. Entre os livros do semestre, este foi o mais gostoso de ler. Apesar das inúmeras cenas fortes narradas ao longo do cenário catastrófico da humanidade afetada pela cegueira branca, é impossível não se ver em uma situação como aquela e imaginar o que você faria ou como você seria. Gosto como Saramago trabalhou metáforas, símbolos, ditados populares e, principalmente, aquela partícula que nos faz humanos. Digo a todos: leiam e não se assustem com os diálogos entremeados à narrativa, a leitura flui como se você sempre tivesse lido daquele jeito.

Dos cotidianos imagináveis #5

Mikhaël Theimer

Mikhaël Theimer

Foi no meio de várias conversas superficiais, dos olhares focados no brilho dos aparelhos sem vida e nas disputas por curtidas e noites mal dormidas que notei, no canto do olho, uma luz intensa a emanar. Viva e cintilante, era algo diferente de tudo que já vi. Não se assemelha às lâmpadas frias a iluminar os centros comerciais ou os espaços residenciais, tampouco era chama de lampião, fogueira ou lareira, apesar de aquecer tanto quanto qualquer uma delas. A menina de olhos estrelados era uma forma de energia radiante e sua claridade não cegava quem estava ao redor; ao contrário, em sua humilde iluminação guiava como um farol os que a cercavam. Talvez por isso, como um marinheiro à deriva ou um solitário náufrago, eu a seguia: na esperança de encontrar terra firme.