Nota

Frágil

moreias

Moreias

A natureza me fez forte o bastante para sobreviver ao calor, ser resistente ao frio e encarar com maestria às duras chuvas, para então florescer em qualquer ambiente, mas lembre-se: eu continuo sendo uma flor. Dependendo da forma com que me tocas, ainda posso acabar despedaçada. Por favor, seja gentil e permita que minha florada aconteça, regue-me com delicadeza e poderá usufruir do aroma e das cores que trarei pra enfeitar tua vida, caso contrário…

Nota

Incompletude

Era um dia qualquer de novembro: após dias de sol a pino e céu azul com poucas nuvens; a grama verde começava a ficar ainda mais úmida, regada não só pelo orvalho da manhã, mas também pelas constantes chuvas de verão. Contudo, apesar da tendência sazonal, o clima parecia estranhamente mudar. Sentada no chão úmido, a menina de capuz azul demonstrava não se importar muito com os corpos vazios que a observavam ali sozinha. Quando a viu ali sentada entre as árvores secas do parque, quis logo fazer um retrato. Ele a observava a alguns passos de distância, ela de costas para ele estava com o rosto levemente direcionado para o imenso lago que havia diante dos dois. Atento, o fotógrafo amador dizia que os pensamentos pareciam brincar com a cabeça dela. Era como se por meio da fotografia ele percebesse o modo como todo aquele cenário a afetava: os dias que até então pareciam belos e infinitos, agora pareciam também contar o tempo no calendário, quem sabe alcançar rapidamente as cinzas marcas de estações que já se foram e que só deveriam voltar no próximo ano. Como os dias, a menina de olhar contemplativo parecia ter o mesmo temor: as cores monótonas e sombrias de outro tempo.

sem título

embaçada

Através da janela embaçada da cafeteria daquela famosa rua daquele grande centro urbano – agora deserto e um pouco sombrio – o observei dialogar com uma moça de cabelos longos e tão belos. Senti queimar em mim uma inveja dantesca. O sangue borbulhou e por um breve momento precisei respirar fundo para evitar uma cena de novela mexicana.

Na observação, todos os meus sentidos pareciam ainda mais aguçados. Havia muito barulho do lado de fora, me atentei, então, aos belos lábios dele. A boca abria e fechava; sorriu; abriu e fechou novamente os lábios. A dança da boca que tantas vezes beijei dizia aquilo que tantas outras ouvi em nosso refúgio particular, ao pé do ouvido, ou olho no olho. Uma lágrima escorreu em minha face. Teria sido, em algum momento, aquilo tudo verdade?