Mesa pra dois

Edward Hopper

Edward Hopper

Um dia típico de outono: as folhas das imensas árvores quase todas entregues ao chão; acompanhadas do vento frio e afiado que começava a cortar faces bronzeadas pelo verão sufocante e da vontade súbita de sentir o corpo todo aquecer com o gosto forte e amargo de café puro. Quando chegou à cafeteria, vestia o velho vestido vermelho que herdara da mãe, a capa verde pechinchada no antigo brechó e o chapéu amarelo do qual não gostava muito, mas do qual não abria mão quando saía em dias quase invernais. Com passos nada apressados, observou o ambiente e escolheu a mesa pra dois, próxima à porta de entrada. Sentou-se de costas para a rua, o movimento dos passantes despertava nela uma ansiedade incontrolável, da qual ela não queria ter conhecimento pelo menos pelas próximas três horas. O olhar vago por vezes despertava pena naqueles que estavam ao redor. Ela não notava. Apreciava cada gota que sorvia do expresso, como quem sente as gotas de chuva tocarem a face durante uma brusca chuva de verão. Nada mais importava no mundo.

Dos cotidianos imagináveis #4

Mikhaël Theimer

Mikhaël Theimer

Ele colecionava risadas em seu velho gravador de pilhas: altas, baixas, escandalosas, desarmônicas, musicais, sussurradas, espelhadas, só não conseguia registrar os risos amarelos. Ela, por sua vez, colecionava tristezas: profundas, escuras, mágoas antigas, melancolias e às vezes algum luto por alguém que partiu ou por quem nunca chegou. A única semelhança entre os dois era o hábito de armazenar aquilo que não é palpável, difícil de ser compartilhado. Em um dia feito só pra eles: descobriram-se. Ele descobriu que por trás do melhor riso, também haviam medos e inseguranças; e ela viu que apesar das dolorosas tristezas, elementos constituintes dos seres humanos, elas passam e sempre há um motivo para sorrir.

Represar

6b458d6530da8a8a43085061860516da

Existe uma represa em mim. As paredes de concreto são sólidas, firmes, não há nada que as impeça de fazer o que precisa ser feito: manter o que está dentro, dentro. Represo. Nada sai. A conta gotas, o pouco espaço que resta parece insuficiente para armazenar tudo o que a vida quer propor. Represo. As gotas – agora oceanos em si mesmas – derramam-se em mim e nada que eu possa fazer as manterá longe da tensão superficial a que são impostas. Eu mesma me imponho tantas coisas diariamente. Como julgar a água, tão pura e, talvez por isso, tão represada? Represo. A sala iluminada e aquecida pelo sol, agora parece escura e fria. Preso na garganta o grito represado por segundos. Segundos de inconstância, de medo, insegurança. Um intervalo tão breve quanto o último suspiro em seu ouvido. Talvez você não saiba – ou não queira mais – ouvir todo o aguaceiro que se forma nesse espaço também conhecido como caixa toráxica. Talvez, quando as comportas forem abertas, ou, quem sabe, quando os muros não suportarem mais e romperem com um estrondo excruciante, você escute cada milímetro de água a escapar de minhas ranhuras expostas, de minhas feridas doloridas, de minhas vistas esgotadas. Tarde demais. Melhor fechar os olhos e esperar o novo dia.

Das notas de Adèle

It’s calling you

CfCylvXWsAA3JrA

Tu me olhas e pareces despontado; pareces desaprovar minhas atitudes. Iluminados por velas: os rostos divididos, partidos, rompidos. As chamas a dançar não transmitiam qualquer calor; a luz é fraca e o medo ecoa em berros dantescos em mim.

Em ruínas, ponho-me a chorar.
Tu me olhas e parece não se importar.

Quantas pessoas já fui? A qual delas tu dedicastes teu amor? Em qual dos teus turbilhões me perdi? Ou será que me achei?

Nota

Here they come

E se eles forem apenas espelhos interplanetários?