Dos cotidianos imagináveis #2

Mikhaël Theimer

A saudade era tanta que escorreu bem ali nos gentis e protetores braços dele: cada lágrima era um dos muitos quilômetros que precisaram vencer para estarem novamente perto um do outro. Se as estações de metrô pudessem falar qualquer coisa, diriam o quão difícil é assistir a esses encontros sem, por algum momento, sentir vontade de encontrar braços abertos assim.

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Palavreando

E quem te vê sempre belo,
será que te vê verdadeiro?

E quem te vê sempre belo,
não te vê, verdadeiro?

E quem te vê sempre belo
será que te vê verdadeira
mente?

Dos cotidianos imagináveis #1

Mikhaël Theimer

Mikhaël Theimer

O tic-tac apressava os batimentos já acelerados pelo calor do momento, bem como pelo pesar da despedida. Era inútil lutar contra os ponteiros que corriam ligeiros nas maquinações do relógio, mas apaixonados podiam pelo menos fingir por algum tempo que só existiam os dois no mundo. Se aquelas esquinas pudessem falar, diriam que o momento mais difícil na vida de qualquer casal é atravessar.

Nota

Onze dias de fevereiro

Elas vertem e escorrem sem qualquer permissão, sem pudor percorrem um curto caminho: dos olhos até as curvas de meus lábios cor carmim. O gosto salgado desperta memórias afetivas de um passado que agora parece pertencer a outra pessoa.

Já se sentiu um ladrão de recordações?

Sinto-me assim quase que diariamente: angustiada por possuir em minha mente lembranças que não são verdadeiramente minhas.

Toco minha face a fim de certificar-me que algo é verdadeiramente meu. Certifico-me se as lágrimas escorreram de meus olhos tristes ou se são algo que tomei como meu também.

Com certa alegria descubro o caminho das lágrimas agora seco. Às vezes o caminho árido também é sinal de alguma vida.

dos rascunhos

Nota

Inferno astral

O relógio desperta alguém terrivelmente esgotado: este, por sua vez, já bastante condicionado, acorda, coloca os dois pés firmes no chão e – sentado – leva as mãos ao rosto e se pergunta qual a razão para tanto esforço. O cômodo vazio não o responde. O sol ainda não alcançou o recôndito espaço de pouquíssimos metros quadrados. A angústia o corrompe e sua vontade é desistir antes mesmo de dar o primeiro passo. Qual o próximo passo? Primeiro, voltar para a cama e aceitar que existem dias nos quais nada de produtivo acontece; segundo, levantar e fazer o possível para reverter o placar e quem sabe esquecer que momentos negativos acontecem para todos; terceiro, é necessário mesmo? Para agora, para as emoções que venho sentindo agora, talvez voltar para a cama seja a solução mais sensata.

do diário de Adèle

O sabor da lembrança

Gostava do café bem preto e forte, assim como gostava dele tão adoçado quanto melaço. O bebia em uma caneca velha de alumínio que preservava no canto esquerdo do balcão que comprou de um desconhecido mascate. A caneca permanecia ali pelo tempo que fosse necessário para esvaziá-la, mesmo que isso significasse beber café frio e, por que não, meio oxidado.

Era uma tradição que ela jamais se sentiu capaz de compreender e sobre a qual ela jamais teria a oportunidade de perguntar, mas que de algum modo a marcou de maneira particular. Assim como as inúmeras vezes que ele limpou os dedos lambuzados na tolha da mesa.

Ou ainda a maneira como ele dirigia sério, sem ligar o rádio. Música só quando estava sozinho: era um momento para ser apreciado sentado na velha poltrona reclinável. Tirava os óculos de aros grossos e escuros, fechava os olhos e deixava a música tocá-lo.

Cada um desses detalhes me preenchia como se eu pudesse sorver em mim um pouquinho de quem ele foi. Preservar memórias como num baú vivo.