Palavras

por Thalia Kasiorowski

Ela era uma moça hílare. Ele, um rapaz finissecular. E estas palavras, tão distantes do uso comum, não foram escolhidas aleatoriamente. As duas pessoas em questão presenteavam um ao outro com palavras. Pode causar estranhamento em quem não nutre afeição pela linguagem, mas, para você, caro leitor, que está neste exato momento usufruindo – ou tentando usufruir – do prazer que a leitura lhe proporciona, tal forma de presentear fará sentido. Ou até mais que isso.

Numa conversa de fim de tarde, conversa simples, num dia sem excentricidades, com o sol se pondo ao longe, a brisa a agitar calmamente os cabelos que lhe caem aos ombros, como se até o vento desejasse acariciar um rosto com um sorriso tão terno e sincero. É exatamente nessa situação que podemos captar a essência hílare da garota. Há quem possa dizer que é sinônimo de “contente”… Não, não podem ser sinônimos – até porque não há sinônimos perfeitos. O que temos aqui extrapola o contentamento. É uma paixão pela vida. É o esforço em manter aquele sorriso afetuoso em sua face a qualquer custo.

Mantenha congelada a cena descrita, e acrescente um homem com boa postura e fina educação. Como se aqueles tempos de desamarras com tradições cavalheirescas e demasiado uso de gírias e abreviações simplesmente não lhe pertencesse. Finissecular. Note que esse fim de século não se refere a algo antigo, tampouco se refere a algo palpável. Não aqui. A referência é a uma alma que não aceita certas mudanças e insiste em permanecer… Clássica! Adicione, ainda, um bom vinho e um livro de Edgar Allan Poe no mesmo cenário. Ah, e também algumas castanhas! Pronto, a figura do rapaz finissecular está completa.

Agora sim, com as apresentações feitas, podemos refletir sobre a essência dessa dupla um tanto peculiar. Possuidores de uma singular troca de palavras. E, afinal, o que é uma palavra? Podemos nos aprofundar longinquamente em estudos linguísticos, mesmo assim não obteremos uma resposta absoluta. O conceito é tão abstrato que ainda não houve nem unanimidade científica. Todavia, aqui estão nossos dois personagens, carregando o feito de capturar a essência de um ser em uma única palavra. Todos termos técnicos não importam depois de entender o significado. Significado que, de sublime maneira, eles compreenderam.

Espera-se, então, um final romântico para um casal tão adorável. Lamento decepcionar. Não temos um casal apaixonado que terminará a história com um beijo sôfrego de amor debaixo da sombra de uma árvore. Definitivamente não. Os dois são apenas pessoas sensíveis e altruístas que contentam-se com a troca de palavras.

Talvez eles consigam alguma especial para a relação entre eles também. Assim, o dicionário vai aumentando e a vida vai passando, encarregada de ordenar todas aquelas palavras soltas no ar, para que façam sentido no último ponto final.

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