Princípio

Eu te encaro: o olhar que me devolve não me entrega nada; nem uma mísera palavra de suporte ou reprovação.

Eu te encaro: e, em mim, uma apreensão se forma tal qual tempestades em dias de céu claro; repentina e violentamente.

Eu te encaro: uma lágrima escorre, não tenho palavras para te entregar também.

Tudo permanece como estava: a caneta repousa maldosa ao meu lado.

Nota

Mar-íntima

eb6be9737cb5e4573c930c651101de92Ela tinha olhos tão profundos quanto os oceanos e uma química com o mar de invejar qualquer marinheiro experiente. Às vezes, submersa em densos pensamentos, esquecia que não estava sozinha a navegar em mares turbulentos: olhava para a linha do horizonte, os olhos marejavam e sorrisos leves apontavam em seus lábios rosa.

Ele, atento como sempre, cauteloso em relação aos perigos do mar agitado, a observava de uma distância segura. Cada vez que a via franzir o cenho, o coração apertava e sentia falta de ar, como quem há muito mergulha sem conseguir emergir.

“Teus olhos são águas profundas, Menina”.

Voltando a face em direção àqueles olhos de enseada, sorriu de maneira doce, saindo do transe em que se encontrava. Ele tinha essa habilidade única de provocar-lhe calmarias, de fazê-la sorrir, de fazê-la sentir-se única no mundo.

Por essas e outras razões, ela também queria fazê-lo sentir-se único no mundo, dessa forma, compartilhava seus momentos mais íntimos com ele: o silêncio restaurador, a brisa do mar que acalenta e um barco balançando levemente para embalar os sonhos dos apaixonados. No seu mais profundo, ela queria encontrar as palavras certas para agradecê-lo por tudo o que tem feito.

Respondia torto

Teus olhos
Nem sabia que era possível
Tanta beleza assim
Tanta docilidade enfim
Ser tão feroz

O olhar delicado
Num mal olhado
Transfigurou-se
A candura de outrora
Loucura parece agora

Desvairada
Alienada
Alucinada

Só pude notar
A resposta torta
A sair lâmina da tua boca

Recôndito

9146fbf7110115e2ffb61695dbb14528Nesse tempo que temos nos conhecido acredito que você nunca me viu num dia ruim. É bem provável que isso tenha acontecido porque, primeiro, sinto-me muito bem quando estamos juntos, não há motivos para me abater ou para afastar o sorriso da face; segundo, tenho uma tendência a manter certas emoções em um sacrário: a melancolia é uma dessas. Perdoe-me, não é por mal, não é por que não confio em você, nada disso, simplesmente acontece; como disse, é uma tendência, e existem algumas bem difíceis de mudar. Além disso, não gosto de sentir que estou trazendo cargas desnecessárias às pessoas. É o tipo de sensação que faz com que eu sinta o peso da responsabilidade somar-se ao estado sorumbático. Quero tanto que os outros sejam felizes que não permito, por nenhuma razão, lançar sobre eles qualquer sentimento negativo. E isso cabe também pra ti. Não quero que o teu riso fácil saia do seu rosto. Em determinadas situações, para evitar teu olhar que tudo percebe, me escondi às suas costas para que não notasse o olhar cabisbaixo e perdido, assim como os olhos que começavam a marejar com vontade de desabar no teu peito. Perdoe-me. Um dia eu encontro a chave que mantém tudo isso engavetado aqui dentro e apresento pra ti.

notas esquecidas

Palavras

por Thalia Kasiorowski

Ela era uma moça hílare. Ele, um rapaz finissecular. E estas palavras, tão distantes do uso comum, não foram escolhidas aleatoriamente. As duas pessoas em questão presenteavam um ao outro com palavras. Pode causar estranhamento em quem não nutre afeição pela linguagem, mas, para você, caro leitor, que está neste exato momento usufruindo – ou tentando usufruir – do prazer que a leitura lhe proporciona, tal forma de presentear fará sentido. Ou até mais que isso.

Numa conversa de fim de tarde, conversa simples, num dia sem excentricidades, com o sol se pondo ao longe, a brisa a agitar calmamente os cabelos que lhe caem aos ombros, como se até o vento desejasse acariciar um rosto com um sorriso tão terno e sincero. É exatamente nessa situação que podemos captar a essência hílare da garota. Há quem possa dizer que é sinônimo de “contente”… Não, não podem ser sinônimos – até porque não há sinônimos perfeitos. O que temos aqui extrapola o contentamento. É uma paixão pela vida. É o esforço em manter aquele sorriso afetuoso em sua face a qualquer custo.

Mantenha congelada a cena descrita, e acrescente um homem com boa postura e fina educação. Como se aqueles tempos de desamarras com tradições cavalheirescas e demasiado uso de gírias e abreviações simplesmente não lhe pertencesse. Finissecular. Note que esse fim de século não se refere a algo antigo, tampouco se refere a algo palpável. Não aqui. A referência é a uma alma que não aceita certas mudanças e insiste em permanecer… Clássica! Adicione, ainda, um bom vinho e um livro de Edgar Allan Poe no mesmo cenário. Ah, e também algumas castanhas! Pronto, a figura do rapaz finissecular está completa.

Agora sim, com as apresentações feitas, podemos refletir sobre a essência dessa dupla um tanto peculiar. Possuidores de uma singular troca de palavras. E, afinal, o que é uma palavra? Podemos nos aprofundar longinquamente em estudos linguísticos, mesmo assim não obteremos uma resposta absoluta. O conceito é tão abstrato que ainda não houve nem unanimidade científica. Todavia, aqui estão nossos dois personagens, carregando o feito de capturar a essência de um ser em uma única palavra. Todos termos técnicos não importam depois de entender o significado. Significado que, de sublime maneira, eles compreenderam.

Espera-se, então, um final romântico para um casal tão adorável. Lamento decepcionar. Não temos um casal apaixonado que terminará a história com um beijo sôfrego de amor debaixo da sombra de uma árvore. Definitivamente não. Os dois são apenas pessoas sensíveis e altruístas que contentam-se com a troca de palavras.

Talvez eles consigam alguma especial para a relação entre eles também. Assim, o dicionário vai aumentando e a vida vai passando, encarregada de ordenar todas aquelas palavras soltas no ar, para que façam sentido no último ponto final.

Incendiário

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Uma palavra. Uma dúvida. Inúmeras motivações.

Cinco letras escritas com giz branco no quadro negro de uma escola ao norte da pequena, mas majestosa Bordeaux, afastada por quilômetros de qualquer lugar movimentado. Próxima a um imenso lago negro, o lugar é palco de um mistério que intriga moradores locais há mais de uma década. Muitos gostam de afirmar que a palavra refere-se apenas a mais um dia de aula no mês de abril, outros preferem acreditar que as ruínas indicam, na verdade, um grande equívoco.

Alheio a crendices, lendas e contos da carochinha, o jovem Benjamin escolheu Bordeaux como destino das férias primaveris. O clima frio e úmido trazido pela névoa e o ar de abandono, provocado pelo silêncio da região eram muito mais do que ele buscava ao sair da bela, mas barulhenta Paris. Depois de anos de estudo, dedicação e pesquisa na Sorbonne, Ben não via a hora de descansar e meditar à beira d’água, ouvir o som dos pássaros e ter o vento como companhia.

Hospedado próximo ao Parc Floral, o cientista político, formado com louvor aos 22 anos, no auge  de sua juventude, caminhou por horas pela região e sentou-se no velho trapiche que dava acesso aos barcos do lago. O tempo passou, a direção do vento se alterou e ele não pode ouvir o badalar do sino às cinco horas da tarde, distraído, permaneceu por mais uma hora na posição de meditação.

A noite começava a dar sinais de sua chegada e o clima frio despertou Ben de volta à realidade. No entanto, o passar silencioso das horas e o céu escuro colocaram-no diante de uma encruzilhada: não sabia mais em qual lugar estava.

continua…