sem título

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Uma voz no teu âmago clama na tentativa de romper o silêncio brutal da tua alma; mas teu quarto está quieto, tal qual a superfície de um lago que, de tão ermo, nem mesmo o vento impera sobre sua superfície; nem sequer uma pequena vibração incomoda os vidros da janela, ainda que esta saiba ser uma cidadã de Pompeia. Tudo é silêncio no interior do teu mundo por tantos momentos, que a própria vastidão do tempo parece insignificante: a contagem interminável das horas gastas em infindos pensamentos; espécie de tortura que a si impõe como punição por estar sempre tão à frente, tão distante dos demais na primeira posição.

As lágrimas que precisa chorar, pelo rosto não escorrem, insistem sim em permanecer desérticas em algum lugar tão desconhecido, que nem você sabe ao certo como localizá-las, ainda que necessárias em absoluto. A voz embargada, o passo pesado, cordilheiras inteiras apoiadas por sobre teu ombro, não bastasse tal fado, ainda inventa maldições para instigar mais dor, mais sofrimento por tua via sem redenção, sem repouso, um vagar interno e eterno, errando pelas esquinas da melancolia e os becos da desilusão.

Mas você sabe por onde pode enveredar para sair deste lugar, romper com a janela, grade do teu quarto, libertar teu espírito, que aprisiona nessa masmorra; basta lembrar-se de que não importa quão intensa seja a tempestade e quão pequeno seja, findada a tormenta, cantará fortemente o teu passarinho. Afinal, eles passarão, você…

texto de L. R. Andreatta

Manuseie com cuidado

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Apesar de brincar com as linhas das mãos macias, não era cartomante, não saberia dizer nada sobre o futuro – nem se sua vida dependesse disso. Também não saberia dizer muita coisa sobre o presente que rapidamente se transfigura em páginas rabiscadas. As páginas em branco não o assustavam, não era o futuro que temia, e as páginas preenchidas não o entretinham mais. Como bom observador, as mãos eram seu novo objeto de estudo. Avaliava cada curva, cada contorno delicado: da palma ao dorso; do pulso à ponta do dedo; conhecia cada caminho passível de percorrer. As admirava como um fiel diante da catedral. O fascínio transbordava de seus olhos, a boca buscava cobrir cada centímetro daquele espaço, com toques apaixonados e quentes. Um dia sagrado.

Estranheza

Park-Bench

Das estações já não lembrava nem mais os nomes, quem dirá do clima do último dezembro. Das belezas que conheceu um dia, mal conseguia reter em sua memória fatigada as lembranças do tempo de menino. Das flores, as únicas a desabrocharem diante da face cansada eram as que corriam no gramado em frente a ele, não conhecia nem mesmo o aroma inebriante, apenas imaginava o quão frescas seriam. No banco do parque, seu único e verdadeiro amigo, constatava saber não ser um homem de muita sorte: o sol frio rompia no céu e ele continuava encarando as sombras. Matava o tempo do modo costumeiro: observava as flores que não podia colher, entristecia-se e punha-se a vaguear solitariamente pelas ruas cheias de almas desertas. Tendo na loucura sua mais estimada amante, encarava o destino que se apresentava diante de si, os mares profundos o convidavam a mergulhar, mas ele insistia em permanecer ali. A perna doía, as costas ainda mais curvas e o olhar a encarar o que havia de pior nas calçadas da cidade. Só, degustava um prato frio com uma xícara seca de chá. Intranquilo, tolo e pobre, a compressão na perna o fazia gemer – tal qual moribundo – agora, as flores apenas ornamentavam o espaço vazio que ficou no banco.

Desafio feito por L. R. Andreatta (Jethro Tull – Aqualung)

Decifra-me

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Conheço de cor tua fama de durona, que gosta de tornar público o famoso lema de “pode deixar que eu me viro”. Tola, nem ao menos percebe que aquele que te conhece descobre a verdade em apenas uma ligeira troca de olhares. A dor escondida atrás do sorriso, os olhos a desviar constantemente – preocupados com a possível chance de ser desmascarada – te denunciam a cada instante. Olhos esses incapazes de ocultar aquela centelha a indicar sentimentos divergentes. Você nunca foi muito boa em mentir, admita. De suas incontáveis habilidades, proferir como verdadeiro o que é falso não é algo pelo qual as pessoas se lembrem de você. A questão é que elas lembram de você e você esquece de si. Nada relacionado a amnésia ou qualquer coisa do tipo, é um tipo de esquecimento que coloca o outro em posição de destaque. E não me entenda mal, isso não é uma crítica, na verdade é muito bom não ser boa com mentiras, mas não é tão bom assim ser aquela a quem as pessoas recorrem para descarregar as energias negativas. Até quando você vai permitir que elas abusem de você?

Devotos

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Tem algo no modo como ele sorri para mim que me faz querer cantar a plenos pulmões. Canto e o sorriso cresce, suponho que alimentado pelas engraçadas feições de alguém que canta sorrindo e erra o refrão, só porque quer começar a rir também. Um círculo vicioso. Ele ri. Eu rio. Ele ri. Nos desaguamos em um oceano de algo que acredito ser felicidade, mas talvez, quem sabe, o nome disso seja amor.

Motor imóvel

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Era madrugada, a rua estava silenciosa e a noite era fria e chuvosa. Os poucos corajosos a caminhar falavam baixo, respeitavam os sonos dos ajuizados, algo bastante atípico para aquela região. Bernardo era um deles; o andar cabisbaixo denunciava as muitas horas a que tinha se dedicado naquele dia. Cansado, deixou a mente viajar e então parou. Em uma escura encruzilhada no centro da cidade o menino de sorriso doce se questionava a cada instante “o que me faz dar cada um desses passos em direção ao meu destino final?” O tardar da hora não o assustava, na verdade, ele já nem o reconhecia mais. A pergunta o corroía. “O que me move?” Não sabia responder. Naquele exato minuto, sua única motivação era chegar até em casa, tomar banho e largar-se na cama. Triste diante de tal constatação, fechou os olhos e a viu. Inconscientemente, o sorriso tímido dela saltou diante dele e então suas memórias começaram a provocá-lo: o perfume da pele dela ao sair do banho, as risadas doces dos momentos a dois, o toque macio da mão dela deslizando pela nuca e os olhos tipo oceano, daqueles que todos querem arriscar mergulhar. Em um ímpeto de bravura e determinação, Bernardo voltou a caminhar, não mais em  direção ao lar frio e escuro, mas à fonte de seus movimentos.

Desafio proposto por L. R. Andreatta