Free Spirit

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Ele tem uma aptidão natural de olhá-la tão profundamente, que às vezes Ella sente como se ele soubesse ler e descrever cada pensamento, cada detalhe secreto da composição física e emocional dela. Tudo isso feito com um esmero e carinho sem precedentes. Os olhos, em tons verdes, semelhantes aos da praia com a qual um dia sonhou mergulhar, possuem intensidade, força e ainda um elemento não descoberto, alguma coisa que lhe atribui uma magnética sensibilidade, traços responsáveis por surpreender a menina de modos timidamente espontâneos, pois eles despem a alma e revelam-no algo que a doce menina só pode imaginar ser encantadora e singular – um mistério para ela -, pois ele sorri um desses sorrisos constantes e enigmáticos, que a cativa ainda mais. Por vezes, quando os olhos se desencontram, muitas vezes porque ela, nos momentos em que a alegria quer explodir em risos abafados e bobos, os desvia rapidamente. No entanto, ela sente que ele ainda a olha admirado. Talvez o menino de olhos bonitos apenas esteja querendo registrar aquele momento para sempre ou, quem sabe, ele sinta sede de mistérios.

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Incendiária

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Não era uma noite fria, nem escura, não havia motivos a comemorar e o silêncio corrompia os tímpanos e amedrontava um corpo já em ruínas. Não havia ninguém por perto, nem sequer um transeunte a vagar, alguém que pudesse ajudá-la a dar um novo passo. Sozinha, riscou os fósforos e os aproximou dos primeiros olhares trocados no edifício frio da Avenida Liberdade; dos primeiros sorrisos ofertados ao dobrar as esquinas da Praça Central; do primeiro beijo, meio desajeitado, dado numa tarde quente de inverno sob a árvore perto do antigo museu. As chamas consumiam aos poucos as noites estreladas e os céus azuis de brigadeiro. As centelhas desenhavam o irreal, subiam alto e tal qual o que ela desejava: desapareciam. Aos poucos, os olhares e sorrisos reproduzidos sobre a superfície fotossensível encolhiam, contorciam e dissipavam-se diante de seus olhos. Bem, mas as memórias, ah! as memórias, elas têm o dom de se esconder nos lugares mais escusos. As reminiscências têm inclinação a brincar no hipocampo, na amígdala e no córtex entorrinal. Ela já as tentou caçar, mas, danadas, elas sempre encontram um novo lugar onde reinar. Ao fim, esgotada, nota o fogo se findar. As cinzas se acumulam diante de seus pés e as lembranças que tanto quis afastar, bem, essas ela carrega eternamente consigo, em algum lugar que ela não sabe precisar, mas que, diariamente, dão o ar da graça só para azucrinar.

Notas antigas

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Nem vou perguntar se está tudo bem com você, pois, na condição em que está, fica difícil dizer algo mais otimista do que “levando”. Eu entendo, de verdade, também não saberia o que responder. Bem, falando em dificuldades, imagino que o grau de complicações ganhou alguns pontos depois da descoberta da doença. Meu coração se aperta. As coisas parecem ainda mais difíceis depois que tudo aconteceu com ela há tão pouco tempo.

Consigo imaginar a falta que sente dela (até mesmo das brigas e puxões de orelha). Eu sinto todos os dias. Sinto a morte como uma ferida que cicatriza, mas não sara: coça, incomoda e de vez em quando vem uma dor fantasma pra lembrar que um dia tudo aquilo arquivado em nossas mentes existiu e é verdade.

Talvez tão difícil quanto a dor da partida seja ter de lidar com o vazio com o qual nos deparamos todos os dias: os horários favoritos a se projetarem na programação da televisão, a velha cadeira de ler e trabalhar que agora só balança com o vento do inverno que se aproxima, a cama e seus cheiros familiares, os hábitos alimentares e tantos outras rotinas que às vezes nos pegam de surpresa e nos deixam ali sem saber como lidar.

No fundo, tudo isso é só pra te dizer: “hei, você não está sozinho”. Mesmo a alguma distância de você eu sinto todo esse vazio também, a sensação de impotência diante da impossibilidade de poder falar com ela me corrói tanto quanto a você. Sinto falta de ouvir sua risada e contar as novidades ou simplesmente jogar conversa fora como estamos fazendo agora. Às vezes já é tarde da noite e me pego falando sozinha, lembrando momentos e chorando baixinho, mas toda noite, mentalmente eu digo “amo você” e acabo dormindo.

Julho de 2012

Bolso cheio

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Meu andar era leve tal qual manada errante. Eu encarava as pedras da calçada como quem olha de frente um imenso desafio a superar, um desfiladeiro a saltar, um sentimento a enfrentar.

Sentia-me diante de um mundo que repentinamente decidiu se alojar em meus ombros. Tudo o que queria era gastar horas embaixo do chuveiro, abandonar-me na cama e esquecer tudo.

Conquanto, no meio do caminho, entre um passo grosseiro e outro, ele chegou até mim: cabisbaixo; o olhar tão perdido quanto o meu; lágrimas rolando ilimitadamente pela face pálida.

Ao vê-lo assim, rendi-me. Mais rápida que a lágrima a escapar de meus olhos, peguei cada problema que se agigantava em mim e os recolhi, escondi o que pude e entreguei-lhe o meu melhor sorriso.

Quando um amigo chega até mim com um problema, eu recolho os meus e os guardo no bolso. Quem sabe um dia, ao vasculhá-los, eles já não sejam tão intransponíveis assim.

do diário de Olívia

Volúpia

Via: Pinterest

Via: Pinterest

O cheiro de grama recém cortada a faz um convite irrecusável. É verão e as buscas se resumem em qualquer coisa os faça esquecer dos números que insistem em subir no termômetro de rua. Ao final do dia, a benção dos céus a chuva toca o asfalto quente e o aroma de terra molhada se confunde com perfumes familiares na cafeteria da esquina, onde ela buscou abrigo. O café com leite, o chocolate derretendo lentamente na boca, o chocolate quente que é entregue na mesa ao lado: momentos de pura sinestesia.

A chuva abranda e ela pode seguir seu caminho até em casa. Encontra as chaves no fundo da bolsa de pano, abre a porta, tira os sapatos e anda descalça pelo pequeno apartamento que alugou há pouco tempo. Com o corpo um pouco frio depois do banho de chuva, prepara um chá quente e entrega-se a um banho demorado. O sentimento é o mesmo de estar diante de uma cachoeira ou flutuando em alto mar, ou ainda viajando, conhecendo outras pessoas e lendo. Livros novos, um cheiro do qual ela jamais desapega.

Depois de algum tempo bebendo chá e observando o céu róseo que se mescla a chuva, rabiscou algumas palavras em seu antigo diário e passou o resto do dia de pijamas, embaixo das cobertas, meditando e ouvindo um cantor novo tocando ao longe. Quis dançar, mas lembrou que as cortinas ainda não haviam chego e que o casal vizinho poderia vê-la livre demais.

Então lembrou-se que a vida era curta demais para perder qualquer momento com opiniões alheias. No final do dia, tudo o que ela sabia era que mesmo os pequenos e mais simples prazeres da vida, como dançar descalça sem se preocupar, podem fazer milagres nos dias mais difíceis.

notas sobre Adèle

Quando vem

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Você tem um jeito tão doce de dormir quando está feliz: de bruços, as costas nuas, o rosto virado para o lado esquerdo da cama e o ombro esquerdo encostando gentilmente no queixo, as pernas dobradas de maneira peculiar. Te olho e te vejo pronta a entregar-se completamente ao sono.

Gosto de te observar dormir. Acho que já deu pra notar. O modo como você respira e parece sorrir mesmo sabendo que sou eu quem está ao seu lado. Nunca entendi porque você me permitiu entrar na sua vida. Às vezes penso que você sonha sonhos impossíveis e só por isso ri, porque eles são só teus.

Sorrio ao te ver tão serena, tão feliz. Sentado na poltrona próximo à cama, fecho os olhos e escuto um sussurro doce vindo de um lugar mágico: “é porque te amo”.  Impossível não me envolver ainda mais.

notas de Bernardo