Shiritori*

Chiang Liu

Chiang Liu

E de repente começamos um jogo frio, tão congelante quanto o olhar dela para mim numa noite quente e furiosa na qual discutíamos questões que nem nos interessavam de fato. Aos olhos e ouvidos alheios, aquela discussão parecia totalmente desconexa, sem sentido, inútil. Para nós, foi o modo que encontramos para expressar sentimentos encarcerados.

De um lado havia esperança, do outro dúvida e incertezas. Eu disse amor, ela respondeu morno. Eu disse nota, ela devolveu taciturno. Eu disse nome, ela me entregou melancólico. Tentei covarde, chorou debate. Sussurrei teto, ela respondeu tolhido. Experimentei doce e ela devolveu cego. Gritei gota, ela vociferou tapar. Chorei partida, calma ela soluçou danificado.

Olhei nos olhos dela, os olhos claros agora pareciam duas quedas d’águas. Concomitantemente, a cena era bela e triste.

Haviam inúmeras palavras que poderia usar para replicar sua última cartada, mas não importava o quanto tentássemos, ambos se encontravam derrotados. Eu porque não queria deixá-la partir. Ela porque não queria me fazer sofrer.

Alguns finais são assim: não importa de quem seja a última palavra, ela jamais será capaz de descrever ou sintetizar tudo aquilo que significou dado momento.

das memórias de Bernardo
sobre Valentina

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* É um jogo japonês de palavras com regras bem simples: um jogador começa com uma palavra; cada jogador deve continuar com outra que comece com a última letra (sílaba) da palavra anterior; só valem substantivos; não pode repetir palavras; o jogador que falar uma palavra que termine com n (ん) perde o jogo, pois não existem palavras que começam com essa letra em japonês. (Para esse texto valeu a regra da sílaba).

Os afogados

Zachary Snellenberger

Zachary Snellenberger

Sabatina. Um sábado de sol e céu azul preenchido, paradoxalmente, por uma oração que mal encontra o caminho entre os lábios quase fechados. Tudo o que escapa é um ar miúdo, desses que tem medo de ser descoberto fora da boca. Preocupo-me.

Eclesiástico? Não, apenas alguém de fé. Não uma fé carola, dessas que bate o ponto, mas que ao deixar o templo vira a cara para o irmão que agoniza na rua. É uma crença mais pé no chão, algo quase literal, pés descalços e um olhar de compaixão para o próximo. Nada obrigatório, nada formal. Mas e o que sinto agora?

Nada, a não existência, o que não existe, coisa nenhuma, coisa vã. Assusta! Por quê? Não sei dizer. Apesar da fé e da convicção, é como se uma densa névoa cobrisse os pensamentos e sublimasse as certezas que até então estavam solidificadas em mim.

Temo. Não algum ser supremo ou o espírito infinito e eterno, este eu sei que é feito de amor e compaixão, apesar dos homens insistirem em demonstrarem o contrário. Temo a mim, que por diversas vezes sabia o que estava impresso nas páginas amarelas dos livros, mas não sabia o que fazer com elas no espaço físico do convívio com outro ser humano. Tudo baseado no teórico, não naquele quem escreveu, e sim no conhecimento apenas acadêmico da vida. Repetia inconscientemente fórmulas e teorias que não eram minhas. Mas e onde estão minhas verdadeiras dimensões?

Icnograficamente, acredito que a seção que as apresentava estão em uma sala de minha casa, numa gaveta velha de madeira que hoje está um pouco emperrada. Minhas dimensões esquecidas, manchadas, borradas e ilegíveis, prestes a serem descartadas. Por quê? Não sei dizer. Talvez porque precise repensá-las.

Reescrevê-las? Não. Não penso mais em pô-las no papel. O mundo já está cheio de teorias, hipóteses e crenças. Sinto que alguns pensamentos merecem ser apenas internalizados.

Sté

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Não lembro como nos conhecemos. Sinceramente, esse tipo de informação não é a mais relevante para mim. Minhas mais duradouras amizades são essas que começaram quietinhas, de um modo tão natural que é como se eu já tivesse nascido com elas ao meu lado. E com ela não foi diferente, engraçado né?! No mundo de hoje parece tão difícil desenvolver laços fortes com alguém, ainda mais pela internet. Mesmo a internet tendo sido a ponte dessa amizade, gosto de pensar que nos conhecemos fora do mundo virtual, acho que nunca contei isso pra você, Sté. Mas imagino algo como nós duas, sentadas num Café, por acaso lendo livros de um mesmo autor, e então vamos pagar a conta e começamos a trocar ideias sobre os livros e de repente os laços de amizade já estão feitos.

Penso também que por algum motivo preciso me mudar e a distância fica grande, e tomar um café já não é algo pra se fazer diariamente. algo que não é facilmente resolvido, mas que o mundo das mídias sociais permite nos manter próximas e então, é o dia do aniversário dela e a minha vontade é de cantar parabéns pessoalmente, dar um abraço bem apertado e passar o dia comendo besteiras e falando sobre a vida. Contudo, a distância impede e o meio que encontro para comunicar essas coisas, novamente, é por meio das mídias sociais.

Então, Sté, querida, hoje, em virtude dessa distância física, não posso te dar um abraço, mas quero desejar a você a maior felicidade do mundo, mas só um lembrete: a vida não é feita apenas de dias felizes, se não fosse os dias nebulosos, nós jamais daríamos valor para os momentos felizes. Outra coisa, sempre digo isso e agora reafirmo, espero que a vida seja gentil com você e espero que nos dias em que ela resolva te apertar um pouco, que não faltem ombros amigos, chocolates quentes e livros para te confortar. Que não te falte saúde para realizar seus sonhos e para fazer aquilo que ama. Sté, sei que você será bem sucedida em qualquer coisa que escolha fazer para a sua vida, pois você é extremamente inteligente e dedicada. Desejo a você um mundo de infinitas possibilidades, sonhos doces e palavras gentis, que a vida sorria pra ti e que você sorria pra vida!

Lado de fora

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Em certos dias, que não escolhem estação do ano, condição financeira ou de pressão e temperatura, sentimo-nos vulneráveis, frágeis, feito flor madura em dia de ventania, prestes a despetalar. É aquele tipo de sensação de fragilidade que, durante o transporte, nos faria receber um rótulo em letras garrafais: cuidado frágil, num vermelho berrante para indicar que a peça é rara e delicada. Bom, talvez eu esteja apenas exagerando. Mas nos dias de chuva sinto a vulnerabilidade ganhar dimensões estratosféricas, feito foguete lançado ao espaço sem autorização ou tripulação, completamente desnorteado. Às vezes me pergunto se todo esse sentimento seria apenas uma condição temporal? Algo relacionado aos céus, ventos e umidade relativa do ar. Sabe, apesar de conjecturar a respeito de tudo isso, não me sinto confortável em depositar tanta responsabilidade no clima. Contudo, é inegável que dias cinzas tendem a nublar pensamentos e sentimentos. Algo como um reflexo do que vemos nos céus. Talvez minha mente goste de trabalhar dessa forma, refletindo o exterior. Bom, mas tudo isso não ocorre em uma proporção tão prejudicial, afinal de contas o clima é apenas mais uma gota num oceano de incertezas e motivações. Por que cheguei nessa discussão mesmo? Ah, verdade, ao olhar as nuvens cinzas no céu me peguei pensando no que haveria por detrás delas. É claro que sei que o sol estaria ali e também um céu azul de brigadeiro, porém pensei no além do azul. Pensei no que estava além da minha capacidade de enxergar. Estava pensando aqui que existem segredos que ninguém consegue descobrir. Alguns deles só abrem pelo lado de dentro. Qual é o lado de dentro do céu eu não sei dizer, e talvez eu também não saiba qual é o meu lado de dentro. Às vezes penso que ninguém me descobriu ainda porque estou do lado de dentro de mim mesma.

dos rabiscos de Olívia

na minha estante: uma imagem…

…vale mais que mil palavras?

Acho que no caso do Troche, sim, e vou deixar um dos desenhos dele e a descrição do Skoob falar por mim. É pura poesia.

Desenhos Invisíveis é uma compilação dos trabalhos que Troche publicou no seu blog entre 2009 e 2012. O livro foi originalmente lançado na Argentina em 2013 pela editora Sudamericana (© Penguim Random House), com prólogos dos quadrinistas Kioskerman e Tute (que podem ser lidos aqui). Na edição brasileira, da Lote 42, foram os quadrinistas Fabio Zimbres e Adão Iturrusgarai que endossaram o trabalho do artista.

Troche - Desenhos invisíveis

Troche – Desenhos invisíveis

Artista: Gervasio Troche
Editora: Lote 92
Ano: 2014
Páginas: 160

No caso do livro O mundo de Aisha: A revolução silenciosa das mulheres do Iêmen, não, mas ajuda a visualizar certas coisas de uma forma diferente e a intensidade dos traços acompanha a intensidade das histórias, é incrível como o olhar retratado dessas mulheres pode mexer tanto com a gente, mas, como no caso do livro do Vincent, eu ainda me apego mais às palavras. Olha para fora, para essas mulheres, me faz querer olhar para dentro e ver as inúmeras oportunidades que tenho, é sempre um exercício de autorreflexão, empatia e amor.

Obrigadas a se casarem ainda meninas. Escravizadas, violentadas, por vezes assassinadas. Cobertas com o véu negro – o niqab – as mulheres do Iêmen parecem fantasmas. Contudo, pouco a pouco, com delicadeza, coragem e determinação, elas travam uma batalha corajosa por sua emancipação. Uma revolução silenciosa está em marcha para fazer valer seus direitos e sua liberdade. Aisha, Sabiha, Hamedda, Houssen e tantas outras: aqui estão algumas de suas histórias. Uma extraordinária reportagem em quadrinhos de Ugo Bertotti inspirada pelas imagens e pelas entrevistas da fotojornalista Agnes Montanari.

Ugo Bertotti

Ugo Bertotti

Autor: Ugo Bertotti
Tradução: Fernando Scheibe
Editora: Nemo
Ano: 2015
Páginas: 144

Admito que nas duas obras me senti comovida, emocionada e tocada, são de uma sensibilidade ímpar. Agradeço novamente ao Natã por me proporcionar essa oportunidade de leitura ❤

na minha estante: O pequeno príncipe

Faz muito tempos desde que li O pequeno príncipe pela primeira vez, e, por incrível que pareça, a única frase da qual eu lembrava era: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, pois é. Então, há algum tempo, o livro vinha me chamando de novo. O pessoal na faculdade foi quem despertou ainda mais o interesse e a curiosidade por lê-lo novamente.

O livro é lindo, simbólico e capaz de despertar inúmeras reflexões, no entanto, apesar disso, ele não é o livro da minha vida. Acredito que o momento também ajudou a construir a minha relação com ele e com outras inúmeras obras literárias. Neste caso, o pequeno príncipe apareceu num momento no qual outras obras e autores mexeram mais comigo. Não que as viagens interplanetários do menino de cabelos dourados não tenha me comovido, foram incontáveis as passagens grifadas pra sempre com caneta marca-texto e também em minhas autorreflexões, mas repito não é o livro da minha vida.

Dentre as inúmeras citações grifadas ao longo da leitura leve e rápida, e poderia postar todas aqui para caracterizar meu pensamento e minha relação com a obra, mas vou postar apenas duas que ilustram bem o momento que estou vivendo e as reflexões que tenho feito a respeito da vida e sobre a humanidade:

“Os homens? (…) O vento os leva. Eles não têm raízes. Eles não gostam das raízes”. p. 60

Sobre os homens na estação de trem: “- O que estão procurando? (…) – Nem o manobrista sabe.” p. 72 “- Nunca estamos contentes onde estamos”. p. 73

Autor: Antoine de Saint-Exupéry
Tradutor: Dom Marcos Barbosa
Editora: Agir
Ano: 2014
Páginas: 96