O leitor

A Reader por Psychopu

A Reader por Psychopu

Molhava a ponta dos dedos com um pouco de saliva, os levava úmidos ao papel e tocava as páginas como quem toca um velho amigo, com intimidade e gentileza. Cada detalhe me dizia que ele era o tipo de homem que tem a calma como melhor amiga. O tipo de homem que não tem hora marcada com nada além de si mesmo.

Não sei quanto tempo fiquei o observando ler. Sentia-me hipnotizado. Olhá-lo ali, à mesa de bar, acompanhado por um grosso livro e um copo de café preto, levemente adoçado, era, para mim, como observar o mar em dias de calmaria. Seus movimentos gentis eram ondas de tranquilidade. Eu ganhava vida ao vê-lo agir daquela maneira despreocupada.

Em intervalos aparentemente não calculados ele retirava os óculos e os descansava sobre a mesa, deitava a cabeça um pouco para trás e fechava os olhos por alguns instantes. Como num espelho, eu o imitava. Ambos dávamos descanso aos ombros e pescoço depois da atividade intelectualmente estimulante.

Foi num desses momentos que o perdi de vista. Minha última esperança é que o encontre aqui num outro dia. Quem sabe nós então poderemos sentar para conversar. Ou, quem sabe, apenas nos fitar. Eu sei que de algum modo ficaria novamente hipnotizado por essa cena.

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Valentina

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e seus olhos
eram
chuva e sol

sobre decifrá-la

na minha estante: Vincent

Barbara Stok

Essa semana um amigo do curso de Letras, o Natã, me emprestou o livro com a biografia de Vincent van Gogh em formato de história em quadrinhos. Faz algum tempo que falamos sobre histórias produzidas em quadrinhos e sobre o fato de meu único contato com essa mídia ser por meio da Turma da Mônica. Não sei, mas sempre gostei de imaginar as situações descritas no livro, um modo de também construir a história, de fazer parte dela e de alguma forma os quadrinhos, para mim, mastigam a história de um jeito que não me atrai.

Algo que pude notar ao ler Vincent: dificilmente parei para observar as imagens e os desenhos de Barbara Stok, a autora que passou três anos estudando e produzindo essa obra, e de certo modo me senti mal por não valorizar o seu trabalho. Talvez a questão não seja não valorizar, mas sim a preferência pelo texto escrito mesmo. Acho belo o trabalho da Stok, mas as palavras ainda me atraem mais do que as imagens, e algumas mensagens dessa HQ me chamaram muita atenção, com certeza.

Aos que gostam de HQ e biografia, acredito que vão gostar bastante desse livro, que pode ser lido de forma rápida e ainda assim com bastante reflexão.

Autora: Barbara Stok
Tradução: Camila Werner
Editora: L&PM
Páginas: 144
Ano: 2014

Onde o céu é mais azul

Red Riding Hood por Sneznybars

Red Riding Hood por Sneznybars

O trajeto era bastante conhecido: a trilha estava bem delimitada e os diversos pontos de referência ao longo dela não permitiriam que ela se perdesse. As inúmeras instruções que ouvira desde pequena também não. Era como andar nos trilhos: os desvios só seriam acionados em caso de extrema necessidade.

Certo dia, distraída, mas ainda assim em seu caminho habitual, um tanto quanto robótico, ela olhou ao redor e notou, provavelmente pela primeira vez, a infinidade de informações que se destacavam ao seu redor. Por um breve momento sentiu-se pequena e vulnerável.

Não que ela sentisse medo ou pavor. Sempre fora corajosa, sabia disso. No entanto, ao notar a imensidão ao seu redor, pensou em todas as coisas que poderia conhecer e novos caminhos que poderia desbravar se não estivesse sempre a percorrer a mesma trilha.

É quase certo que, neste momento, três letrinhas passaram a percorrer sua mente: e se? Aos poucos elas foram a corroendo. E se? E se? Imaginou-se em diversas situações, começando pelo descarrilamento. Era provável que descobrisse algo novo além dos trilhos, contudo quem poderia garantir o que viria pela frente? É possível determinar qual o caminho certo a seguir? Mesmo com um planejamento impecável, nada sai cem por cento como o esperado.

Sentiu-se pequena. Como poderia ter certeza de que as decisões que tomava e o caminho que seguia eram o que de fato queria?

Internamente uma voz respondeu: nada é certo, pequena, nem os trilhos pelos quais você caminha todos os dias. Algo somou-se à dúvida: por que em momentos de angústia e incerteza ela sempre deu ouvidos ao que vinha de fora? Por que não poderia ouvir sua própria voz? Tantas e tantas vezes ela se permitiu ser assombrada por lobos maus na floresta, e só agora percebeu que eles não estavam na floresta. Pois, enquanto ela olhasse apenas para fora, não importa para onde fosse, os lobos maus sempre estariam com ela.

Penso que, pela primeira vez em muito tempo, ela percebeu que tudo que buscava e imaginava conquistar fora dos trilhos, ela já possuía bem ali. Não era preciso nenhuma jornada extraordinária para lhe mostrar isso. Ela não queria uma vida de incertezas, solidão ou riquezas a perder de vista, tudo aquilo que ela almejava já possuía.

Foi numa quarta ou quinta-feira, num mês qualquer, de um ano bastante bagunçado que ela parou de olhar para o que não tinha e passou a observar tudo o que já possuía, e de alguma forma fantástica, o caminho diante dela parecia completamente novo.

never mind, little kid

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Lembra de quando você era apenas um pinguinho de gente e tudo que cabia à você era sorrir, correr, pular, sonhar, obedecer pai e mãe e ir para a escola? Lembra dos medos, das inseguranças, das incertezas, que de uma hora para a outra se aproximaram de você e te assustaram com garras frias e escuridão? Lembra da briga que era internamente não saber quem levaria a melhor: os sorrisos ou os medos? Esqueça isso, pequena criança, eu sei que em algum lugar aí dentro você continua aquela menina risonha de anos atrás, no fundo nós nunca a perdemos, elas apenas se escondem um pouquinho. Apareça, menininha, deixa eu te contar uma coisa. Não é tão assustador crescer, a palavra agora é desafiador. A vida parece se assemelhar a um rio. Quantos rios você já visitou até hoje? Traga-os à sua lembrança, pequena, e então deixe eu te contar: às vezes a vida é como estar em um barco num rio a fluir a nosso favor, outras vezes a gente precisa ajudar a remar, colocar braços e fôlego para nos mover, em outras, ainda, encontramos alguém que reme conosco, e nas piores situações, o rio não flui com a corrente necessária, o remo quebrou e estamos sozinhos e tudo o que podemos fazer é pensar, pensar na melhor maneira de encararmos os desafios que se mostram diante de nós.

na minha estante: Fahrenheit 451

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Ao terminar de ler Fahrenheit 451 de Rad Bradbury, meu primeiro sentimento foi de gratidão: pela oportunidade de lê-lo e pela Carol ter me apresentado esse livro. E terminei de lê-lo num mês bastante simbólico, pois no dia 6 de junho completou-se 3 anos da morte de Bradbury e para pessoas como eu, com a imaginação à flor da pele, é como se fosse uma homenagem a ele.

Bem, de início minha vontade era deixar a tese de Bradbury falar por si, porque há algum tempo sinto que ao comentar um livro, corro risco de contaminar a visão que outra pessoa pode ter dele e gostaria que todos pudessem ter a oportunidade de ver essa alegoria com seus próprios olhos e tirar suas próprias conclusões. Penso que Fahrenheit 451 traz muitas reflexões sobre o modo como lidamos com conhecimento, livros, mídia e de que forma podemos ser manipulados sem nem perceber.

Uma das passagens que me chamou atenção e não é spoiler, mas pode indicar a forma como Bradbury escrevia é essa:

“- Todos devem deixar algo para trás quando morrem, dizia meu avô. Um filho, um livro, um quadro, uma casa ou parede construída, um par de sapatos. Ou um jardim. Algo que sua mão tenha tocado de algum modo, para que sua alma tenha para onde ir quando você morrer. E quando as pessoas olharem para aquela árvore ou aquela flor que você plantou, você estará ali. Não importa o que você faça, dizia ele, desde que você transforme alguma coisa, do jeito que era antes de você tocá-la, em algo que é como você depois que suas mãos passaram por ela. A diferença entre o homem que apenas apara gramados e um verdadeiro jardineiro está no toque, dizia ele. O aparador de grama podia muito bem não ter estado ali; o jardineiro estará ali durante uma vida inteira.” p. 190

E com esse trecho vou deixar o texto falar por mim e, quem sabe assim, instigar vocês a descobrirem também essa obra atemporal. E se ainda não te interessar, fica a pergunta, uma reflexão: você já imaginou como seria um mundo no qual bombeiros não trabalham para apagar incêndios, mas sim para queimar livros? Rad Bradbury já.

Autor: Rad Bradbury
Tradutor: Cid Knipel
Editora: Globo
Ano: 2015 (1953)
Páginas: 215