Próspero

O cenário era caótico, de completa destruição. A guerra que há alguns anos atingira o outro lado do oceano parece ecoar tardiamente do lado de cá do Atlântico. E me foi um espanto, nunca soube muito bem como lidar com destroços, ruínas e entulhos. Num lugar tão novo, com uma história ainda tão recente, você aprende a encontrar uma utilidade para tudo, o que já não é mais interessante pra você pode ser a outra pessoa, então, para mim, para os meus olhares pouco atentos, é difícil encontrar sinais de abandono ou qualquer tipo de falta de prosperidade. Pelo menos era.

Pela manhã, ao levantar, escolhi um caminho diferente para ir ao trabalho. As poucas quadras que me separavam do caminho habitual me mostravam um cenário difícil de acreditar. As fachadas descascadas, rachadas, partidas me impactaram. Como era possível prosperidade e falência caminharem tão próximas uma à outra?

Cheguei ao trabalho e permaneci por alguns minutos num estado latente. Uma introspecção digna de monges tibetanos. Depois de muitas tentativas fui trazida de volta à realidade por alguns colegas preocupados.

“O que está acontecendo? Está tudo bem?”

Minha vontade era a de gritar “NÃO, NÃO ESTÁ” e então enumerar nos dedos das mãos, só para começar, algumas das coisas que encontrei de errado pelo caminho: as casas abandonados, os tetos que não protegem corpos frágeis e indefesos, as ruas e calçadas que assumiram mais uma função ao abrigar desabrigados, o lixo nas ruas, a falta de árvores pelo caminho. De alguma forma aquilo tudo me entristeceu e minha única vontade era a de fazê-los enxergar, mas algo me deteve.

O que pensarão de mim? 

Mais uma vez fui impedida de dizer o que penso com medo do que achariam de mim. O coração acelerado, as mãos tensas e fechadas prontas para socar qualquer coisa à frente, a respiração obstruída e uma ansiedade incalculável corroendo por dentro. Limitei-me a suspirar profundamente e responder com um sorriso contido que estava tudo bem.

Talvez eles realmente não estejam prontos para o que tenho a dizer. Talvez eu também não esteja pronta para o que eles têm a dizer.

dos rascunhos de Adèle

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