Segredar

“Foi no coração de todas essas Nathalies, que eu resolvi me esconder”.
A delicadeza do amor

Captura-de-Tela-2014-06-28-às-18.49.51

Foi num jardim, numa primavera, num dia quente e ensolarado, ao ouvir os ventos balançarem as árvores que percebeu que ali era o seu lugar. As poucas nuvens brincavam de esconder o sol e ele preenchia todo o espaço possível com seu calor e alegria. Estava feliz. Gostava de dias imprevistos, não planejados, mágicos.

Foi num dia assim, meio invertido que no verso ela encontrou o avesso perfeito. Não precisavam de muito, nunca foi questão de quantidade: um olho no olho, sorrisos livres e abraços intermináveis eram o suficiente para abastecê-los.

Sempre os admirei por isso.

Se já era encantador vê-los, quem dirá sê-los.

Anúncios

Sombra

Sabe aquele domingo preguiçoso do tipo que só de pensar já dá cansaço? Estávamos os dois deitados na cama lendo, ele acompanhado do King e eu do Shakespeare. Por um momento meus olhos deixaram a megera de lado e viajaram para quem estava próximo a mim. Foi inevitável. Era magnético.

De olhá-lo lendo, minha mente percorreu caminhos obscuros e tristes até pensamentos bastante estranhos:

Não te assusto? Minhas opiniões fortes, meu posicionamento político ou meu modo de falar não são demais para você? Ou quem sabe a minha sede por conhecimento seja um pouco exagerada. Isso tudo não te intimida? Por tantas vezes senti que características como essa afastavam as pessoas que me acostumei a me colocar alguns degraus abaixo só para não me sentir diferente. Você entende um sentimento como esse? Você é capaz de me compreender ou de pelo menos não me julgar? Você já se sentiu pra baixo dessa forma? Tão embaixo que já nem sabe como sair do fundo?

Demorou algum tempo, mas ele notou que eu o observava.

Será que você consegue apenas ficar ao meu lado e entender que em nenhum momento eu digo ou ajo com a intenção de colocá-lo para baixo ou qualquer outra pessoa? Você vai entender quando eu começar a chorar na novela, no filme, no telejornal e no comercial de margarina? Eu sei, é estranho alguém que mostra-se sempre tão forte de repente estar tão vulnerável. Já cansei de ouvir que intimido, que sei demais e que tudo isso provoca medo nos outros que acabei aceitando o título de monstro. Gostar de alguém, pra mim, é tão difícil quanto enfrentar uma crise de ansiedade. Por quanto tempo você acha que aguentaríamos lidar com isso?

Ele então sorriu. E eu desmoronei. De repente tudo ali eram lágrimas, abraços e a segurança de quem tem braços de compaixão para acalmar.

do diário de Ella
novembro/1970

na minha estante: As boas mulheres da China

Há algum tempo atrás, não lembro bem quando, a Sté me indicou este livro  e mais uma vez a história que ela recomenda é fascinante e me conquista logo de cara.

Em As boas mulheres da China, a jornalista, radialista e escritora chinesa Xinran, trabalhando em Nanquim (etimologicamente, “capital do sul”, em oposição à Pequim, “capital do norte”), utiliza seu programa de rádio para desvendar a mulher chinesa, e o verbo é desvendar mesmo, pois a visão que temos da China é bastante nebulosa, como se coberta por um véu, e muitas vezes, ao acompanhar as histórias contadas por Xinran, a impressão que eu tinha é que inclusive para os chineses a vida de suas mulheres está coberta por um véu frio, que provoca certa invisibilidade.

Logo, por meio de inúmeros depoimentos, Xinran constrói um amplo panorama sobre as diferenças e semelhanças entre o modo de vida, as histórias de infância, o tratamento durante a Revolução “Cultural” no país, bem como as tradições, os sentimentos e a maneira como tudo isso afeta a vida de cada uma dessas mulheres e também a da jornalista. É difícil não sofrer e não pensar: “puxa, como tenho sorte”, mas na verdade, quando terminei de ler o livro o sentimento foi: “estamos no mesmo mundo, em países distintos, é claro, mas de que forma nós podemos transformar a vida dessas mulheres?”. Acho que Xinran nos trouxe uma grande oportunidade, ela deu voz a dezenas de mulheres mutiladas, física ou psicologicamente, e isso nos permite saber a respeito e também a questionar: “que mundo estamos oferecendo às mulheres?”.

Aos que gostam de histórias reais, bem escritas e densas, As boas mulheres da China é um retrato sensível e emocionante do Oriente. Vale a pena conhecer!

“Quantas são as pessoas que olham através das palavras para enxergar o coração?”, p. 226

Autora: Xinran
Tradução: Manoel Paulo Ferreira
Editora: Companhia de Bolso
Páginas: 256
Ano: 2007

Font’Ana

“O coração dela eram um jardim secreto e seus muros eram muito altos”.

Ela é uma menina feita de flor, do tipo que atrai beija-flores, borboletas, abelhas e, infelizmente, de vez em quando, uns insetinhos sem-vergonha. E porque ela é uma menina feita de flor, não vê maldade ao seu redor. Mesmo em dias nublados e chuvosos consegue sorrir e sentir-se animada, pois a chuva renova e nutre, ajuda a florescer. Sendo uma menina flor ela chama atenção por onde passa, mas nem nota, pois apenas transmite o que tem, mas num mundo cada vez mais cinza, o pouco de cor que encontramos por aí já desperta a atenção. Mas não era fácil ser feita de flor, ao embelezar de forma inocente os espaços por aí, mais e mais vezes surgiam seres desalmados a podá-la, a impendido de crescer livremente. Aos poucos, os espinhos – antes quase inexistentes – ganharam tamanho e resistência. De repente, sem notar, já não saía mais. Escolheu um refúgio e por lá ficou. Poucos ousaram transpor os muros que agora a guardavam.

Próspero

O cenário era caótico, de completa destruição. A guerra que há alguns anos atingira o outro lado do oceano parece ecoar tardiamente do lado de cá do Atlântico. E me foi um espanto, nunca soube muito bem como lidar com destroços, ruínas e entulhos. Num lugar tão novo, com uma história ainda tão recente, você aprende a encontrar uma utilidade para tudo, o que já não é mais interessante pra você pode ser a outra pessoa, então, para mim, para os meus olhares pouco atentos, é difícil encontrar sinais de abandono ou qualquer tipo de falta de prosperidade. Pelo menos era.

Pela manhã, ao levantar, escolhi um caminho diferente para ir ao trabalho. As poucas quadras que me separavam do caminho habitual me mostravam um cenário difícil de acreditar. As fachadas descascadas, rachadas, partidas me impactaram. Como era possível prosperidade e falência caminharem tão próximas uma à outra?

Cheguei ao trabalho e permaneci por alguns minutos num estado latente. Uma introspecção digna de monges tibetanos. Depois de muitas tentativas fui trazida de volta à realidade por alguns colegas preocupados.

“O que está acontecendo? Está tudo bem?”

Minha vontade era a de gritar “NÃO, NÃO ESTÁ” e então enumerar nos dedos das mãos, só para começar, algumas das coisas que encontrei de errado pelo caminho: as casas abandonados, os tetos que não protegem corpos frágeis e indefesos, as ruas e calçadas que assumiram mais uma função ao abrigar desabrigados, o lixo nas ruas, a falta de árvores pelo caminho. De alguma forma aquilo tudo me entristeceu e minha única vontade era a de fazê-los enxergar, mas algo me deteve.

O que pensarão de mim? 

Mais uma vez fui impedida de dizer o que penso com medo do que achariam de mim. O coração acelerado, as mãos tensas e fechadas prontas para socar qualquer coisa à frente, a respiração obstruída e uma ansiedade incalculável corroendo por dentro. Limitei-me a suspirar profundamente e responder com um sorriso contido que estava tudo bem.

Talvez eles realmente não estejam prontos para o que tenho a dizer. Talvez eu também não esteja pronta para o que eles têm a dizer.

dos rascunhos de Adèle

Olá, Maio

Hei, Maio,7686b287c893cd59706a5a3befea2668

Tudo bem com você? Quanto tempo não nos falamos, faz o quê, quase um ano desde nossa última conversa? Acredito que seja algo em torno disso. Das recordações que tenho da última vez que nos vimos são poucas as coisas que consigo lembrar. Interessante prestar atenção na ação do tempo. Quando olho pra você sinto que mudei muito mais que você.

O seu primeiro dia iniciou como de costume, um pouco frio, meio nublado, mas de repente, durante a tarde, um sorriso surgiu no céu e tornou o clima agradável. A noite veio e seu brilho partiu com o sol. Ficamos novamente gelados.

Bem, eu não queria parecer grosseira ao dizer que você não mudou em nada, na verdade você tem tantas coisas boas que não vejo mesmo razão para que mude. Seu clima aparentemente instável nos permite uma certa preparação para os meses gélidos que vem pela frente. Obrigada por isso! Faz com que as mudanças se tornem mais fáceis. E falando em mudanças, acredito que eu mudei bastante, não é só o cabelo e as novidades. É muito mais, algo que começa aqui dentro – no coração – e de alguma forma mágica transparece aqui fora. Entende? Talvez por isso eu imagine que você não tenha mudado em nada, talvez seja porque eu tenha mudado bastante.

Não sei o que te dizer, só gostaria mesmo de te agradecer, por me dar essa oportunidade de clareza e espaço para análise e autoconhecimento. Sei que você é um mês muito bom e propício para isso, então, gratidão por todas as reflexões e calmarias que você trouxe – e traz – para a minha vida.

E hei, vê se não some. Vou tentar fazer o mesmo.

Com carinho,

Ella