na minha estante: Caixa de Pássaros

Começo os comentários desse livro com uma curta definição sobre empatia: s. f. Psicol. Tendência para sentir o que sentiria outra pessoa caso se estivesse na situação experimentada por ela. Por que isso? Porque nada casa melhor com thriller psicológico do que pessoas empáticas – e pra quem nem desconfia -, nessa união a pessoa vestindo branco sou eu e talvez por isso eu tenha levado ao extremo a sensação de me sentir dentro do livro, em Detroit, com Malorie, Cheryl, Tom, Felix, Jules e Don.

No início da leitura senti como se estivesse flertando com ela, estávamos nos conhecendo, sabia pouco sobre o que poderia vir pela frente e caminhamos a passos lentos. No entanto, a partir do momento que me vi ligada aos personagens e ao modo como a trama foi construída, já me descobri amarrada às figuras da narração. Me senti na pele deles, ou melhor, junto a eles, mais um elemento a fazer parte daquela pequena comunidade, dividindo tarefas, lutando para não enlouquecer e acima de tudo, sobrevivendo dia após dia a um cenário inimaginável.

E por isso eu te pergunto: como você se sentiria diante de uma ameaça iminente, a qual você só poderia evitar ao permanecer de olhos fechados?

Consegue se colocar no lugar? Então provavelmente você vai se sentir tensa, ansiosa e aflita como eu ao ler Caixa de Pássaros. Claro, acredito que outros fatores podem ter influenciado o meu relacionamento a obra, por exemplo o fato deste ser o primeiro livro do gênero que eu leio. Portanto, aos amigos que já leram suspense e terror, fica aqui o meu questionamento: somos persuadidos pela primeira leitura que fazemos desse estilo de narrativa? O que acham?

Para final – ou quem sabe início – de conversa, digo que com certeza essa é mais uma leitura que vale a pena, então, nesse caso, eu recomendo que você ABRA OS OLHOS!

Autor: Josh Malerman
Tradutora: Carolina Selvatici
Editora: Intrínseca
Páginas: 272
Ano: 2015

na minha estante: o menino que amava Anne Frank

imagemO romance produzido pela escritora Ellen Feldman é de um cuidado e sensibilidade incomparável. Nem sei como contar essa história pra vocês sem me emocionar – ontem quando comecei a explicar o livro para o meu pai fiquei meio engasgada até -, então, talvez seja melhor o livro falar por si, que nem Pequena Abelha:

Sinopse: O que teria acontecido a Peter van Pels, companheiro de esconderijo de Anne Frank, caso ele tivesse sobrevivido? Em 16 de fevereiro de 1944, Anne registrou em seu diário que Peter prometera começar uma nova vida, mudando-se para os Estados Unidos. Ellen Feldman realizou uma extensa e cuidadosa pesquisa sobre as vidas de Anne e Peter, para compor um comovente retrato literário.

Conseguiram imaginar?

Tenho esse livro na minha estante há um bom tempo, infelizmente nem me lembro mais de sua história, suspeito ter comprado numa promoção, mas jamais terei certeza. Há 11 dias atrás, quando o peguei para ler, não pensei que fosse me fisgar. Afinal de contas, Anne Frank, quantas vezes já ouvimos essa história, quantas vezes fomos lembrados de seu diário e a vida aterrorizante que levou. Mas esse não é o retrato da menina escritora, e sim um possível retrato do menino Peter, e o quê as marcas da guerra, da fome e por que não do diário fizeram a ele.

Com certeza um livro para ser devorado!

Autora: Ellen Feldman
Tradução: Luiz Antônio Aguiar
Editora: Record
Páginas: 288
Ano: 2006

 

 

Velado

gostava de velar seu sono
notar a respiração
a expulsão do ar
que afastava os fios de cabelo
por instantes

fios que cobriam a face
e me impediam de ver o todo

e eu velava
e ao vê-la
a via bela

quem dera
pudesse ficar mais

velas içadas
parti com o coração na mão

nunca foi tão difícil deixar aquele porto

Vitrine

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Feito criança mimada
insistia no que queria
e não pensava
no que de fato precisava.

Os olhos brilhavam,
a mão suava,
o coração acelerava
e tudo o que queria
era mais um objeto,
um novo troféu
para a coleção.

No fundo eu sabia,
que o que queria
era cobrir o vazio,
silenciar os espaços.

Mais um disfarce,
uma quinquilharia
a pegar pó na prateleira.

Palavras de um bruto

 

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M.

Já faz algum tempo que nos conhecemos, bom, nos sabemos mais do que nos conhecemos e por essa razão você sabe que nunca fui muito bom com gestos ou palavras, mas terei algum cuidado para escolhê-las agora. Sei que estou sendo piegas, mas as cartas ainda têm um significado importante pra mim, dessa forma, quis transmitir nessas linhas tortas, nessas palavras mal escritas, de caligrafia pobre e quase ininteligível o quanto me importo com você e… bem, não sei como faço para expressar sem os outros sentidos, mas vou tentar. Chega a ser cômico eu, que sempre grito tanto, agora encontro-me calado.

O que eu quero dizer, hum, o que quero escrever é que meu corpo aquece ao vê-la sorrir e mesmo que contra minha vontade sorrio também. Toda vez que encaro seus olhos, esse par de seres camaleões, que vão do azul do céu ao cinza da minha barba grisalha, fico intrigado e me perco em pensamentos e ideias que talvez eu nunca consiga transmitir a você.

Entende?

Do jeito que eu enxergo as coisas eu gostaria que você pudesse apenas ler meus pensamentos e sorrir de volta pra mim. Estou escrevendo coisas sem sentido. Talvez você me entenda. Você é tão inteligente, me sinto um completo ignorante perto de você. Eu só queria você sorrisse pra mim, não para uma sala cheia de pessoas que temos em comum, um sorriso desses misteriosos e exclusivo só pra mim. Desculpe se pareço um egoísta, mas é que não sei me fazer entender de outra forma, pois tudo o que me vem a cabeça enquanto tento escrever esta carta pra você é que não quero deixá-la ir embora.

Você disse que sou um cara quebrado e as cicatrizes que tenho não te deixam mentir, mas saiba que não quero que você me conserte, não é isso. Por um momento eu gostaria apenas que você entendesse o jeito que eu me sinto a respeito de você, e que você me tocasse com suas mãos macias, me colocasse em seu colo e me fizesse dormir ao som da sua voz doce. Afetuoso demais? Para um cara como eu é mais do que posso desejar…

E bem, nós sabemos que a vida nunca é como desejamos e é uma estrada tão longa, às vezes é cheia de pedras e em outras ela nos leva além de nossas expectativas. Por que eu digo isso? Não sei. Talvez porque sejam tempos solitários, e talvez eu não queira seguir sozinho, mas não é por esse motivo que a quero ao meu lado, você não é apenas alguém no assento ao lado do meu, não estará aqui para ocupar esse vazio geográfico… é maior e muito mais significativo do que isso. Como eu posso dizer?

Acredito que não sou o tipo de homem que você imaginou ter ao seu lado e não estou dizendo que eu serei. Mas sei lá, será que se você ignorar toda essa minha solidão, a frieza, o meu olhar e jeito carrancudo, e quem sabe até esquecer de vez em quando a minha rudeza, será que eu poderia mostrar a você o que eu quero dizer com tudo isso?

Um bruto

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Desafio lançado pelo Marcel: “escreva uma carta de amor… de um homem bruto, rústico e sistemático para a M*****. Nota: é um cortejo, ainda”.