Nota

Iluminada

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Estava a quilômetros de distância do lar doce lar, em terras inexploradas e desertas, na outra ponta do mar, onde pessoas carregam espaços vagos no peito pesado e cansado. Em busca dos mistérios que ainda não conseguira desvendar e ainda ébria pelas horas e minutos que se passaram, largou-se aos pés do velho ébano e chorou a efeméride daquele com quem ainda não havia realmente rompido. Naquele Éden particular, lembrou-se de tantos momentos e palavras pronunciadas, mal sabia em qual ordem aconteceram, nem se permitiu prender-se a eles. A mente dizia para seguir em frente e o coração continuava procurando no mapa, decidido a encontrar um caminho para voltar.

Labioso, o coração sabia persuadia-la e se mantinha há anos no controle da situação. O eterno cabo de guerra entre a razão e a emoção não parecia mais uma luta justa, pois a última sempre cochichava e tramava a favor do seu favorito, mesmo quando todas as evidências indicavam que não era o melhor caminho. Apesar dos resultados finais não serem o esperado, não lamentava, agia como queria, o que em muitos casos criava dores de cabeça terríveis, de ouvir lamúrias no outro continente.

Lamentou por pouco tempo, logo lembrou as razões que a trouxeram até aqui. Não foi fácil decidir e deixar tudo o que conhecia para trás, mas sabia, de forma teórica e literária, que se você espera resultados diferentes deve deixar de agir do mesmo modo. Então mudou, trocou de endereço, renovou a fachada e de forma primordial, reorganizou peça por peça dentro de si. Muita poeira e quinquilharias foram postas para fora, o ar ficou mais leve e a impressão era de estar num mundo novo. E estava.

Além do que sentia e pensava, todos comentavam que ela estava emitindo uma luz diferente, algo novo deve ter acontecido e ninguém soube explicar o quê. Esse era um segredo só dela, mas eu vou compartilhar com você: ela descobriu quem é.

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na minha estante: O livro dos manuais

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Dia desses aqui em Curitiba, resolvi parar numa loja no Prado Velho que anunciava livros novos a partir de R$ 1,00. Como boa compulsiva por livros, conversei com a carona que estava comigo e descemos para dar uma olhada nesse paraíso anunciado. A lojinha tinha cara de sebo, mas o anúncio dizia que os livros eram novos, bom, novos sim, mas nada de lançamentos, pois são todos livros de ponta de estoque. Sem problemas, nenhum preconceito, fui à caça. E no meio de tantos livros me deparei com este do Paulo Coelho, O livro dos manuais.

O trabalho gráfico do livro é fantástico e o autor transformou suas observações cotidianas em artigos, convenções, estatutos e manuais para “ser aceito pela sociedade” – bastante irônico -, para viajar de verdade e não só contar aos outros que conheceu outros países e outros pontos muito interessantes sobre o modo como ele vê o mundo. Não concordo com tudo que está escrito nessas mais de cem páginas, mas a leitura nunca deixa de ser um exercício crítico e de reflexão.

No capítulo Convenção dos feridos por amor há um artigo muito interessante que podem deixar vocês curiosos a respeito da leitura:

“Art. 1 – Todos os amantes, de qualquer sexo, ficam alertados que o amor, além de ser uma bênção [sic], é algo também extremamente perigoso, imprevisível, capaz de acarretar danos sérios. Conseqüentemente [sic], quem se propõe a amar deve saber que está expondo seu corpo e sua alma a vários tipos de ferimentos, e não poderá culpar seu parceiro em nenhum momento, já que o risco é o mesmo para ambos” (COELHO, Paulo, O livro dos manuais, p. 11).

Claro que eu acredito que existam exceções para esse artigo, mas não vem ao caso. O legal é que me despertou uma vontade de escrever meu próprio manual, nada obrigatório e definitivo, algo como um exercício para a vida. 

Autor: Paulo Coelho
Ilustrações: Fernando Vilela
Projeto Gráfico: Loducca
Ano: 2008
Páginas: 111

Nota

Mais de vinte

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Obstinada a seguir em frente e obcecada pela oportunidade de realizar feitos obtusos e sair pela tangente do óbvio e do cansativo, obsecrou a chance de caminhar por uma estrada diferente. A quem fez tal pedido humilde? Ninguém sabe, talvez um deus ocioso que goste de passatempos ou ainda um ente oco, cujo coração fora substituído por um ocre moldado por um ser sobrenatural. São apenas cogitações e hipóteses, o mais importante era que, quem quer que tenha respondido, talvez a voz dentro dela, disse sim.

Lançada a uma longa jornada pessoal, a moça de madeixas louras e belas levou consigo o estritamente necessário. Leve era a chave. Embora, lá, mais adiante, se preocuparia com pesos extras que lacerariam aos poucos seus ombros desacostumados ao labor de uma viagem lampejante. Mais adiante entenderia que existem certas cargas imateriais que sobrecarregam tanto quanto barras de chumbo e mochilas abarrotadas de tralhas.

Interessada em desapegar das inutilidades trazidas num impulso e que agora a machucavam, decidiu doá-las àqueles que realmente pareciam necessitar. Quem diria que as inutilidades serviriam a tantos pela estrada. Içou acampamento próximo a um muro de pedras numa praia fria de um país estrangeiro e permaneceu alguns dias próxima àquelas pessoas e pode perceber que na doação quem mais ganhava era ela, que enxergava a idiossincrasia em dar e receber. Ignorava qualquer pedido de trocas materiais, aceitava retribuições por meio de pouso, comida e até mesmo histórias.

Valente, a menina de olhar nada vacilante continuava a valiosa peregrinação em busca de sua lenda pessoal. Não era vaidade, nem desafio, pois valia apenas para si, era mais como um sonho onde as coisas vão acontecendo e de repente você está onde deveria estar desde o início. O valor é o de uma conquista pessoal, onde tudo foi realizado com o único propósito de ser alguém melhor, de ir além em si mesmo e de descobrir que ser é maior do que ter.

Irrigou dia após dia a semente que alimentava seu interior e sentiu crescer uma capacidade inexplicável de força, felicidade e plenitude. Sentimentos até então inexplorados desenvolveram-se de forma irrestrita, feito flor selvagem que cresce e se apodera do espaço, algo quase impossível de conter. E não havia motivos para serem contidos.

Ainda que o caminho fosse árduo e a resistência dos que estão ao redor fosse difícil de transpor, a cabeça permaneceria erguida e os olhos focados em seu objetivo pessoal. Acreditava de corpo e alma que um dia sentiria-se confortável com as passadas e a linha de chegada, tudo pois tomara as decisões por conta própria e assumiu toda a responsabilidade pelo que viesse pela frente.