Instável

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Sentia o vento sussurrar entre as árvores e a própria respiração se confundia numa sinfonia de sons ansiosos e preocupados. A densa neblina da manhã voltou a se condensar durante aquela tarde de clima instável e desagradável, entre as idas e vindas do sol, os períodos de chuva e então o frio intenso de machucar o rosto e a escuridão do céu encoberto de nuvens. Parecia noite. Daquelas noites que a gente só vê em filmes, aqueles nos quais as pessoas estão sempre despreocupadas e de repente algo assustador acontece.

Essa tarde estranha e sombria levou as pessoas mais cedo para casa e as ruas desertas abriram espaço para a imaginação se soltar, pular de galho em galho e assustar os passantes desprevenidos. Os poucos que ousaram transitar por vielas e travessas viram suas fiéis escudeiras – as sombras – de uma hora para outra tornarem-se assassinas em potencial, o gato brincando no lixo um gatuno pronto para levar seus bens e essas são só algumas das inúmeras possibilidades que percorreram a mente de alguns transeuntes.

Menos de Olívia. A menina que por tantas vezes inventou cenários incríveis enquanto passeava pelas mesmas calçadas, naquele momento mostrou-se oca. Algo estranho no clima confundiu seus sentidos. Ela nada percebeu de diferente. Aos seus olhos, a única coisa incomum era o tempo que brincou com todos: desde os que saíram sem guarda-chuva ou vestindo sandálias, aos que esperavam sol e calor até aqueles que esperavam estabilidade do início ao fim do dia. Nem sempre é fácil agradar todo mundo.

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Mar vermelho

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Levantei os braços e ele não se abriu. Falei gentilmente e nada. Gritei palavras de ordem e ele continuou em suas tarefas habituais. Procurei uma ferramenta, qualquer coisa que me ajudasse a transpor aquela barreira e não encontrei. Então olhei para o céu azul celeste, que aos poucos era substituído pelo cinza chumbo, e senti o vento forte bagunçar meus cabelos e trazer consigo o frio. Notei alguma movimentação, porém nada satisfatório. A sensação de angústia tomava conta de mim, sentia-me impotente e incapaz. Durante anos fiquei ali naquela praia apenas observando a maré subir e descer, pensando e arquitetando meios para vencer aquele obstáculo. Num dia qualquer de junho ou talvez já fosse julho, não sei precisar com segurança, olhei para a esquerda e havia um caminho novo. Assustada pensei estar olhando para uma miragem, uma ilusão ou apenas um sonho quase real. Por alguns dias recusei ir até lá verificar, pensei ser uma brincadeira da minha mente já cansada de tanto projetar meios de transpor aquele empecilho. Ao transpassá-lo me vi num mundo novo e foi como se todos os períodos de dificuldade e medo tivessem contribuído para me trazer bem até aqui, uma preparação para estar do lado de cá.

Prefixo

32f918a31e2d38b4af3c95d367587310O frio começou com a promessa de dias de coberta fofa, chocolate quente e muitos momentos de introspecção e reflexão. A garoa fina que agora cai lá fora convida Ella a pensar em todas as coisas que gostaria de fazer ao longo da vida e o que ela de fato pode conquistar. Certa vez disseram para ela que não sabendo que algo era impossível alguém foi lá e fez, e acreditando nessa afirmação decidiu derrubar barreiras e quebrar correntes que a impedissem de realizar coisas.

Quem diria que hoje ela estaria onde está, com a vida construída de forma ainda mais incrível do que um dia poderia sonhar. Às vezes ousar realizar algo pode te levar a lugares inimagináveis. E era assim que a menina de sonhos doces se sentia: num sonho realizado, dentro das páginas de um conto de fadas, desses modernos que nós sabemos que não será perfeito, mas que será do modo que precisa ser e por essa razão, especialmente, ela estava feliz. Ela esqueceu o prefixo em casa e tornou o sonho possível.

Nota

Em alto mar

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“Ela riu dentro da sua tristeza”. José Mauro de Vasconcelos

Na mensagem, datada de mil novecentos e alguma coisa, você dizia que nada mudaria, que o sol continuaria a nascer e partir, a lua nasceria e partiria, mas sabe, o que aprendi até hoje foi que a vida não é feita apenas de nascer e morrer e que nada é constante. Já dizia o filósofo “nada é permanente, exceto a mudança”. E como muda. Muda muito. Foram dias chuvosos, dias de céu de brigadeiro, nevascas, tempestades e ressacas. Como você poderia afirmar que nada mudaria? Eu não sou a mesma de anos atrás, nem de minutos atrás, porque agora li sua mensagem e ela também faz parte de mim. Talvez se eu soubesse quem você foi as coisas fizessem mais sentido.

do diário de Adèle

na minha estante: Veronika decide morrer

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“Quanto mais felizes as pessoas podem ser, mais infelizes ficam”. (COELHO, Paulo, p. 81)

 

Veronika decide morrer é o quarto livro do Paulo Coelho que leio, o segundo este ano. Em O alquimista, Coelho falava da descoberta, agora fala de conceitos relacionados a loucura e coragem. E posso dizer pra vocês que estou achando um pouco difícil falar desse livro sem enchê-los de spoilers, são informações que acredito que são mais interessantes de serem descobertas por conta própria. Portanto, mais uma vez, o livro mostra-se bastante simbólico, cheio de metáforas e mensagens nas entrelinhas. Vale a pena prestar atenção!

Então, para não correr o risco de falar além da conta, segue a sinopse:

Veronika parece ter tudo o que deseja: frequenta os melhores lugares, conhece os rapazes mais atraentes, mas não é feliz. Falta algo em sua vida. É por isso que, na manhã do dia 11 de novembro de 1997, Veronika decide morrer.

Apesar do conteúdo parecer lúgubre e melancólico de início, a mensagem do livro cabe a todos nós – e não estou me referindo ao ponto do suicídio e sim da loucura e coragem de mudar. Assim, um filme, às vezes, é um bom caminho para disseminar ainda mais uma mensagem, contudo, de início já não gostei muito das alterações feitas no filme protagonizado pela atriz Sarah Michelle Gellar. De forma especial terem alterado a cidade original da história, de Ljubljana, na Eslovênia, para Nova Iorque, EUA. Existem elementos, pra mim relevantes, que acabam sendo perdidos nessa mudança, mesmo quando eles tentam manter um pezinho na Eslovênia quando dizem que os pais de Veronika são imigrantes. Mas essa é uma questão que eu adoraria discutir num outro momento com vocês, até lá, leiam e assistam o filme 😉

Autor: Paulo Coelho
Editora: Planeta
Ano: 2006
Páginas: 214

Entre nós

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Velhas lágrimas escorrem sobre a superfície lisa que agora encaro diante de mim. Não sinto medo, pena ou compaixão, pois de repente um vazio domina o coração e a mente, e as vozes distorcidas misturam-se ao choro e confundem qualquer pensamento ou voz sensata que possa querer se destacar.

Alimento o choro com palavras rudes e afiadas. Não foi intencional feri-lo, mas os sentimentos transbordaram e não pude – não quis – contê-los. Às vezes os momentos são feitos de situações assim: imprevistas e impensadas. Arriscando ser clichê, é como servir uma xícara de chá e se ver distraído por pensamentos, uma hora o líquido escorre e laivos poderão ser deixados sobre a mesa de madeira, assim como as lágrimas que escorrem e a fúria que se coloca pra fora a plenos pulmões. Impossível remover as marcas que deixam, você pode apenas maquiá-los. E naquele momento eu diria que precisaríamos de muita maquiagem, pois…

Lamento informá-los: a cena não era bela. Estava mais para deprimente. O que víamos poderia ser comparado a um verdadeiro lamaçal, um atoleiro de sentimentos antes reprimidos que agora brotavam de uma fonte até então desconhecida para os dois. Foi como estar diante de estranhos pela primeira vez, e daqueles que nos fazem sentir certa angústia e medo. Num lampejo nada mais parecia ter sentido. Nos encaramos entre lágrimas e soluços e por um momento tudo pareceu se aquietar.

Extravasados os sentimentos inerentes e latentes, não nos encarávamos mais, era mais uma troca de olhares. O momento mudara, estava na frente de um desconhecido. Extinguiram-se as ofensas e agressões, extraditou-se o momento anterior e o que restou na sala: dois corpos flexíveis, olhares doces e palavras gentis de “desculpe”, “perdão” e “vamos tentar de novo”.

Na tentativa de um recomeço – agora que o que estivera reprimido fora exposto – voltamos a falar. Perguntas que nunca foram feitas surgiram para nós, trazendo clareza e novidades ao conhecimento que tínhamos um do outro. Depois do nadir, o zênite, nunca pensei que aquele com quem convivia tivesse tantas coisas para me contar, sua fala e vocabulário agora pareciam nababescos, por um momento julguei-me ignorante. E será que não sou mesmo?

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Tudo o que escutava agora me atingia de forma ambivalente. Sentia-me uma tabaroa, uma caipira. Onde estão os conhecimentos que eu julgava existirem em mim? Será que os expulsei naquele momento de fúria? Concomitantemente, quem é esse homem cheio de vida e informação? Por que só se revelou agora?

Idiotice a minha. Inúmeras vezes ele tentou dialogar e eu, na minha insanidade, transformei tudo num cansativo e repetitivo monólogo. Ele respeitou meu espaço, me deu voz e eu, injusta e ingrata o ignorei, não permiti que se mostrasse, abafei seus sonhos e vontades, podei tudo o que podia e não podia. Coloquei-o num papel de mudo, de incapaz. Lutei tanto por atenção e não notei o essencial.

Ninguém nota as sutilezas. Me esforcei tanto para que notassem as minhas, que no fim deixaram de ser sutis e tornaram-se frases em luzes de neon. Tudo que poderia ter criado uma aura de mistério num livro de suspense tornou-se manchete de revista de fofoca. Não havia fatos que ele não soubesse sobre mim e eu, envergonhada, nada sabia sobre ele.

Aquela discussão, que começou quando ele se mostrou sensível para mim, só me fez encarar tudo a partir de uma perspectiva diferente. Para que outros pudessem falar e para que eu pudesse escutar os sons ao redor eu precisava aprender a ouvir. Pela primeira vez em meses, na presença dele sentei e escutei, mesmo quando minha vontade era a de fugir e fingir que tudo aquilo não tinha acontecido. Mas eu precisava mudar, todas as vezes em que fiz minha voz soar mais alto, eu fugi do que os outros tinham a me dizer e agora era o momento de dar espaço a eles.