na minha estante: O homem e seus símbolos

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Em Março completo um ano de terapia e acredito que se Jung fosse meu analista diria que foi a sincronicidade que me fez “cair” justamente em uma terapia com uma de suas discípulas. Para uma mente criativa e sonhadora como a minha, nada melhor do que estar numa terapia junguiana, que me permite entender diversos pontos importantes por meio de símbolos (que vão muito além de desenhos), insights, sonhos e inclusive textos escritos há anos. Portanto, sou muito grata pelo dia que liguei para uma clínica para marcar uma consulta e leiga a respeito das linhas fui encaminhada para uma psicóloga junguiana.

Ela, depois de algum tempo de análise e vendo que estava empolgada com a teoria de Jung, indicou-me um livro: “O homem e seus símbolos”, onde Carl Jung reúne um grupo de teóricos para abordar diferentes aspectos humanos relacionados a psicologia: a mente consciente e inconsciente, animus e anima,  sonhos, o processo de individuação, estudos antropológicos e mitológicos, arquétipos e mais inúmeros termos e conceitos muito interessantes sobre a psique. Acredito que este seja um livro para aqueles que querem conhecer os espaços escusos de suas mentes, para os racionais, talvez seja difícil encarar alguns fatos aqui apresentados, até para mim às vezes o ceticismo resolvia aparecer:

“Para o espírito científico, fenômenos como o simbolismo são um verdadeiro aborrecimento por não poderem formular-se de maneira precisa para o intelecto e a lógica”. JUNG, Carl, p. 113.

Para quem gostaria de entender um pouco mais quem foi Jung e de que forma ele encarou a psicologia e também o modo como ele se distanciou da teoria de Freud, este é um bom meio de começar. 

Concepção e Organização: Carl G. Jung
Participação: John Freeman / M.-L von Franz / Joseph L. Henderson / Jolande Jacobi / Aniela Jaffé
Tradução: Maria Lúcia Pinho
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 448

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Doc doc doc

Faz alguns dias que assinamos aquele mês grátis na Netflix e estamos usufruindo de filmes, séries e, de forma especial, dos documentários que há tempos queríamos assistir e também aqueles que eram novidades para nós. Hoje eu gostaria de compartilhar alguns deles com vocês:

SOBRE HUMANIDADE

Happy nos leva em uma jornada pelos pântanos da Louisiana, EUA, às favelas de Calcutá, IND, e muitos outros lugares espalhados pelo mundo, em busca do que realmente faz as pessoas felizes. Combinando histórias reais de pessoas ao redor do mundo e poderosas entrevistas com cientistas especialistas em pesquisas sobre felicidade, o documentário explora os segredos por trás de nossa mais estimada emoção.

SOBRE MUDANÇAS

Parte viagem de carro, parte manifesto de autoajuda, Fat, Sick & Nearly Dead desafia os formatos tradicionais de documentário para apresentar uma história não convencional e inspiradora sobre dois homens, obesos mórbidos, que perceberam quem é a única pessoa capaz de salvá-los dessa doença cada vez mais comum no mundo.

SOBRE LIBERDADE

GMO OMG é um documentário sobre Alimentos e Organismos Geneticamente Modificados (transgênicos) e a “verdade” sobre a indústria alimentícia. Criado por Jeremy Seifert, um pai que por meio de crônicas sai em uma missão para descobrir a “verdade” sobre comidas geneticamente modificadas, como a perda de diversidade de sementes e os laboratórios que realizam as alterações genéticas em alimentos podem afetar seus filhos pequenos, a saúde do planeta e a nossa liberdade de escolha em todos os lugares.

Nebulosa

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De maneira inesperada, quase vulgar, um passado que há muito eu já não conhecia (melhor, pelo qual lutei muito para esquecer) voltou a percorrer as esquinas escuras da minha mente.

No chão do banheiro inacabado, as paredes concretadas e o piso mal colocado eram nossas testemunhas. O cheiro forte e ferroso dominava o ambiente e me enjoava cada vez mais. Atônito, lembro bem… ele parado à porta, o olhar assustado e perdido, feito homem que viaja por terras desconhecidas e não sabe a quem pedir ajuda – o que também não me ajudava – e deixava toda a situação ainda pior.

O tempo passou e não senti qualquer melhora. Estou quase certa que o tempo não é um bom curandeiro. O cheiro de ferro ainda passeia por minhas vias respiratórias, meu coração, minhas mãos, e principalmente minha mente, que de forma mais intensa nos dias chuvosos (quando o ferro e a água parecem se misturar numa tentativa hercúlea de me curarem) recorda que o sangramento há algum tempo parou, embora a ferida aberta jamais tenha cicatrizado.

Fato que sempre me traz ao pensamento você.

Naquele dia disse palavras nada gentis ou verdadeiras. O acontecimento aflorou de tal forma em mim, tão violento, tão distante de quem eu sou, que não pude me controlar ou evitar ser desrespeitosa e até mesmo cruel. Perdoe-me!

O relógio marca um novo horário e o calendário já perdeu muitas folhas, no entanto, a cicatriz jamais parou de doer.

E hoje eu sei que jamais quis dizer qualquer uma daquelas palavras brutas.

do diário de Valentina

Nota

diálogos particulares

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-Você sempre faz isso?
– O quê?
– Aparece, encanta e vai embora?

~Silêncio~

– Acredito que você deveria tomar algum cuidado. Já parou pra pensar no número de corações que você deixou partido por aí?
– E você já parou pra pensar que o meu também pode estar? Ao me verem o que enxergam, sem saber, é apenas mais um coração quebrado precisando de cuidados. Talvez num instinto protetor os que olham se encantem não pelo que veem, mas sim porque se identificaram, pois encontraram um coração tão machucado quanto o deles, por um breve momento sentem que alguém é seu semelhante, no entanto esquecem do que ambos realmente precisam e partem ainda mais feridos.

~Silêncio~

na minha estante: Os miseráveis – Livro V

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Jean Valjean

E chegamos ao ‘capítulo’ final dessa épica história contada pelo novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos – ufa -, o francês Victor-Marie Hugo, mas conhecido como Victor Hugo, que nasceu no dia 26 de fevereiro de 1802 em Besançon, na França.

Como já vimos em outras resenhas, a obra Os miseráveis é dividida em 5 livros, o primeiro dedicado à Fantine, o segundo à Cosette, o terceiro à Marius, o quarto às Ruas Plumet e Saint Dennis e o último à Jean Valjean, o protagonista do retrato feito por Victor Hugo sobre os miseráveis parisienses.

Jean Valjean é o homem humilde, preso por roubar um pão e condenado aos trabalhos forçados nas galés. Ao cumprir uma pena de 19 anos, vê-se livre sob condicional e torna-se reincidente quando conhece o Bispo de Digne, de quem tenta roubar peças de prata. Pego em flagrante, o Bispo de Digne concede uma nova chance ao ex-forçado 24601, que diante de tanta bondade não mede esforços para tornar-se uma pessoa melhor. Nessa busca por tocar a vida das pessoas ele assume outros nomes: Sr. Madeleine, o patrão de Fantine, que ajuda uma cidade da França à prosperar, e o Sr. Fauchelevent, o tutor de Cosette e futuro sogro de Marius, que encurralado pelo inspetor de polícia Javert, acaba encontrando abrigo como jardineiro em um convento em Paris, onde cria a pequena Cosette, filha de Fantine, à quem Jean Valjean prometeu cuidar. Nessa longa jornada, apenas no final do livro que o 24601 volta a pronunciar seu nome verdadeiro: Jean Valjean, e é apenas neste momento que sente-se livre novamente.

Jean Valjean carrega Marius pela cloaca de Paris

Jean Valjean carrega Marius pela cloaca de Paris

Ao longo de sua caminhada, Jean Valjean cria de forma impecável a pequena Cosette, que à Rue Plumet se apaixona pelo jovem Marius, um rapaz idealista, que acredita na República e defende a revolução. Ao saber dos pombinhos e assustado com a possibilidade de perder sua filha adotiva, seu único laço familiar, Jean Valjean pretende fugir com ela para Londres, mas ao receber um bilhete das barricadas, por meio das pequenas mãos de Gavroche, seu espírito se invade de algo inexplicável e ele dirige-se à luta. Nas barricadas encontra-se frente a frente com Javert, o policial que há anos o procura e tendo a possibilidade de vingar-se por tantos anos de perseguição, Jean Valjean o liberta com um tiro para o alto. É também nessa ocasião que Jean Valjean salva o jovem Marius, ferido pelas forças do governo, desmaia nos braços de um salvador.

Encurralado, Jean Valjean encontra uma saída por meio dos canais de esgoto de Paris, ou como disse Victor Hugo, “pela cloaca de Paris”. E em meio ao esterco e a lama, vigorosamente, Jean Valjean carrega Marius nas costas por várias passagens fétidas, onde a luz não chega. É no esgoto também que o sr. Jean encontra-se com a figura deplorável de Thenardiér, viúvo, pai de Eponine e Gavroche, mortos nas barricadas, e dos pequenos meninos do Elefante da Praça da Bastilla, perdidos na imensa Paris, a única sobrevivente é Azelma.

Thenardiér extorque Jean Valjean e o libera para o Sena, onde é encurralado por Javert, que de alguma forma tocado, o ajuda a levar Marius ao seu avô, o sr. Gillenormand. Entregue o rapaz às mãos familiares, Javert reconduz Jean Valjean ao seu lar e desaparece. Transtornado, o inspetor de polícia se vê diante de um enorme embaraço, salvo pelo homem que julgou a vida toda ser um reles criminoso, vê-se impossibilitado de viver num mundo onde foi salvo por um ex-forçado, foragido da justiça, logo, Javert despede-se em um ato de imenso pavor, em uma ponte parisiense.

Toda essa trajetória mexeu demais comigo, mais ainda quando, para a felicidade de Cosette e Marius, Jean Valjean decide se afastar. É nesse afastamento que a alma de Jean Valjean definha, preso às lembranças do passado o homem de coração bom e braços fortes revive momentos em seus pensamentos e dedica seus últimos dias à escrever para Cosette. E como num filme, nos minutos finais antes de subirem os créditos, Jean Valjean é agraciado com a presença do jovem casal, diante da gratidão e do amor dos dois, ele pode finalmente descansar em paz.

Ao terminar de ler essa história senti-me órfã como Cosette e Marius, mas também me senti feliz, como Jean Valjean, que teve a oportunidade de encontrar luz em sua vida. Àqueles que gostam de boas histórias, bem construídas, com personagens fortes e estimulantes, Os miseráveis é realmente uma obra-prima.

Autor: Victor Hugo
Tradução: Frederico Ozanam Pessoa de Barros
Editora: Cosac Naify
Páginas: 1976 (Livro V = 387)
Ano: 2012

Nota

Aos amores do passado, presente e futuro

2416a54044d3476b0b73d4549d748bf9E ela estava na minha frente, bela, os cabelos presos num coque desalinhado, com um olhar concentrado na rua. Enxergava através da janela da linha 703 um mundo que eu não seria capaz de decifrar, muito menos de entender, também não importa, ela parecia estar apreciando e isso tornava as coisas ainda mais bonitas. O ônibus fez inúmeras paradas entre o ponto A e B, ela, fiel a algo superior, não moveu os olhos, mal piscava, parecia mesmo dedicada àquele momento.

Em meus momentos de observação me senti um pouco responsável por aquela moça, minha vontade era de impedir que qualquer mal fosse feito à ela. Pensei em escrever cartas e entregar ao longo de nosso trajeto com um pedido para que cuidassem dela, que impedissem que a magoassem ou ferissem seus sentimentos. Esses que, pelo modo como ela olha ao redor, parecem feitos de açúcar. Tive vontade de gritar, de reproduzir em caixas acústicas de show de rock um anúncio que ecoasse dentro de cada uma daquelas pessoas que não notavam o nosso deslocamento, mas que faziam parte do cenário: “Lembrem-se que ela não deixa de ser uma menina sonhadora, que acredita no lado bom das coisas, que acredita que agir de forma positiva atrai boas coisas, por favor, não sejam vocês os responsáveis por quebrar essa crença, eu não posso permitir”.

No entanto, apesar dos ecos interiores, nada gritei ou expressei, mas em minha mente os protestos continuavam os mesmos: “cuidem dela”.

notas do menino do banco de trás