na minha estante: Uma questão de loucura

Pictures2No mini romance Uma questão de loucura, o escritor albanês Ismail Kadaré relata suas memórias de infância na caótica Albânia, um pequeno país montanhoso da península balcânica, que por 400 anos pertenceu ao Império Otomano – Turco -, conquistou sua independência em 1912, se viu nas mãos dos nazistas e após a Segunda Guerra Mundial passou a mãos comunistas, onde permaneceu sob seu regime por 40 anos.

Em sua obra, Kadaré é um menino que se vê diante de um sentimento de muita tensão no meio familiar, alguém pode estar pensando em suicídio, o avô há tempos tem se comportado de maneira diferente, a escola tem ensinado por meio de livros considerados chatos pelo autor e seu melhor amigo. Desde a tomada comunista, o país não é o mesmo e vive com um sentimento de desconfiança e medo, mesmo dentro das próprias famílias há dúvidas e é com base nesse sentimento duvidoso que Kadaré baseia sua narrativa.

Esse é meu primeiro livro albanês e achei bastante interessante, fiquei interessada em conhecer o livro Abril despedaçado do Kadaré, que já foi, inclusive, título de filme brasileiro com o ator Rodrigo Santoro, que ainda não tive oportunidade de assistir. Para aqueles que curtem biografias mescladas à História, essa é uma obra para começar a entender um pouco o sudeste europeu.

Autor: Ismail Kadaré
Tradutor: Bernardo Joffily
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 72
Ano: 2005

na minha estante: Contos dos Irmãos Grimm

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Em Contos dos Irmãos Grimm, a Dra. Clarissa Pinkola Estés, psicóloga junguiana, traz um debate interessante a respeito dos contos de fadas e de suas contribuições centenárias. Ao longo da história da humanidade, diversas histórias foram contadas e recontadas pelo homem com a intenção de entreter, ensinar ou registrar determinado pensamento, os contos de fadas estão permeados de ensinamentos, muitas vezes morais, e essas lições estão ali de forma bastante simbólica, seja por meio de metáforas ou outras figuras de linguagem, que nos auxiliam a ver os contos como apenas entretenimento ou algo mais profundo. Àqueles que se permitem identificar os sinais poderão extrair coisas muito interessantes dessas páginas.

Após apresentar um panorama junguiano sobre os contos de fadas e de que forma eles podem nos ajudar a entender o inconsciente, você pode conferir histórias famosas como a de João e Maria enfrentando a Bruxa da casa de doces, bem como a de Chapeuzinho Vermelho que encontra o Lobo Mau na floresta. Há também aquelas histórias pouco conhecidas – pelo menos para mim – como a do Rei Barbicha, d’O pássaro de ouro ou Os três filhos da fortuna. Apesar de tantos contos, cinquenta e três no total, foram poucos – além dos conhecidos – que me encantaram ou sinalizaram algum aprendizado. Em geral os contos falam de pessoas belas, filhos ricos, príncipes e princesas transformados, aprisionados ou desafiados, pessoas bobas que no fundo são inteligentes, personagens gananciosos e malfeitores, pais que negligenciam seus filhos, e esses, apesar de tudo, alcançam o sucesso.

Ao final da leitura, fico com a crença de que nós enxergamos aquilo que queremos enxergar, e quando estamos prontos somos capazes de notar os sinais por trás de cada um desses contos. Não obstante, é possível notar a história de uma nação por meio dos contos de fadas, algo que também notei na obra organizada por Angela Carter (A menina do capuz vermelho e outras histórias de dar medo), escritora a quem Clarissa dedica este livro.

Àqueles que se interessam por histórias antigas e cheias de simbolismo, aconselho a leitura dessa obra!

Autora: Dra. Clarissa Pinkola Estés
Tradução: Lya Wiler
Ilustrações: Arthur Rackham
Editora: Rocco
Páginas: 310
Ano: 1999

na minha estante: Para onde ela foi

[ALERTA] Possíveis spoilers, se você ainda não leu Se eu ficar, sugiro não ler esta resenha. 

Para onde ela foi faz parte da estória de Se eu ficar (resenha aqui) da escritora norte-americana Gayle Forman. Em seu segundo livro, Forman por meio Adam Wilde, o roqueiro apaixonada pela violoncelista Mia Hall, um músico e compositor de sucesso frente à Shooting Star como guitarrista da banda, narra o desenlace da história do casal mais “improvável” da cena musical. Desde os acontecimentos de Se eu ficar passaram-se três anos e Adam é um músico ansioso, que recorre a medicamentos para dormir e enfrentar as duras jornadas em longas turnês ao redor do mundo, enquanto Mia é uma jovem prodígio da música clássica, que está em ascensão na Juilliard em Nova Iorque.

Mais uma vez me vi fisgada pela história e com muita facilidade a teria lido em um dia, pois a narrativa é construída de modo que você nem note o passar do tempo, além disso, é complicado não se envolver com as personagens ou desenvolver uma forte empatia pelo rapaz que fez a promessa mais difícil de sua vida. Ao longo da história entendemos o que os separou, quais foram os processos enfrentados pelos dois para lidar com a distância e o rompimento, bem como de que forma o destino os coloca diante um do outro novamente.

A estória, contada em fatos do passado e do presente, nos mostra o crescimento das personagens e também do enredo, de novo, ri, chorei e me emocionei com a história da “nerd e do descolado” e mais uma vez me encantei com a ligação dos dois com a música e com a forma que eles a percebem. Yo-Yo Ma entrou para a lista de músicos favoritos, muito por sua essência, mas também por me fazer sentir parte dessa história também.

Autora: Gayle Forman
Tradutor: Santiago Nazarian
Editora: Novo Conceito
Páginas: 219
Ano: 2014

Nota

Sobre o verão

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Às vezes o sol só quer saber de brincar e também de exigir, quer que seja de teatro e ele não pode ser nada menos do que o protagonista do espetáculo galáctico. As nuvens, criaturas delicadas e sensíveis, às vezes tempestuosas, não tem espaço nessa brincadeira, só depois de muito insistir é que conseguem um papel pequeno como coadjuvantes na peça do astro rei, o que não as satisfazem e por isso logo brigam, o tempo fecha e exaustas depois de algum tempo de encobrimento, fechar de cortinas e apagar das luzes, as nuvens debruçam-se no céu em lágrimas, feito crianças que acabam de perder seu brinquedo favorito.

Escrito em 20 de janeiro de 2015

na minha estante: As montanhas de Buda

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Admito, tenho um fraco por histórias orientais e de forma especial por aquelas que envolvem histórias de mulheres que venceram dificuldades – vide Memórias de uma gueixa, As garotas da fábrica, A cidade do sol, Do outro lado do destino, Prisioneira em Teerã, entre outras (que você conhecer aqui). A narrativa do escritor espanhol Javier Moro relata a marcha de duas jovens monjas tibetanas em busca da liberdade, não apenas pessoal, mas a busca pela libertação de uma nação oprimida – o Tibete – pela imensa e implacável China, com o seu imperialismo e a “Revolução Cultural”.

Para tanto, Moro nos conta duas jornadas em um livro incrível: a de Tensin Gyatso, o décimo-quarto Dalai-Lama, e de Kinsom e Yandol, as monjas tibetanas. Sobre o primeiro, Moro conta como os lamas descobriram a décima-quarta reencarnação de Buda no menino Tensin e como o educaram para seguir os princípios de não-violência, chamado de Oceano de Sabedoria (um nome belíssimo), o Dalai-Lama se vê muito novo obrigado a deixar sua nação e buscar refúgio em terras vizinhas, tudo por conta das imposições chinesas no Tibete. Em meio ao caos que os chineses criaram no país das neves, tibetanos ficam entre a cruz e a espada, sedentos pela libertação de seu povo, os cidadãos manifestam-se da única forma que conhecem: pacificamente, e ainda assim são punidos gravemente pela nação chinesa em terras tibetanas.

Kinsom e Yandol são duas das milhares de pessoas que se erguem contra o sistema opressor vindo do país vizinho e em um momento de desespero e terror as duas se conhecem e se reencontram à caminho da liberdade, numa forma inimaginável para nós que não vivemos esses dilemas, as duas mostram tanta coragem e determinação que fica impossível não se comover e se apaixonar por essa história.

Autor: Javier Moro
Tradução: Érci R. R. Heneault e Francisco José M. Couto
Editora: Planeta
Páginas: 255
Ano: 2010

Namorada Belga

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Em um dia qualquer de Janeiro ou Dezembro, ela, Olívia, a menina doce de alma colorida – dessas pessoas dotadas de afetos e paixões, que pintam sorrisos em todos que encontra – seguirá num tapete voador rumo a muitas confidências, um passo em busca dos segredos da Latinoamérica perdida e sabe por quê? Cansaço. Depois de algum tempo ela cansou de esperar à sua porta, cansou de aparecer apenas na última cena do livro egoísta que você vem escrevendo, quando tudo que você precisa é alguém para consolá-lo. Acabou. Ela virou as costas pra você e encontrou algo muito diferente à sua frente, assumiu o controle da própria vida e avançou uma casa na conquista de um presente e futuro melhores.

Com o passar dos anos, ao encontrar seus conterrâneos, fará questão de brindar à vida que construiu, pode ser com água, champanhe ou o bom e velho guaraná, pode ser na taça de vinho, na xícara de café com leite ou no copo de vidro que veio com o requeijão, não importa, acabaram as frescuras, o que conta é a celebração dessa descoberta chamada amor-próprio. E ao som da felicidade descobrirá boas novas ocultas nesse mundo esquisito, que insiste em querer controlar tudo e todos. Com determinação ela romperá as poucas cordas que ainda a mantém amarrada a costumes que não cabem mais em sua vida e dirá a quem quiser ouvir: vamo aí, pra qualquer lugar, o que importa é continuar caminhando.

No quarto de um albergue universitário do outro lado do globo, a menina de alma colorida sentirá a umidade no ar e o calor que abafam aquele cômodo bem iluminado com uma vista de perder o fôlego e estará feliz, não porque partiu como numa fuga, mas porque do passado ficará apenas a sensação de que fez algo para mudar, para melhorar seu próprio mundo e, de alguma forma, mudar também as coisas ao seu redor. O destemperamento daquele que antes era a nuvem no céu e sombra de árvore em dia quente não a importunará mais, pois ela terá se colocado em primeiro lugar e para isso precisou de certos livramentos, abrir a janela da alma para novos humores e pessoas agregadoras. E ela continuará caminhando. Sempre.