na minha estante: Retrospectiva 2014

RESUMÃO LITERÁRIO

na minha estante: Listografia

listografia

Listografia: sua vida em listas é um projeto da americana Lisa Nolan que pretende fazer com que você coloque no papel suas impressões, lembranças e recordações sobre diversos assuntos. O projeto de Nolan começou na internet, com a criação do site Listography, onde você pode criar listas sobre assuntos variados, desde coisas que você já fez até aquelas que você ainda quer realizar. E eu, como apaixonada por listas não poderia me manter à distância.

Desde de 2011 tenho uma conta no site (@meriniewo) e crio listas dos mais diferentes temas. Agora, com o livro, que ganhei de Natal de um importante amigo, posso ter essas e outras recordações registradas em livro, como um álbum de palavras e momentos. Meu plano agora é fazer um antes e depois, com essas listas em diferentes épocas de minha vida para que eu possa comparar mais à frente e ver o que mudou e o que manteve-se constante.

O livro bem acabado e cheio de ilustrações interessantes é um convite à lembrar e registrar, não por meio de fotos, mas sim por meio de mensagens escritas por nós mesmos e que podem – ou não – ser compartilhadas com outras pessoas. Eu já comecei a registrar no meu e você, o que acha dessa linha de livros interativos? Curte listas?

Autora: Lisa Nolan
Ilustrador: Nathaniel Russel
Tradutor: Rogério Durst
Editora: Intrínseca
Páginas: 160
Ano: 2014

Nota

Sobre a brevidade

Brevidade, qualidade do que é breve. Breve, adjetivo masculino do que dura pouco, curto, pouco extenso ou conciso, resumido. Em resumo, sendo breve e procurando não ser redundante – mas já sendo – às vezes me assusto com a rapidez que as coisas acontecem ou melhor como tantas coisas podem acontecer num curto espaço de tempo, nesse tempo que chamo agora de brevidade. É como o rio que em segundos sai da nascente e segue seu rumo, diferente a cada instante. Ou como o vento que muda de direção, de intensidade.

A brevidade, esse ser que existe e que nunca vimos, esse ser desfigurado, mas que paira sobre nossas cabeças, cabe no espaço de inspirar, beijar, abraçar, piscar e sonhar, às vezes até mesmo no espaço de viver. É aqui que percebemos como demoramos para notá-la, notar sua capacidade de tornar tudo eterno. Esse instante que dura tão pouco tempo marca o que fizemos ou deixamos de fazer. Quantos momentos como este deixamos passar vazios? Quanto vale um instante? De que forma podemos preencher esse espaço tão pequeno que se expande na medida que ganha notoriedade?

Só sei que a cada novo olhar para a velhice me faz perceber o quão importante é dar valor às pequenas coisas. Algo simples como respirar torna-se uma vitória diária.

devaneios madrugueiros

Trinta metros quadrados

Pictures2

Dia desses me peguei te observando dormir. De bruços naquela cama de solteiro velha, estilo King, um pouco maior do que a convencional, que você ganhou do seu pai no dia em que saiu de casa para um lugar próprio teu. Naquela noite, apesar do frio, as costas nuas estavam descobertas e as marcas de guerra ficaram à mostra, sinal, acredito eu, de extrema confiança, pois você jamais se permitia tamanha exposição. Sentia-me grata pelo gesto. Para completar a cena quase angelical, uma respiração leve e tranquila, daquelas de dar inveja à qualquer insone, tranquilizava a mim também.

Te observei por alguns minutos, quem sabe até por horas, não sei, concordamos em não deixar relógios naquele cômodo que chamamos de quarto, então não pude calcular o tempo que fiquei ali. Só lembro de, depois de muito te examinar, fechar os olhos e mentalmente percorrer cada um dos lugares que havia visitado tantas vezes e que naquela noite revisitei a alguma distância – mais precisamente da cama, o ponto A, à poltrona, o ponto B.

Nomeei cada uma de suas cicatrizes, como você costuma chamar os sinais que para mim são monumentos, traços de uma vida, tombados pelo patrimônio histórico sob a presidência de uma mulher forte, mas que jamais negou a proteção daqueles braços e mãos que em momentos de medo, tristeza e desespero foram os primeiros a se voluntariar para defendê-la.

Em diversas ocasiões disse a ele o quanto amava cada um desses monumentos, embora ele receoso desacreditasse. Cada uma dessas cicatrizes já curadas, até as tatuagens desenhadas na pele que gentilmente me toca dia e noite, são retratos de alguém que viu muito da vida em pouco tempo. Ainda que ele constantemente me diga que é exagero e que só digo isso porque sou boazinha demais. Besteira. Quando se ama, se ama por completo!

Em um momento que não sei dizer se era sonho ou realidade, ouvi a voz rouca dele sussurrar ao pé do meu ouvido, quase numa prece, “bom dia, linda, como é bom acordar e descobrir você ao meu lado! Levantar e encontrar este sorriso doce a me receber benevolente para mais um dia de luta, o que mais posso querer?”.

Ainda que vivamos cem anos juntos jamais me cansarei dos olhares vidrados e amáveis que me seguem onde quer que eu vá, do quarto à sala de estar. São tantas histórias vividas um ao lado do outro, tantas dificuldades enfrentadas juntas, tantas brigas solucionadas por diálogos matutinos e corteses que eu não me canso de dizer que amo cada pedacinho dele, dos dedos dos pés aos fios de cabelo, do coração à cabeça, da tatuagem meio infantil de balão de ar no antebraço direito à cicatriz na escápula. Detalhes que me fazem livre num apartamento cinco por seis.

das memórias de Valentina
dezembro de 1999

Nota

Ensimesmada

Capa si mesmo

Relendo os cadernos da faculdade encontrei uma frase interessante: “Ninguém escapa de si mesmo” e logo me passaram mil coisas pela cabeça: o novo CD do Jay Vaquer (Umbigobunker!?), tudo o que passamos durante as nossas vidas, todos os nossos dramas e conflitos. E olha quem quer que tenha dito essa frase estava certo. Não escapamos de nós mesmos. Querendo ou não o ser humano não é fácil de lidar, ainda mais quando existem conflitos internos. São tantos medos, dúvidas, inseguranças, sonhos. É quase impossível não surtar. E quando li que a próxima música dele seria Meu melhor inimigo não pude deixar de associar a esse assunto. Somos auto-destrutíveis e não há como negar: somos os maiores responsáveis por algo não dar certo em nossas vidas, principalmente porque costumamos nos boicotar.

[Acréscimo] Mas também somos capazes de grandes transformações. Tudo está dentro de nós. Às vezes é apenas uma semente que precisa ser regada.

Escrito em 04 de novembro de 2011

na minha estante: Aleph

Capa Paulo Coelho

Aleph é a minha segunda leitura de Paulo Coelho e continuo gostando de sua maneira de escrever. Dessa vez o livro é bem diferente de O Alquimista, a obra tem um teor claramente intimista, mais pessoal e está focada em mostrar a jornada que o autor percorreu para encontrar novamente o seu próprio reino. E como ele descreve isso? Com muitas informações simbólicas e, como tudo na vida, nem todo mundo gosta e nem é obrigado a gostar, o que é bom, porque cria diversidade, debate e reflexão. Contudo, do modo como sou e no momento que estou, toda a simbologia é algo que me atrai, gosto do modo como o autor trata de questões sobre autoconhecimento e como encontrar forças e coragem para seguir em frente com essas descobertas.

Em Aleph, Paulo Coelho narra sua incrível viagem pela ferrovia Transiberiana, onde atravessou sete fusos horários diferentes, de um extremo ao outro da Rússia para aprender mais sobre quem ele é, por que está aqui e para quê. Nessa viagem é acompanhado por uma russa enigmática chamada Hilal, seus editores russos e o tradutor Yao. Todos, de uma forma ou de outra, embarcam não só na Transiberiana, mas também numa jornada pessoal. E acredito que isso fez com que eu me identificasse ainda mais com a leitura, pois creio que todos estamos nessa busca, alguns mais conscientes disso, mas no fundo todos buscamos descobrir mais informações sobre quem somos e o que esperamos desse caminho. Uma passagem que retrata bem o que é o livro é esta:

Nossa vida é uma constante viagem. A paisagem muda, as pessoas mudam, as necessidades se transformam, mas o trem segue adiante. A vida é o trem, não a estação.

Esse é o trecho que aponta a síntese das ideias que Paulo Coelho parece querer transmitir a nós em Aleph.

Outra frase que me marcou muito foi a sobre os sonhadores: “Sonhadores não podem ser domados”. Aos sonhadores, àqueles que buscam, o livro é um alento. Permitam-se! Comprometam-se! Vale a pena.

Autor: Paulo Coelho
Editora: Sextante
Páginas: 256
Ano: 2010