Turma de 2012

utfpr

Boa noite mesa diretiva, formandos, pais, familiares e amigos, quem diria, chegamos ao fim de mais uma etapa¹.

Hoje, este momento, essa noite só é possível porque 3, 4 ou 5 anos atrás ingressamos no Curso de Comunicação Institucional apostando que seria uma das coisas das quais gostaríamos de conquistar e da qual sentiríamos orgulho. E como sentimos! Lembrar do banho de lama ou pensar nos olhos vidrados na tela do computador, o choro, o riso, os abraços e as parabenizações, que diria que tudo isso nos traria até aqui.

Sei que é bastante clichê narrar a trajetória construída ao longo do curso, de longe é quase sempre tão igual: estudamos horrores, com cursinho ou sem, noites de estudo, finais de semana sem sair de casa, recusando convite dos amigos e até de familiares, tudo por um objetivo único. E então vem aquela notícia que tanto esperamos: aprovados na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Então é impossível conter a alegria. Cada um comemorando à sua maneira, mas de alguma forma o sentimento de realização é o mesmo para todos.

E então vem o primeiro dia de aula, com ele as primeiras ansiedades, a turma nova por descobrir, professores, ambiente, rotina, tudo novo e tudo um pouco como antes.

Primeira semana tem a confraternização com os veteranos.

De modo geral é nesse momento que nos aproximamos mais de alguém e  é aí que começam os primeiros círculos de amizade. Contudo, não posso deixar de mencionar algo muito interessante: as turmas de comunicação sempre expandem esse círculo. Tudo bem, você continua tendo os amigos mais próximos, com quem faz trabalhos e se encontra no final de semana, mas mesmo assim, sempre que possível lá está a turma de Comunicação. Não era raro ouvir comentários,” ah, essa bagunça toda deve ser o pessoal de Comunicação” ou “aquele grupo todo ali é de Comunicação e são de períodos diferentes, dá pra acreditar?” Pois é, somos bagunceiros, festeiros e temos esse hábito de falar alto por natureza.

Os queijinhos eram poucos para o tamanho da turma. Começava com o primeiro aluno a chegar às aulas, antes das 7h30, e que ocupava logo um lugar no Bloco E e então chegavam outros colegas, desde o calouro até aquele que insiste em permanecer na Universidade, pelo simples fato de querer manter alguma raiz. E essas raízes, bem, são profundas. São profundas porque o que me vem a cabeça, e acredito que a dos meus colegas também, são as inúmeras histórias que compartilhamos na UTFPR. Algumas ligadas à sala de aula e a professores que já nos assustavam antes mesmo de os conhecê-los, né Zama². Ou matérias que já ansiávamos pois todos os comentários eram de que era divertido fazer aquilo.

Não podemos esquecer dos momentos engraçados, aquele das histórias dos e-mails compartilhados e nos quais, algumas vezes, aconteciam desvios e precisávamos explicar o ocorrido, não é Márcio? Ou falas como o “povo é uma pedra” ou “lembre-se de Pedro” ou ainda os “pródromos da independência”, além de tantos outros fatos e momentos que marcaram as turmas e as histórias construídas nesses anos de estudo. Cada um aqui levará consigo marcas que jamais serão apagadas, porque no fundo é isso que faz valer a pena. O diploma é uma conquista individual, mas todas as outras experiências vividas na universidade você conquistou como equipe, como parte de uma turma e da qual, apesar das dificuldades, levará lembranças memoráveis.

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Escrito em 20 de novembro de 2012 às 12:20

¹ texto escrito por hobby como discurso de formatura
² professor de ética e psicologia da Comunicação, patrono da turma de 2012

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na minha estante: O espetáculo carnívoro

Capa Desventuras

Faz algum tempo que ganhei alguns livros numa doação e entre eles estava o novo livro da saga Desventuras em Série, de Lemony Snicket, que conta a história quase trágica dos órfãos Baudelaire. Formados pelos irmãos Violet, Klaus e Sunny, os órfãos Baudelaire são ricos e talentosos: a primeira é inventora, o segundo é pesquisador e a terceira é mordedora, sim, dentes afiados. Fiquei animada com a leitura porque gostei bastante do filme lançado em 2004 – gente, dez anos já! -, mas também já estava pré-avisada de que a história poderia ser um pouco cansativa.

Resolvi arriscar. Não li nenhum outro livro da saga e comecei logo pelo quase final da história e claro, não posso dizer que tendo visto o filme eu sei todos os detalhes da história, fiquei um pouco perdida com alguns nomes e referências de fatos e momentos que os jovens Baudelaire investigavam e não sabia o que tinha acontecido antes com eles, a não ser aquilo que vi no filme. Contudo, acho que isso não prejudicou a visão que tive do livro. Na verdade achei ele bastante repetitivo, talvez Lemony Snicket, pré-julgando que os outros livros não foram diferentes, poderia ter condensado tudo num livro apenas e poupado em algumas observações, que pra mim ficaram bastante maçantes.

Snicket, que atua diretamente como o narrador da história, conta como os órfãos chegaram ao Circo Caligari e como encontraram-se novamente diante da trama do vilão, Conde Olaf. Também é nessa aventura que a vidente e dona do circo, Madame Lulu, consegue novas aberrações para o entretenimento do público, que nunca está saciado. Os fatos não são repetidos, mas diversas afirmações são ditas mais de uma vez e isso cansa.

Apesar de a história não ter sido sensacional, foi um bom passatempo e o projeto gráfico compensa, pois é impecável.

Autor: Lemony Sicket
Tradutor: Ricardo Gouveia
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 240
Ano: 2005

Onde consegui asas

Desafio2-mãe-Ela era mais do que um anjo mais do que mulher

Muitos buscavam o segredo escondido detrás daquele emblemático quadro feminino exposto no consultório do Dr. John, além, é claro, de seus conhecimentos sobre oftalmologia. Ele sempre fora tido como um homem brincalhão, dado a piadas e histórias cômicas, a figura pálida e gótica destoava bastante de seu jeito bem humorado e por que não engraçado de encarar a vida.

Muitos foram os pacientes que passaram por aquele consultório. Alguns intrigados, outros nem notavam a obra exposta às costas do médico, alguns sentiram certo medo, no entanto, ninguém nunca questionou John a respeito da imagem.

Num dia atípico de verão, frio e chuvoso, uma moça – paciente nova de vinte e poucos anos – chegou para a consulta com esperanças de ver seu problema solucionado. Ou pelo menos quem sabe encaminhado para algum desenlace. Ao sentar-se diante do doutor, a moça olhou diretamente em seus olhos e disse de forma doce: “doutor, tudo o que vejo diante de mim são borrões, falhas, coisas incompletas em tons de cina, tem jeito?”

Apesar dos anos de carreira, de início ele ficou um pouco incerto quanto às iniciativas que deveria tomar em seguida. Fez algumas avaliações e exames ali mesmo no consultório e não encontrou nada errado. Tudo apontava para uma visão perfeita. Intrigado fez mais algumas perguntas a respeito dos sintomas que ela dizia sentir.

– Não sei o que aconteceu, mas aos poucos fui perdendo a visão. No começo sumiram as cores e tudo foi substituído pelo cinza melancólico. Com o tempo os borrões somaram-se aos tons de cinza e agora eu vejo falhas e coisas incompletas. Estou tão triste – disse a moça de olhos bonitos baixando a cabeça num sinal de pesar.

– A tristeza veio antes ou depois dos sintomas? – questionou ele gentil.

– Antes. E com a visão desse jeito só vejo piora desse desalento – afirmou ela entre lágrimas.

Com compaixão, ele levantou e foi até ela, apoiou a mão em seu ombro e passou o tratamento:

– Talvez você ache estranho, mas aqui estão alguns dos pontos principais do cuidado que deve ter a partir de agora.

Na receita dele estava escrito: “tenha sonhos, encontre alguém com quem agir de forma boba, viva para ter histórias para contar, preserve um refúgio – interno ou externo, tenha um propósito para a vida, permita-se ir à loucura de vez em quando, fuja da estática e acima de tudo permita-se valorizar o lado bom das coisas, não é feio ser otimista, e isso não te impede de ter compaixão pelos menos favorecidos. Ser otimista não significa fechar os olhos”.

Com certa dificuldade, como quem lê uma cópia mal feita, produzida de forma arcaica, a moça leu a receita médica e de início, incrédula, negou tudo que estava escrito ali. Descrente ela deixou o consultório.

Alguns meses depois, na última consulta do dia, Dr. John já estava cansado, mas ainda tinha alguém para atender. Uma mulher de sorriso grande e olhos bonitos entrou em seu consultório e sem cerimônias foi logo dizendo ao doutor que o quadro em suas costas era maravilhoso.

Disse também que aquela figura pintada ali a lembrava muito. Era como se ela visse uma mulher que tornou-se livre e que agora sabia com todas as forças para onde olhar, que era possível ser rainha, anjo e mulher, tudo ao mesmo tempo, sem esquecer de ser doce e olhar com amor o próximo.

Dr. John apenas sorriu.

Nota

Não nos conhecemos

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Ela era apaixonada por aquela voz grave de cantor de música country, que de forma constante e apaixonada sussurrava ao pé do ouvido: “vou fazê-la feliz, não importa o que venha a acontecer”. A camisa largada, solta sobre a calça jeans bem cortada, apesar de desbotada, era sua marca pessoal. E não posso esquecer de mencionar o sempre fiel suéter marinho nos dias frios e a jaqueta de brim marrom em dias de muito vento. Nos olhos castanhos firmes e gentis um bom gourmet, que quando a encontravam sorrindo a devoravam em um instante, já em momentos de maior intimidade pareciam querer tocá-la delicadamente como se buscassem sua alma em outro corpo. O jeito rústico, meio tímido e meio grosseirão daquele rapaz de cabelos pretos desgrenhados desapareciam através dos gestos de gentileza e carinho para com ela. Parecia algo dedicado somente à moça de cabelos castanhos curtos e sorriso doce. Ao observá-los tive a impressão de que o principal objetivo na vida daquele homem incomum era fazer aquela moça de vestido branco feliz e pelo sorriso no rosto e brilho nos olhos dela ele parecia estar fazendo tudo certo.

na minha estante: Extraordinário

Realmente eu devo estar com muita sorte – ou o mercado editorial é mesmo um mar de coisas incríveis -, porque tenho encontrado tantas leituras boas (que no fundo eu acho que estão me encontrando) e isso tem me alegrado muito. E por isso sou muito grata.

E essa onda de sorte começou na semana passada, talvez retrasada, não lembro. Fui ao mercado comprar algumas coisas que estavam faltando aqui em casa e trouxe comigo três novos itens para a biblioteca e no final todos eles foram além do objetivo de entreter ou passar o tempo. Todos me trouxeram mensagens bacanas e importantes. O primeiro foi “O alquimista“, o segundo “O oceano no fim do caminho” e agora “Extraordinário”.

E sem querer partir para o clichê, mas já partindo, que EXTRAORDINÁRIA história. Maravilhosa. E correndo o risco de gerar uma grande expectativa em você que está lendo essa resenha, acredito mesmo que R. J. Palacio construiu uma obra belíssima sobre amizade, gentileza, coragem e transformações.

Palacio nos apresenta Auggie, August Pullman, um menino incomum – por motivos que você só vai descobrir quando ler essa raridade -, vindo de uma família tão cheia de amor que é impossível não sentir vontade de conhecê-la melhor. A história de Auggie é contada por meio do ponto de vista de diversas personagens, incluindo ele mesmo, e flui de maneira mágica.

Li o livro num dia. Livro que me fez rir, sorrir, chorar, sonhar, divagar, pensar, como há tempos nenhum livro fazia. E apesar do encerramento impecável, com uma história fechadinha, desejei muito que a história continuasse, pois nela mais uma vez aprendi o poder que existe em ser gentil – assim como em O lado bom da vida -, mas também que a maneira como enxergamos e tratamos os outros mostra quem realmente somos.

Resumidamente, “Extraordinário” pode ser classificado como o livro para voltar a ter fé na humanidade.

Autora: R. J. Palacio
Tradutora: Rachel Agavino
Editora: Intrínseca
Páginas: 320
Ano: 2013

na minha estante: O oceano no fim do caminho

Capa O Oceano

Vamos lá! Há muito que ouço falar dele, mas esse é o primeiro livro de Neil Gaiman que leio. E quando termino a leitura fico com aquela cara de “será que está certo o que acabei de ler?” Contudo, antes de qualquer coisa, ao começo.

A primeira vez que ouvi falar do livro foi no blog da Sté (New Laurel) e confesso que acabei me interessando demais por duas coisas: primeiro pelo título e segundo pela capa belíssima, um excelente trabalho da Intrínseca.

Mesmo assim ainda me pergunto por que ir atrás de lê-lo? Ultimamente acredito que não sou eu quem escolhe os livros e sim o contrário. Foi assim com “O alquimista” e espero que o mesmo efeito ocorra com “Extraordinário”.

Mas voltemos ao assunto…

Como colocar em palavras o que senti quando li o livro? Confesso que num primeiro momento foi como estar na cabeça de algum maluco. No entanto, mais uma vez acredito estar diante de uma gigantesca metáfora. Pode até parecer uma obsessão, mas em “O oceano no fim do caminho”, Gaiman parece trazer à tona diversas sensações que sentimos na passagem da infância para a vida adulta, todas narradas por um homem de meia-idade que em um dado momento recorda-se de sua infância, não sabemos o nome dele, mas isso não importa.

Ele fala das transformações dos medos e da capacidade que temos de acreditar e ter fé nos outros, quando ele confia de todo coração em Lettie Hempstock – a menina que morava no fim do caminho. Ele nos lembra também que quando somos infantes, mesmo no meio da tempestade, apreciamos os pequenos prazeres da vida, são elas que nos permitem sobreviver e acima de tudo nos escancara uma verdade que custamos a enxergar: corações partidos ainda são capazes de bater.

“- Como você pode ser feliz neste mundo? Tem um buraco no seu coração. Você possui um portal aí dentro para terras além do mundo conhecido. Eles o chamarão durante toda a sua vida.” (GAIMAN, p. 158)

Lembre-se, às vezes o sofrer é apenas uma questão de ponto de vista. Quanto ao resto deixo que vocês descubram os segredos por conta própria, mas saibam que me vi diante do questionamento: enxergar a vida na perspectiva de um lago ou de um oceano?

Autor: Neil Gaiman
Tradutora: Renata Pettengill
Editora: Intrínseca
Páginas: 208
Ano: 2013

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Imagem: “Vou dizer uma coisa importante para você. Os adultos também não se parecem com adultos por dentro.
Por fora são grandes, desatenciosos e sempre sabem o que estão fazendo. Por dentro, eles se parecem com  o que sempre foram.
Com o que eram quando tinham a sua idade (criança). A verdade é que não existem adultos. Nenhum no mundo inteirinho”. (GAIMAN, Neil).