Nota

Uma memória de você

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Era uma praia não muito extensa. De onde o rio deságua até as pedras na ponta oposta não leva mais do que dez minutos para percorrer. Ainda encontro graça quando lembro das marcas que fazíamos na areia para contar o número de vezes que íamos e voltávamos naquela praia, só pela vontade e oportunidade de fazermos isso juntos. Lembro também do aquário que preenchemos com mucunã, mais popularmente chamada de olho de boi, que recolhíamos ao longo do caminho. Chegava a parecer uma competição ferrenha, embora nenhum de nós levasse ao final do torneio mais do que o maior número de olhos de bois coletados e a chance de dizer que notou mais os pequenos detalhes ao longo da orla. Apesar de muitas vezes ganhar nosso pequeno torneio, no fundo tenho de admitir, você era o rei das lembranças e da boa memória. Parecia que nada passava despercebido por você, apenas os pequenos mucunãs não se “mostravam” pra você. Talvez você fizesse isso de propósito. Lembra daquela noite que resolvemos procurar siris e de repente vimos que aquele lugar quase particular estava ocupado por um grupo que fazia um luau? Aposto que se lembra. Fiz a maior cena para sair dali e voltar noutro dia e você com um sorriso doce disse que aquele recanto era para todos os desajustados. Ainda riu afirmando que havia espaço para todo mundo por ali. Brinquei dizendo que só caberia todo mundo ali se alguns arriscassem entrar no mar. E você, mais rápido que o meu arrependimento, me pegou em seus braços e correu em direção ao mar. Era lua cheia. Começava a chover. Jamais vou esquecer o quanto te odiei e te amei naquela noite.

do diário de Adèle
2006

na minha estante: Cinquenta tons do sr. Darcy

cinquenta-tons-do-sr-darcy-emma-thomas-6555-MLB5081351742_092013-FSim, este é um daqueles momentos de total constrangimento, pode falar, eu sei. Apesar de ser contra essa questão de sentir vergonha de ler determinado tipo de livro, neste caso eu fiquei bastante constrangida, não pelo conteúdo sadomasoquista, mas pela forma como o livro foi escrito. E sinto que talvez Jane Austen também teria ficado ao saber a forma como seus personagens tão queridos foram trabalhados nessa trama de alguém que se escondeu atrás do nome Emma Thomas.

Para aqueles que não acompanham as resenhas que posto aqui no blog, gosto muito de ler outros livros baseados em histórias de Jane Austen. Já li Morte em Pemberley e Austenlândia, o primeiro como continuação de Orgulho e Preconceito e o segundo retratando mais os efeitos das obras nas pessoas nos dias de hoje. Mas quando comprei Cinquenta tons de sr. Darcy no sebo não imaginei que seria tão chato.

Demorei um tempão para conseguir terminar de ler o livro. Em nenhum momento me senti curiosa para saber o que viria pela frente. Sabe aqueles estilos de filme “Todo mundo em pânico”? Foi como se eu tivesse lido o roteiro que alguém pensou para desconstruir o clássico de Austen e mixar com a febre de James. Claro que como paródia o livro realmente alcançou seu objetivo: “releitura cômica de alguma composição literária , que frequentemente utiliza ironia e deboche”, do cômico eu não vi muito, mas da ironia e deboche sim, acredito até que quem escreveu tivesse a intenção de mostrar o quão ridículas poderiam ser as duas situações, onde o homem era o dominador e a mulher a submissa, mesmo quando Elizabeth Bennet mostrava-se uma personagem além de seu tempo. No entanto, tudo me pareceu bastante superficial. Além disso, encontrei diversos erros, desde nomes trocados até falha na continuidade das histórias das personagens.

Depois de terminar o livro, com bastante atraso, li a sinopse:

Imagine Elizabeth Bennet e o sr. Fitzwilliam Darcy, protagonistas de Orgulho e preconceito, jogando para escanteio a moral e o recato, tão costumeiros na terra da rainha, e dando vazão a seus desejos mais ocultos de forma ainda mais pervertida que Christian Grey e Anastasia Steele, protagonistas de Cinquenta tons de cinza. Se Jane Austen estivesse viva (o que seria bizarro, já que hoje ela teria mais de 200 anos), ficaria chocada. Mas é isso o que acontece em Cinquenta tons do sr. Darcy, a paródia mais inusitada e engraçada do século XIX – ou melhor, de todos os tempos!

Inusitada tudo bem, mas engraçada? Não vi graça em nenhum momento, os novos nomes para os personagens parecem aqueles apelidos bobos infantis, o sr. Bingley tornou-se Sr. Bingulin (oi?) e Lady Catherine DeBourgh é agora Lady Catherine De Bruços. Incluíram inclusive Phil Collins nessa trama infame, como o primo sr. Collins. Trágico! O final então, vish, nem se fala.

O único fato intrigante na história toda é que muitas vezes a autora ou autor dialogava com os personagens e me parecia ter uma baixa autoestima. Inúmeras vezes mencionava coisas de que não lembrava direito e os personagens respondiam debochando. Não sei qual a intenção dessas informações serem compartilhadas, mas acho que isso só enfraqueceu ainda mais o texto. Esse com certeza não é um livro que eu recomende. Só me serviu para saber que releitura em forma de paródia não é a minha praia. Sendo que, a única parte que me parece ter sentido está na orelha do livro:

EMMA THOMAS é um codinome. Na verdade, um inglês mundialmente famoso escreveu este livro. Talvez tenha sido o David Beckham, vai ver  foi alguém do Palácio de Buckingham ou um dos Rolling Stones (a julgar pelo nível de loucura, deve ser a última opção). Mas pode ter sido qualquer um. Não importa: alguém fugiu do manicômio e teve a ideia de unir Orgulho e Preconceito e Cinquenta tons de cinza. O resultado é Cinquenta tons do sr. Darcy, uma das maiores loucuras postas no papel.

Pseudônimo: Emma Thomas
Tradução: Natalie V. Gerhardt
Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 304
Ano: 2012

na minha estante: Diana – O último amor de uma princesa

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Faz algum tempo que a minha mãe está com o livro da Diana na cabeceira dela e por curiosidade resolvi emprestá-lo a fim de conhecer um pouco a história dessa mulher que marcou uma época. E apesar do pouco contato que tive com a história dela, apenas sete anos, ainda assim me parecia uma mulher com uma história interessante para contar.

Em ‘Diana: o último amor de uma princesa’, Kate Snell, autora do livro, procura se ater à construção cronológica da vida da princesa de Gales, desde a infância, a fim de nos apresentar um pouco da personalidade da mãe do futuro rei da Inglaterra. Pouco ela fala da tragédia que tirou a vida de Lady Di tão cedo, aos 36 anos.

O relato se concentra no romance de Diana com o cirurgião paquistanês Hasnat Khan e o porquê dele ter sido o último amor de Diana. Em um certo momento foi impossível não lembrar da personagem Anna Scott, interpretada por Julia Roberts em ‘Um lugar chamado Notting Hill’, que diante de uma disputa acirrada para ganhar a última fatia de bolo diz: “E todas as vezes que sofro por amor, a mídia aproveita-se disso e trata como entretenimento”. Imagino quantas vezes Lady Di passou por isso e apesar da imagem forte e durona que ela transmitia, por meio do livro percebemos o quão frágil era ela e o seu maior desejo era ser amada.

Não vou me prender a contar a vocês o que está exposto nas duzentas e poucas páginas dessa biografia. Mas posso adiantar que, mesmo com o final triste conhecido por todos, o livro também é bastante pesaroso. É possível, em muitos momentos, se identificar com os desejos e anseios da princesa.

De forma bastante irônica, ao terminar o livro me questionei sobre a curiosidade que sentimos em saber da vida do outro, e essa busca incessante da mídia em alimentar essa indiscrição.  Por que nos preocupamos tanto com o como o outro vive a sua vida, com quem ou para quem? Não nos interessa de verdade. A princesa de Gales, infelizmente, alcançou um final trágico em partes por conta da sede da mídia em querer vender algo que devia pertencer somente a ela e a quem está com ela e mais ninguém: o espaço dela.

Acredito que esta biografia me mostrou um lado de Diana que eu não conhecia, é impossível não se emocionar com o seu lado humano, generoso, que olha o outro como uma pessoa de verdade, mas sua biografia teve como principal missão me mostrar o quão doente estamos por informações que não nos dizem respeito e é preciso respeitar esse espaço. Espero que toda a vez que eu pensar em bisbilhotar a vida de alguém, eu repense antes de fazer isso.

Autora: Kate Snell
Editora: Prata
Páginas: 232

Doces rabiscos

Tudo é Silêncio1

Ela é apenas uma garota cheia de sonhos. Na calmaria vista naqueles que andam nas nuvens, flutuando acima do terreno, ela, doce e delicada, flutua igual e busca em seu caderno registrar todos os passos de um novo caminho. Rabisca linhas e mais linhas de palavras mal traçadas e mesmo assim profundas, sobre situações e momentos que ainda não viveu, mas que, quem sabe um dia, viverá. As páginas de um diário nunca foram suas amigas. Falar de coisas que já aconteceram parece muito limitado. Já foi, não é possível mudá-lo, alterá-lo, nem colori-lo, se o fizer estará contando algo que nunca aconteceu. Já o futuro, ahhh, o futuro é cheio de vazio, uma imensa página em branco, um espaço oco imenso para ela preencher com tudo aquilo que ela mais desejar.

do moleskine de Olívia 

na minha estante: Não conta lá em casa

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Final de semana, feriado de independência brasileira e, de quebra, feriado na segunda-feira por conta da padroeira de Curitiba. Tudo junto num misto de “tenho três dias” para ler e ficar “à toa”, mas que acabou recebendo um excelente upgrade com o convite da Thai para ir para a praia, curtir o mormaço permitido de forma humilde pelas nuvens que cobriram o céu paranaense.

Então, fui à praia ler.

Entre caminhadas, comilança e dormidas, reservei um tempo muito bom para ler o livro “Não conta lá em casa: uma viagem pelos destinos mais polêmicos do mundo”, do jornalista brasileiro André Fran, de apenas 308 páginas, cheio de imagens e um conteúdo contado de forma divertida e leve, apesar do conteúdo sério do livro. Fran narra a aventura em que ele e mais três amigos (UFO, Leondre e Pesca) resolvem visitar e retratar destinos que não fariam parte do roteiro de muitas pessoas. São países vistos, muitas vezes, como polêmicos pelas nações ocidentais, com exceção de Dinamarca, Itália e Japão, que entraram na jogada por motivos também bastante interessantes.

Com apoio do canal Multishow, que após ver a apresentação dos rapazes sobre Myanmar – o primeiro destino da série -, apoiou os quatro, que embarcaram em viagens incríveis por destinos como Irã, Iraque, Afeganistão, Itália, Indonésia, Dinamarca, Japão, Somália, Etiópia, Tuvalu e Coréia do Norte (componentes das 1ª e 2ª temporada da série na TV). Em cada um desses países, os meninos cariocas buscaram retratar algo que, na visão deles, mostrasse de fato a cultura daqueles países. Não só se focando em suas formas de governo ou a religião dominante, mas sim no conteúdo humano, nas pessoas que compõe aquele destino. Procuraram mostrar um pouco como eles gostariam que o seus países fossem retratados, lembrando que nem tudo o que está sendo divulgado na mídia é verdade.

E então a busca por destinos polêmicos tornou-se uma busca por pessoas e suas ideias, suas atitudes diante da dificuldade e também suas ambições e revoluções pessoais. Não é preciso dizer que devorei o livro. Também não nego que fiquei curiosíssima para saber como seria uma versão feminina dessa empreitada, apesar de saber que seria algo bastante arriscado em muitos desses destinos, mas isso fica para uma próxima, quem sabe.

Àqueles que gostam de narrativas bem contadas, ainda mais sobre viagem e História recomendo e muito a leitura desse livro, não brasileiro, mas já global, com uma visão bastante importante que precisamos ter a respeito de ditaduras, fanatismo religioso, meio ambiente, guerras e outros assuntos tão interessantes que podem abrir nosso pensamento para algo maior.

Autor: André Fran
Editora: Record
Páginas: 308
Ano: 2013

na minha estante: Bling Ring

Capa Bling Ring

Na contramão de muitas de minhas leituras, Bling Ring veio às minhas mãos por meio da vontade (e incentivo) de saber mais sobre a “Gangue de Hollywood”. O fato de curtir biografias fez com que o interesse fosse ainda maior.

Meu primeiro contato com a história aconteceu por meio do filme de Sofia Coppola, lançado no ano passado (2013), baseado no artigo de Nancy Jo Sales para a Vanity Fair, “Os suspeitos usavam Louboutins“, que conta a história de adolescentes acusados de invadir, roubar, usar e vender roupas, relógios, quadros, drogas e outros bens de celebridades americanas, em Hollywood. Não nego que num primeiro momento, ao sair da sala de cinema, minha visão do filme era pura e simplesmente: “quanta futilidade”. Tudo parecia tão irreal que chegava a parecer forçado. Eu me perguntava: “por que jovens, aparentemente bem financeiramente, precisavam ou desejavam roubar celebridades? De onde vinha essa vontade? Por que fazer isso?”.

A fim de responder essas e outras questões, Nancy Jo Sales publicou Bling Ring, um retrato da Gangue de Hollywood, mas um retrato que vai além das vidas desses adolescentes, ela também aborda a crise da atual sociedade americana, que há anos parece venerar a fama e o “estilo de vida” das celebridades, muitas vezes conquistado de maneira rápida e sem muito esforço, que elevou pessoas “comuns” ao estrelato, seja por meio de vídeos de sexo que caíram na rede ou reality shows como American Idol ou The Hills. Em seu livro, Sales nos apresenta números e mais números, assustadores, sobre a maneira como as celebridades e o mundo glamouroso são vistos pelos jovens e o quanto e como isso afeta a vida de cada um de nós – muitas vezes atingindo a autoestima e o modo como a juventude quer ser vista pelos outros.

A fama, o estrelato ou o não ser anônimo parecem ser os novos sonhos juvenis. Fica claro, pra mim, que com o surgimento das mídias sociais, ficou ainda mais “fácil” alcançar certa fama, o que não tornou nada fácil a vida de artistas que buscam a privacidade. Item esse que parece ter virado artigo raro.

A falta de privacidade (e também a de bom senso) fez com que tudo alcançasse uma exposição ainda maior, todos parecem sentir uma estranha necessidade de se afirmar e de divulgar onde estão, com quem e o que estão fazendo. Informações que são “ouro” para sites de fofocas e colunas sociais como o TMZ (que acompanhou de perto a Bling Ring), que ganharam mais destaque e visibilidade nos últimos tempos.

O que ganhamos sabendo o que e com quem determinado artista saiu? O quão relevante é saber que marca determinada celebridade consome? Por que nos importamos com esse tipo de “notícia”?

Sales tenta responder essas questões e é interessante ver a linha de raciocínio desenvolvida pela jornalista para construir a história do caso Bling Ring. Estamos a todo momento sendo bombardeados por “matérias” que tratam pura e somente dos padrões de vida das celebridades, ou ainda que definem o “modo certo de se vestir”, onde comer ou estudar, e estamos sendo influenciados a agir como robôs, sem pensar, apenas replicando um modo de vida que não condiz com quem somos, muito menos com o que podemos (e queremos) consumir. E é aí que está a chave.

Os jovens da Gangue de Hollywood, a todo momento influenciados por uma cultura de culto à celebridade, viu nos roubos uma possibilidade de alcançar um “estilo de vida” parecido com o das estrelas que eles idolatravam, sem precisar trabalhar por isso. Claro, um roubo vai muito além do simples desejo de ter determinada marca. O roubo ultrapassa o bom senso, pula o muro dos limites e das regras de convivência em sociedade, invadindo e escancarando o espaço do outro. Durante a leitura me peguei pensando: “por que querem tanto ser que nem o outro? Por que querer adotar um modo de vida tão doentio para si?”. É quase como se eles tivessem sofrido uma lavagem e estivessem doentes por ser outra pessoa.

O fato de uma celebridade ser uma pessoa pública não a torna um exemplo a ser seguido. Onde estão os limites? Não existe. Para muitos que sonham com a fama, a falta de privacidade, por exemplo, é apenas um efeito colateral de ser famoso e rico, duas características que vencem todo o resto.

E foi por ir atrás de tudo isso, por perseguir com tanta ferocidade a fama, o dinheiro e o “estilo de vida” das celebridades que a Bling Ring chegou onde chegou. Acredito que Nancy Jo Sales escreveu de maneira bastante interessante as atuais condições da sociedade americana (e por que não, brasileira também), onde o fascínio pela vida das celebridades e a vontade de ser como elas está nos cegando, fazendo com que pessoas que agem errado, tornem-se ídolos, como, inclusive, aconteceu com os jovens da gangue, que ganharam reality shows, páginas dedicadas no Facebook e comentários positivos a respeito de como são bonitos ou se vestem bem, mesmo quando isso aconteceu porque estavam roubando.

Àqueles que curtem uma leitura mais jornalística, recomendo e muito conhecerem esse trabalho de Sales, é uma reflexão que vale muito a pena.

Autora: Nancy Jo Sales
Tradução: Andrea Gottlieb, Cláudio Figueiredo, Lourdes Sette
Editora: Intrínseca
Páginas: 272
Ano: 2012