Nota

Confidências

hugcouple“Gosto daqui”, disse ela com um sorriso tímido e olhar meigo.

“Eu também”, afirmou ele de forma animada – “o clima é agradável, sem exageros, e a vista não poderia ser melhor! O que mais poderíamos querer vendo o mar pela janela e podendo desfrutá-lo todos os dias”.

Ela riu sem jeito, com cara de quem esperava uma resposta melhor, quem sabe um pouco de romantismo e fantasia. Ele olhou para ela como se perguntasse “o que tem de engraçado nisso? E não somos privilegiados por estarmos aqui?”.

Estou dizendo que gosto daqui”, declarou ela encostando gentilmente a ponta dos dedos no peito dele, onde se aninhou de maneira perfeita. O local parecia desenhado especialmente para ela.

Ele sorriu esclarecido.

“Também gosto quando você se aconchega aqui. Saiba que você não precisa de visto nem de passaporte para permanecer por essas ‘terras’. É cidadã honorária. Melhor, já faz algum tempo que você foi eleita dona desse pedacinho e de todo o resto”, riu-se ele, afirmando a declaração como se estivesse decretando uma ordem de Estado.

Então o sorriso tímido dela tornou-se seguro e, atento, ele a olhou com amor. Sorriram de forma cúmplice. Nem o mar, nem as montanhas, nem as matas verdes e úmidas ou o céu poderiam competir com aquele lugar único para os dois.

Anúncios

na minha estante: Morte em Pemberley

CapaPemberley

Eu não canso de falar aqui no blogue o quanto as histórias escritas pela inglesa Jane Austen imprimem em mim coisas boas e positivas, sempre. De suas obras já conheço Orgulho e Preconceito, Razão e Sentimento, Persuasão e A abadia de Northanger, todas publicadas em versões pocket da L&PM, e todas me transmitiram sentimentos felizes, e por que não às vezes ingênuos. Austen gostava de abordar temas referentes às relações humanas, de forma alguma ousou abordar assuntos que enveredassem por temas sombrios como um assassinato. E parece também que nunca fez questão disso:

“Que outras penas se debrucem sobre coisas como culpa e pesar.
Eu abdico de assuntos odiosos como esses assim que posso, ansiosa para restituir todos os que nada tenham feito de muito grave a um tolerável conforto e para deixar de lado os outros”.
(Nota em Morte em Pemberley de Mansfield Park).

Na obra ‘Morte em Pemberley’ me deparo com uma escritora de quem nunca ouvi falar até assistir a minissérie produzida pela BBC, Death comes to Pemberley. Ali nas letrinhas miúdas que iniciavam as apresentações do episódio, encontrei aquela frase que sempre me salta aos olhos “Based on the novel by P. D. James“, e logo corri para encontrá-lo. Confesso que num primeiro momento pensei que o livro tivesse sido escrito por um homem, preconceito meu, assumo, e qual foi a minha grata surpresa ao pegar o livro pela primeira vez e encontrar a face tranquila de uma senhora inglesa de 94 anos. O livro bonito da Companhia das Letras apresenta uma capa simples, com um castelo envolto por neblina, e cortes em preto, o que faz com que nos preparemos para o que está por vir.

E vem muita coisa, a começar pela história da autora. Phyllis Dorothy James, durante a Segunda Guerra, trabalhou na Cruz Vermelha. Em 1949 assumiu um cargo no Serviço de Segurança Britânico e 19 anos depois entrou para o Departamento de Polícia do Ministério do Interior. Fiquei fascinada. Ainda mais impressionada ao descobrir que P.D. James começou a escrever aos 42 anos, sendo que há 36 anos conta com a ajuda da assistente pessoal e amiga, Joyce McLennan, responsável por digitar suas obras.

Nesse romance policial construído em torno da mansão Pemberley, P. D. James nos traz personagens queridos de Orgulho e Preconceito – alguns até de Persuasão, de forma brevíssima – que agora estão diante de um frio assassinato ocorrido na noite de 14 de outubro de 1803 na floresta da propriedade da família Darcy. James trabalha os fatos de forma a construir um caso sólido a respeito das possibilidades dos acontecimentos, apresentando álibis e suspense acerca das atitudes dos envolvidos, e acredito que o fez de forma simples e bastante interessante. Estou certa de que usou muito de sua própria história nessas páginas.

Quanto à leitura em si, minha neutralidade quanto à ela foi corrompida quando assisti à minissérie. A minha visão dos personagens foi toda construída na lembrança dos atores que vi na produção televisiva. Entretanto, acredito que não prejudicou o essencial.

Apesar de Jane Austen não gostar de falar de assuntos tão tensos, acredito eu que ela teria aprovado a visita que P. D. James fez aos seus caríssimos personagens. Aos fãs de Austen, ‘Morte em Pemberley’ é uma continuação bastante plausível para os personagens de Orgulho e Preconceito, você compra a ideia e se envolve como antes, torcendo pelo sucesso de cada pessoa naquelas páginas. Aos fãs de romances policiais, esse livro com certeza é uma história recheada de suspense e pode ser interessante acompanhar algo que ainda traz um pouquinho de literatura clássica.  Este com certeza é um dos novos livros favoritos 🙂

PS: quanto às comparações entre o livro e a minissérie, bom, existem várias informações diferentes, mas nada que altere significativamente a história, o básico é o mesmo. A minissérie só procurou dar um pouco mais de movimento, o estritamente necessário para uma produção televisiva.

Autora: P. D. James
Tradução: Sonia Moreira
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 341
Ano: 2013

Gratidão

28-001

O meu opa Valentim, aquele cara fortão e querido que me inspirou a escrever Ode aos cabelos brancos, um dia foi esse menininho lindo, descalço, que está à esquerda na foto preto e branca que encontrei remexendo as fotos antigas da família. Hoje ele é o único representante vivo daqueles que sempre foram segundos pais para mim: meus avós. Quando eu encontro fotos deles por aí é impossível não lembrar dos colos, das histórias, dos sorrisos, dos conselhos, dos abraços, dos beijos, dos sonhos compartilhados, das artes em fazer coisas que os pais geralmente não deixam – como comer sobremesa antes do almoço ou limpar a mão na toalha, entre outras situações impossíveis de enumerá-las aqui sem que o conteúdo fique extenso.

Fui muito abençoada por ter tido a oportunidade de conviver com eles. Não são todas as pessoas que tem essa chance. Inclusive, além de poder ter os quatro em minha vida por um bom tempo (nunca o suficiente), tive a oportunidade de conviver com minha bisavó materna, o que eu acredito que, mesmo quando havia a dificuldade da fala, pois ela só falava em alemão, ainda assim foi uma relação muito bonita, de muita troca de sorrisos e olhares cúmplices. Por essas e muitas outras coisas sou muito grata.

E, não podendo estar hoje ao lado deles, três que agora me protegem de outro lugar, e por, em especial não poder abraçar o meu opa querido, quero apenas deixar essa mensagem para a posterioridade, e lembrar do que eu senti nesse dia: uma extrema felicidade e alegria por tê-los tido comigo, num dia de céu com poucas nuvens e uma cara de dia bonito na capital paranaense, hoje um pouco fria, mas nada que impeça de ser aproveitado. Obrigada meus queridos, eu amo muito vocês.

Sobre caçar vaga-lumes ou como descobri a escuridão

Capa-Vagalumes

Tendo nas mãos um pequeno pote de vidro, a menina, ainda ingênua, saiu em busca dos belos vaga-lumes no quintal da casa dos avós. Ela, que por tantas vezes teve o seu caminho iluminado pela presença desses bailarinos noturnos, agora, queria mais. Queria mantê-los ainda mais perto, dançando, limitados a um pequeno pote de vidro. A luz deles pulsando no pequeno recipiente, assim, como uma lanterna “natural”. Dessa forma ela poderia, quem sabe, determinar os caminhos e não ser mais guiada. Mas ela não sabia. Não sabia que não era possível aprisionar a luz. Por mais que acreditasse que teria os pirilampos iluminando tal qual lampião, não foi isso que ela descobriu. Em poucos minutos a menina viu-se no meio da completa escuridão. Aprisionados, os vaga-lumes não encontraram razão para brilhar, e então, a luz amarela que iluminava o rosto e o caminho da menina se extinguiram. E foi assim que, com medo e no mais completo breu, a menina começou a entender que existem coisas impossíveis de aprisionar, ainda mais quando se sabe que nasceram para serem livres.

na minha estante: meses literários (2)

JULHO

Férias, imaginação.
Um livro de literatura fantástica.

111771772SZ

Agosto

Oitavo mês do ano.
O oitavo livro lido em 2014.

 

“- Uma vez na arena, o resto do mundo se torna distante. Todas as pessoas e coisas de que você gostava ou amava praticamente deixam de existir. O céu róseo e os monstros na selva e os tributos que querem seu sangue se tornam sua realidade última, a única que jamais importou em sua vida. Por pior que se sinta com relação a isso, você vai ter de matar, porque na arena você só consegue um único desejo. E custa muito caro.
– Custa sua vida – diz Caesar.
– Ah, não. Custa muito mais do que sua vida. Assassinar pessoas inocentes? – Diz Peeta. – Custa tudo o que você é”. (Suzanne Collins)

Setembro

“Independência ou Morte”.
Um livro que remeta à luta pela liberdade.

Trata basicamente da Revolução Francesa.

Outubro

O único mês cujo nome inicia e termina com a mesma letra.
Um livro cujo título inicie e termine com a mesma letra.

Novembro

“Mês dos mortos”.
Um livro que tenha uma morte impactante.

Dezembro

Natal e Ano Novo.
Um livro com uma capa festiva.

melhor assim

CapaDiadoAmigo

Já era tarde quando os quatro apareceram empoleirados no número 401 e me arrastaram porta à fora.

O apartamento estava quentinho e eu havia me aninhado na poltrona perto do televisor a fim de me manter aquecida, enquanto assistia a Orgulho e Preconceito pela milésima veze bebia chocolate quente, receita de um livro antigo da minha avó. Era um dia especial, eu sei, mas a última coisa que eu gostaria era sair de casa, em um sábado a noite, para enfrentar o frio tempestuoso lá fora e os corações gelados nos bares pelo caminho. Seria pedir muito ficar em casa naquele dia? Uma vontade quase infantil de bater o pé e dizer que eles não poderiam me obrigar.

Mas aqueles olhares encantadores para mim me dominaram. Eles estavam tão empolgados que acabei cedendo. No elevador, depois deles terem me feito me produzir um pouquinho, falavam dos planos para aquela noite.

Eu os conhecia muito bem e acreditava que cada um havia pensado em uma coisa e não tinham decidido nada. Não seria nada fora do comum se eu acabasse escolhendo para onde iríamos. Nós trabalhávamos de uma forma bastante sútil: todos, animados, sugeriam diversas opções, com um brainstorm bem amplo, aos poucos, votávamos nas melhores opções e, por último, um de nós decidia. Geralmente eu. A dificuldade para tomarem uma decisão fazia com que eu assumisse as rédeas da situação.

Estranhamente, naquela noite fria de julho, eu não tomei nenhuma decisão.
Deixei me levar.

Chegamos à um estranho local do qual eu nunca ouvira falar: The Cinnamon, devia ser um lugar novo. Do lado de fora, a arquitetura lembrava muito um pub londrino daqueles que todo mundo já viu em filme. Uma placa daquelas com um desenho e o nome do local em letras meio irlandesas, pendia em cima, ao lado da porta de entrada. Uma porta muito bonita por sinal, vermelha feito sangue, e era ornada com flores da estação.

Comecei a me sentir um pouco mais à vontade, com aquela sensação de estar saindo do casulo e descobrindo algo novo, de novo.
Era reconfortante.

Encontramos uma mesa no canto e nos acomodamos, Lucas se prontificou a ir até o bar fazer nossos pedidos. Depois da pequena jornada até ali é que percebi o tamanho da fome que eu sentia. Enquanto aguardávamos os nossos pratos, bebíamos e ríamos como universitários. Eu já começava a me sentir grata pelo fato deles terem ido até a minha casa me sequestrar para comemorar aquela noite. Afinal de contas, celebrar a amizade e o companheirismo com as pessoas mais importantes do mundo já era mais do que um bom motivo para sair de casa. Eu os amava e sentia-me muito feliz por estar ali.

Adèle
20 de julho de 2009